Há uma ironia difícil de ignorar: o país que saiu de uma ditadura militar há pouco mais de quatro décadas conseguiu reagir institucionalmente melhor a um presidente de vocação autoritária do que a democracia mais antiga do Ocidente.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, foi fruto de uma convergência explosiva: recessão econômica, desgaste profundo do sistema político, demonização da política impulsionada pela Lava Jato e radicalização digital. O cenário lembrava o que levou Donald Trump ao poder nos Estados Unidos.
Mas como lembra o site Vox em um longo artigo, o desfecho foi diferente.
O sistema que muitos criticaram virou barreira
O que limitou Bolsonaro não foi um surto de virtude republicana das elites nem uma mobilização popular constante ao longo do mandato. Foi, em grande medida, o próprio presidencialismo de coalizão.
O sistema multipartidário brasileiro — com um Congresso fragmentado e dependente de negociação permanente — impediu que o Executivo capturasse completamente o Legislativo. Ao contrário do bipartidarismo norte-americano, em que a disciplina partidária pode blindar presidentes, o Centrão não tinha compromisso ideológico com o bolsonarismo.
Tinha compromisso com orçamento, cargos e sobrevivência política.
Quando Bolsonaro tentou ampliar poderes por meio de decretos, interferir em políticas sensíveis ou tensionar os limites institucionais, o Congresso reagiu. Não por convicção democrática, mas porque um presidente forte demais reduziria seu próprio poder de barganha.
A lógica fisiológica funcionou como freio institucional.
STF: protagonismo e controvérsia
Se o Congresso impôs limites pragmáticos, o Supremo Tribunal Federal assumiu protagonismo decisivo.
Sob liderança de Alexandre de Moraes, o STF abriu inquéritos sobre ataques às instituições, enfrentou redes de desinformação, bloqueou investidas contra o sistema eleitoral e, após o 8 de janeiro de 2023, conduziu a responsabilização penal dos envolvidos.
Há debate legítimo sobre os métodos adotados e os riscos de concentração de poderes. Ainda assim, diante de um Executivo que testava os limites constitucionais de forma reiterada, o Judiciário optou por agir — e não por se omitir.
Essa escolha foi determinante.
O fator militar: cálculo, não conversão
O fracasso da tentativa de ruptura também passou pelas Forças Armadas. Parte do Alto Comando avaliou que os custos de um golpe seriam altos demais: isolamento internacional, sanções econômicas, instabilidade interna e ausência de apoio consistente das elites.
A democracia não foi preservada por conversão democrática dos quartéis, mas por cálculo.
A lição estrutural
O contraste com os Estados Unidos é revelador. Lá, o sistema bipartidário permitiu que Trump mantivesse forte controle sobre seu partido, reduzindo o espaço para dissidências internas e enfraquecendo os freios legislativos.
No Brasil, a fragmentação partidária impediu essa captura total.
O mesmo arranjo criticado por fomentar fisiologismo e corrupção criou incentivos para que atores políticos defendessem o sistema que garante sua própria sobrevivência.
A democracia brasileira não venceu por pureza institucional. Venceu porque sua engrenagem dispersa tornou difícil a concentração absoluta de poder.
Isso não significa estabilidade plena. A polarização permanece, o bolsonarismo continua socialmente ativo e o sistema político segue marcado por distorções estruturais.
Mas, no momento decisivo, as instituições funcionaram.
E isso, na história recente brasileira, é um dado político relevante.
Sergio Santos
19 de fevereiro de 2026 3:56 am… porque lá não teve um hacker e uma operação Vaza Jato, porque o candidato deles é bilionário, enquanto o daqui é miliCIonário,…