‘Bolsonaro coloca religião no processo de formulação de políticas’, afirma embaixador durante evento na Hungria

Também presente no encontro, representante do Vaticano alerta que usar a religião para promover políticas públicas é um "desserviço" para o cristianismo

Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Record TV, recebe Bolsonaro durante culto. Imagem: Reprodução/TV

Jornal GGN – A participação do Brasil na conferência internacional para discutir a perseguição sofrida por cristãos pelo mundo, organizada pelo governo de Viktor Orban, na Hungria, revelou que, sob o governo Bolsonaro, o Itamaraty contraria a Constituição ao pregar a religião como política de Estado.

As informações são do blog de Jamil Chade, do UOL, que esteve presente no evento, cobrindo a participação do secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, embaixador Fabio Mendes Marzano, na quarta-feira (27).

O representante do Itamaraty disse que o governo Bolsonaro colocou a religião como processo de políticas públicas e ainda que liberdade religiosa também significa incluir a possibilidade de converter pessoas ‘mostrando a verdade real’. Veja os principais trechos do seu discurso:

“Um banimento parece existir sobre esse assunto [de religião]. É como se falar abertamente de religião machucaria aqueles que dizem não ter uma religião, o que eu acho que é impossível”, afirmou Marzano no evento em Budapeste, capital da Hungria.

“Portanto, o que temos de fazer é enfatizar que a liberdade religiosa não é somente o direito de praticar uma religião. Mas o direito de se manifestar, debater e defender a fé. E mesmo de tentar converter aqueles que não têm uma religião. Claro, não pela força. Mas lhes mostrando a verdade, a verdade real”, completou.

O diplomata disse ainda que o governo Bolsonaro passou a considerar a religião na elaboração de políticas públicas no Brasil:

“A religião e espiritualidade sempre tiveram um papel-chave na vida de milhões de pessoas. Ao longo da história, a religião deu valores para diferentes sociedades. Não apenas forjou a arquitetura de nossas cidades. Mas moldou a forma que vivemos e nos relacionamos”, disse. “No coração da família, que é a principal célula sobre a qual qualquer sociedade é construída, a religião nos permite conectar com a essência espiritual da humanidade”, continuou.

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“Uma das principais mudanças conduzidas pelo governo Bolsonaro foi exatamente colocar a religião no processo de formulação de políticas no Brasil”, disse ainda. “Isso foi feito em reconhecimento ao papel central que a religião tem na vida de milhões de brasileiros. Na forma em que vivem, como se definem e como buscam significado para sua existência”, explicou.

Sobre o debate em torno da perseguição de cristãos em âmbito internacional, Manzano disse que esse cenário não é fruto de “um acidente”. “Ela [a perseguição] está ocorrendo de uma forma sistemática e organizada, e muito bem planejada”, continuou.

“Mas hoje, [os cristãos] estão sendo ameaçados na base, nos principais valores, por inimigos muito bem organizados”, arrematou sem especificar quem são os inimigos. Jamil Chade diz que, ao final do evento, perguntou ao embaixador quem seriam os adversários. “Mas não houve uma resposta clara”, conta o articulista.

Sem deixar de garantir a liberdade de religião, a Constituição Federal brasileira também estabelece que o Estado seja laico, portanto, que, de forma alguma a religião ou qualquer tipo de crença seja utilizada como norte na produção de leis. A normativa existe para evitar que os rumos políticos ou jurídicos do país sejam determinados por considerações de fé, pontua Jamil Chade.

“Ela [a Constituição] garante a liberdade de cada pessoa de escolher sua crença ou simplesmente de não ter nenhuma. Entre outros pontos reforçando essa postura, a Constituição também impede que um governo tenha uma relação de ‘aliança’ com cultos religiosos ou igrejas, salvo no caso de interesse público”, pontua o articulista.

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O evento organizada por Orban, que instituiu um governo de extrema-direita na Hungria, com perseguição aberta aos opositores políticos, contou também com a participação de representantes de outros governos, além do Brasil, que despontaram no cenário mundial como ultraconservadores, entre eles EUA e Polônia.

Evento para justificar controle de imigrantes

Ainda segundo informações do blog Jamil Chade, ONGs de oposição acusam o governo Orban de ter organizado o debate para justificar a política anti-imigratória, contra refugiados do Oriente Médio, para manter a Hungria “branca”.

“No primeiro dia da conferência, Orban alertou sobre o risco de seu país ser uma ‘rota da invasão islâmica’ e que tem o ‘direito de defender sua cultura'”, escreveu o articulista.

Também presente no encontro, o arcebispo Antoine Camilleri, vice-secretário do Vaticano para Relação com os Estados, se manifestou fazendo um alerta sobre misturar fé com política.

O clérigo salientou que a liberdade religiosa é um dos pilares da diplomacia do papa Francisco, justamente no âmbito da defesa dos cristãos que sofrem perseguição em alguns países.

Camilleri pontuou que, mesmo que quando bem-intencionado, a intromissão da fé no Estado, além de politizar a fé, leva para o quadro que o evento procurou alerta: a violação da liberdade religiosa.

O arcebispo concluiu que a postura de usar a religião para promover políticas públicas, portanto, é um “desserviço” para o cristianismo.

*Clique aqui para ler o artigo de Jamil Chade na íntegra.

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2 comentários

  1. Pois, além de colocar a religião como obsessiva formatação num estado laico, o que é inconstitucional, agora, ainda nos faz vivenciar dois crimes de estelionato:
    a) a carne, pelo menos nos estados de SC e RS aumentou de um dia para o outro em até 40% sob a alegação de que “estamos” vendendo muita carne bovina para a China (no começo) e, agora, também para a Rússia, como se as vendas não fossem sempre as mesmas e, mesmo quando diminuem, são objeto de largas manchetes na dita grande mídia;
    b) a tarifa de 0,25%, mensal, a ser cobrada dos incautos correntistas, a partir de 2020, conforme decisão do tal conselho monetário nacional (argh), pela NÃO utilização de seus limites de crédito nas ditas contas-especiais (ouro et caterva), pois, os banqueiros (tadinhos) sofrem prejuízos imensos pela não tomada dos limites pela clientela – observe-se que o tal cheque especial existe há cerca de 50 anos entre nós e, NUNCA, alguém teve o caradurismo de vir com essa conversa criminosa; por cima, pelos números apresentados pelo neto do entregador-qualquer-coisa-já-nos-aninhos-60, do BC, os banquinhos e banquetas terão arrecadação de mais de 800.000.000, com a referida tarifa, mensalmente, em 2020: ou, uns 10 bilhões AO ANO.
    Até agora, não li nada sobre esses roubos…

  2. Está aí a nascer um novo “khomeini” cristão nos trópicos. Vai usar o edir macedo, pela sua capacidade inegável de conquistas, tipo um Genghis Khan do século XXI. A meta final será no futuro um EC (Estado Cristão) nos moldes do atual EI (Estado Islâmico) porque aloprado e sem ética são (ele, família e assessores). Tudo começa assim!!!

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