‘É impossível reduzir desigualdade pelo modelo atual de crescimento’, diz Marcelo Medeiros

“‘Crescimentismo’ é apenas uma forma intelectualizada de negacionismo climático”, afirma um dos principais estudiosos da desigualdade social do Brasil

Marcelo Medeiros na UnB. Foto: ARQUIVO PESSOAL

Jornal GGN – É impossível que a metade mais pobre do mundo alcance o 1% mais rico pela via do crescimento. Até mesmo a renda dos 10% mais ricos já seria arriscado demais. O planeta simplesmente não aguenta”, afirma o sociólogo e economista Marcelo Medeiros em entrevista ao jornal Valor.

Ele é considerado hoje um dos principais estudiosos da desigualdade social do Brasil, e avalia que a estratégia de desenvolvimento a partir do crescimento econômico chegou a um limite, que é o Meio Ambiente.

“Desenvolvimento não é seguir o caminho que os outros seguiram no passado. Desenvolvimento não é um sinônimo rasteiro de crescimento. Por sinal, existe um limite para o crescimento, um limite ambiental. Nós já estamos em uma crise climática, lenta, mas crescente. O esforço agora tem que ser revertê-la”, destaca.

Ele chama a estratégia de desenvolvimento econômico perseguida no último século de “crescimentismo”. “No ponto que estamos, a base do desenvolvimento daqui em diante tem que ser cada vez mais igualdade. O “crescimentismo” terá que ceder lugar para o igualitarismo, se o desenvolvimento com um mínimo de justiça for levado a sério. Conclusão, aliás, que vale para a desigualdade dentro dos países e também para a entre países”, pondera.

Medeiros destaca que o modelo igualitário de desenvolvimento, obviamente, não irá “acontecer da noite para o dia”, mas é preciso alterar a rota o quanto antes, “porque crescer aceleradamente não é mais uma alternativa”.

“É um problema cumulativo. O que for feito agora comprometerá o longo prazo. Isso vem sendo dito há décadas, mas há quem prefira não levar a sério. Incrível é que há até economistas que ignoram que recursos são escassos. No Brasil tem gente que acusa os outros de terraplanistas porque não se preocupam com o futuro da Previdência, mas faz a mesma coisa quando o assunto é conservação ambiental”, arremata o economista.

“Veja bem, é inconsistente: precisa de ajuste fiscal, porque os recursos são inexoravelmente escassos, mas não precisa de ajuste ambiental porque os recursos não são sempre escassos, vai cair maná do céu e esse problema será resolvido. O “crescimentismo” é apenas uma forma intelectualizada de negacionismo climático”, explica.

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Ao ser questionado se a tecnologia pode contribuir para mitigar os efeitos do “crescimentismo”, reduzindo a exploração acelerada dos recursos naturais, o economista responde que “apostar apenas na tecnologia é uma aposta ingênua”.

“Nos padrões de mudança tecnológica que tivemos nos últimos cem anos, nenhuma tecnologia seria suficiente para reduzir radicalmente o consumo mundial de água e carbono nas próximas duas ou três décadas, por exemplo. E não temos esse tempo todo, muito do que está acontecendo agora já é irreversível”, alerta.

“A tecnologia pode nos ajudar, mas é preciso mais do que tecnologia, é preciso reduzir consumo. A renda está concentrada entre os mais ricos e, por isso, o consumo também. Os mais ricos do mundo são responsáveis por uma parte grande da crise climática em que entramos”, pontua.

Medeiros prossegue explicando que existem “duas desigualdades importantes em jogo”. Uma delas “é a que existe entre os ricos do mundo e outros bilhões de pessoas”. “O planeta é uma propriedade coletiva. Os ganhos dos ricos são privados, mas os danos são coletivos. Moralmente, é justo e correto exigir de todos uma redução progressiva do consumo, o comprometimento dos ricos tem que ser bem maior do que o dos pobres”, esclarece.

A segunda desigualdade apontada pelo economista é a “desigualdade entre gerações”. ” A crise é lenta, mas sem mudanças radicais, será inevitável. O pesado da conta da crise ambiental será pago por quem é criança atualmente. Portanto, também é um conflito distributivo entre jovens e velhos. Não é sem razão que a preocupação ambiental é muito maior entre jovens. O que é de uma maturidade impressionante. Eles são os filhos dos adultos que acham que está tudo sob controle porque uma solução vai cair do céu”, destaca.

Ao ser questionado sobre a avaliação de alguns de que o problema não é a desigualdade em si, mas sim a pobreza, Medeiros arrematou que a “igualdade é a solução”.

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“Uma das forma de se reduzir a pobreza é redistribuição. Portanto, quem se preocupa com pobreza tem de se preocupar com igualdade. A pobreza, aliás, é uma forma de desigualdade, a desigualdade entre os pobres e o resto. Logo, é melhor deixar essa filosofia de segunda classe de lado. Desigualdade entre homens e mulheres não é relevante, porque não é pobreza? Racismo não é relevante? Quem tem um mínimo de preocupação com justiça tem que levar esses assuntos a sério”, afirma.

Marcelo Medeiros mora hoje com a família nos Estados Unidos, onde atua como professor visitante da Universidade de Princeton. A movimentação para fora do país aconteceu em razão de ameaças que a família passou a sofrer de grupos de extrema direita. Ele é casado com Débora Diniz, professora de direito e ativista pela discriminação do aborto.

“O ódio está sendo deliberadamente usado como ferramenta política. Nossa saída do Brasil é resultado da política do ódio”, conta.

*Clique aqui para ler a entrevista na íntegra.

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