As eleições municipais, a direita e a cobertura da imprensa marrom
por Lauro Mattei
É indiscutível que a onde conservadora que assola o mundo também está presente no Brasil. As eleições legislativas e executivas desde o pleito de 2018 vêm demonstrando isso, sendo que o exemplo mais acabado é a atual legislatura do Congresso Nacional que, majoritariamente, está sob o domínio das forças conservadoras e reacionárias que emergiram fortemente na sociedade brasileiras nas duas últimas décadas.
Seria ingenuidade esperar algo muito diferente dos resultados que foram revelados com a finalização do pleito municipal de 2024 nas 51 cidades que realizaram o segundo turno, assunto que destinarei algumas pitadas na seara dominada pelas análises conservadoras da imprensa direitista. Mas antes vou fazer um breve retrospecto dos últimos dois pleitos municipais, segundo as maiores siglas partidárias de direita e de esquerda, conforme Tabela 1. Neste caso, consideram-se os partidos de 1 a 6 como de direita e de centro-direita e os demais de esquerda e de centro-esquerda.
No caso das eleições municipais de 2024 é importante destacar, inicialmente que essas 10 siglas partidas – como cabeça de chapa – irão governar 5006 cidades, o que corresponde a 90% de todos os municípios do país. Deste percentual (90%), aproximadamente 20% será governado pelos partidos de centro-esquerda e de esquerda.
O foco desta análise preliminar recairá sobre o Partido Liberal, por duas razões básicas: a primeira é resgatar a estratégia amplamente divulgada por esse partido no início do corrente ano de que a meta era atingir a governança em mil municípios do país. Os resultados preliminares mostram que tal meta não atingiu 50% e que o crescimento numérico de administrações municipais, por parte desse partido, não ultrapassou a 50%. A segunda diz respeito à chamada da imprensa direitista logo após a finalização do segundo turno: “liderada pelo PL, a direita é a grande vencedora das eleições no segundo turno” (UOL/FSP). Segundo tal matéria, depois de emplacar a maioria dos prefeitos no primeiro turno, a direita concluiu o serviço no segundo turno e se consolidou coma grande força política. Para contestar essa linha de interpretação, afirma-se que a direita venceu em 55% dos locais que tiveram eleições no dia 27.10.2024.
Tabela 1: Prefeitos eleitos nas eleições municipais de 2020 e 2024, segundo os diferentes partidos políticos
| Partidos | 2020 | 2024 |
| 1)PSD | 654 | 887 |
| 2)MDB | 784 | 853 |
| 3)PP | 685 | 747 |
| 4)UNIÃO (fusão DEM+PSL) | 0 | 583 |
| 5)PL | 345 | 516 |
| 6)REPUBLICANOS | 211 | 435 |
| 7)PSB | 252 | 309 |
| 8)PSDB | 520 | 273 |
| 9)PT | 183 | 252 |
| 10)PDT | 314 | 151 |
Fonte: dados do site do TSE
Diante da polarização política nacional que persiste desde as últimas eleições presidenciais, é importante analisar mais de perto o que aconteceu nas eleições do segundo turno onde o Partido Liberal (PL) estava concorrendo. No segundo turno das eleições das capitais esse partido estava concorrendo na cabeça da chapa nas seguintes capitais: Aracaju, Belém, Cuiabá, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa e Manaus. Ao final saiu vitorioso apenas em Aracaju e Cuiabá. Além disso, o PL esteve aliado em mais três capitais (Curitiba, Porto Alegre e São Paulo), saindo vitorioso em todas elas, talvez muito mais pela força do partido cabeça de chapa, como foram os casos de Curitiba e de Porto Alegre. A nosso ver isso não significa que o PL liderou a votação em direção ao conservadorismo.
Além, disso, é importante destacar que esse partido também concorria nas eleições com cabeça de chapa nas seguintes cidades: Anápolis, Canoas, Guarulhos, São José do Rio Preto, Aparecida de Goiânia, Caxias do Sul, Franca, Jundiaí, Pelotas, Santarém, Santos e São José dos Campos. Desse total de 12 cidades, o PL só se saiu vitorioso nas quatro primeiras, ou seja, em 1/3 das cidades disputadas.
Em suma, essas informações referentes aos resultados do segundo turno das eleições municipais de 2024 não sustentam as interpretações que a imprensa marron, cuja identificação com os valores de tal agremiação política, pretende disseminar.
Retomando o início do artigo, entendemos que as análises dos resultados eleitorais do pleito recém-concluído não podem ser dissociadas desse cenário político nacional que está cada vez mais refém das forças conservadores que se retroalimentam, no âmbito nacional, por meio das famosas emendas parlamentares.
Lauro Mattei – Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC. Coordenador geral do NECAT-UFSC e pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ. Email: l.mattei@ufsc.br
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