11 de junho de 2026

O primeiro turno das eleições presidenciais sob um ângulo árabe-brasileiro, por Bruno Beaklini

Assim como a extrema direita ganhou as ruas da esquerda, as bandeiras do apartheid sionista estão mais presentes do que a da libertação da Palestina.

do Monitor do Oriente Médio

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O primeiro turno das eleições presidenciais sob um ângulo árabe-brasileiro

por Bruno Beaklini

Escrevemos de forma rápida e até mesmo impressionista, deixando o artigo analítico para outro momento – a sair em breve – com a observação pormenorizada do pleito presidencial e dos governos estaduais. Focamos nos resultados do primeiro turno para presidente e o papel de brimas e brimos nesta luta política.

Matematicamente teremos uma eleição de segundo turno no país. Luiz Inácio Lula da Silva ganhou nas regiões Norte e Nordeste enquanto Jair Messias Bolsonaro saiu vitorioso no Centro-Oeste, Sudeste e Sul. A diferença média gira em torno de 5%, dentro do total dos votos válidos, com mais de 56 milhões de votos para o ex-presidente e cerca de 51 milhões para Bolsonaro. Importante ressaltar que a abstenção foi de 20,9% sendo que em 2018, foi de 20,3%.  O contexto lembra a eleição de 2014, quando Dilma vai para o segundo turno apertado com Aécio e depois ganha por menos de 4 pontos. A extrema direita, apoiadora incondicional do inimigo estratégico da Causa Árabe, sai fortalecida e aprovada nas urnas. Esta evidência será debatida no texto.

A posição árabe-brasileira na política doméstica 

Este artigo segue na lógica das demais publicações anteriores, buscando identificar interesses e objetivos para a maioria da colônia de mais de 16 milhões de árabe-descendentes e o conflito interno que temos no Brasil e na América Latina. Por um lado, somos socialmente brancos e majoritariamente posicionados da classe média para cima na pirâmide social. Por outro, nossos territórios de origem (o querido Bilad al-Sham), se vêem permanentemente ameaçados pela entidade sionista e com o financiamento irrestrito dos EUA.

Na política doméstica não é diferente. De um lado, na agenda internacional, a tendência é que a esquerda seja pró-Palestina, embora muitas vezes a pauta de costumes se interpõe diante da necessidade da sobrevivência. “Magicamente”, nós árabes podemos ser taxados pelo inimigo europeu como sendo “antissemitas”, e a extrema direita que apoia Israel, disfarça seu autêntico antissemitismo e se coloca anti-árabe e explicitamente islamofóbica.

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Já na agenda nacional no Brasil, se depender necessariamente do interesse de classe, o empresariado de origem árabe tende a apoiar a direita e por vezes, até mesmo a extrema direita aliada do sionismo. Nomes não faltam, para vergonha e desgraça de filhas e filhos de Ismail.

No espaço público também estamos perdendo. Assim como a extrema direita ganhou as ruas da esquerda, as bandeiras do apartheid sionista estão mais presentes do que a da libertação da Palestina. Cabe uma analogia forte. É como se na década de ’80 do século XX, a simbologia da África do Sul do apartheid estivesse mais visível do que do nosso querido pan-arabismo. E, em seguindo essa forma análoga, seria como se um hipotético empresariado afro-brasileiro apoiasse os racistas sul-africanos devido ao seu posicionamento de classe e a lealdade ao “ocidente”.

Derrotar o apartheid e os protofascistas seus aliados é uma urgência brasileira, e vai muito além da urna. Esta eleição apertada representa isso.

As eleições na Palestina Ocupada 

Lula e Bolsonaro tiveram disputa acirrada nos Territórios Ocupados de 1948, também conhecido como Estado de Israel, criado com a Nakba em 1948. 45,9% a 36,6% dos votos. Nao deixa de ser uma surpresa, ou um típico movimento pendular. Baixa adesão eleitoral por um lado e a percepção de que o Poder Executivo no Brasil pode virar de lado em breve.

Já nos Territórios Ocupados de 1967, concentrando os votos em Ramallah na Palestina Ocupada, Luiz Inácio Lula da Silva obteve 84,8% dos votos contra apenas 7,4% para Bolsonaro. A apuração reflete a política externa de ambos governos, sendo que o ex-presidente aplicava uma via de mão dupla: a típica teoria do empate por um lado, mas uma relevante inclinação Sul Sul por outro.

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Considerando que as identidades coletivas da colônia e sua já centenária descendência se dividem entre uma classe média (ilustrada ou não) e um vínculo empresarial (assim como nos estamentos jurídicos, artísticos), a tendência é ir para a direita no falso moralismo pós Lava Jato.

A disputa de forças intra-elites e poderes constituídos 

Ao contrário de 2018, esse pleito tem o favorito no páreo (Lula) e uma composição de forças que vai da direita liberal democrática até a esquerda reformista. No campo dos poderes de fato, o posicionamento do STF ao derrogar a Operação Lava Jato (anulando sentenças e julgamentos contra o ex-presidente Lula) mudou consideravelmente. No que se refere a frações de classe dominante, como FIESP e FEBRABAN assinando uma das cartas em defesa da democracia. No campo dos meios hegemônicos, a inclinação da Rede Globo para a aliança social-democrata é visível, sendo que SBT, Record e Rede TV (as duas primeiras redes de emissoras explicitamente sionistas) se alinham com os protofascistas.

Outro conflito de interesses entre a política internacional e a doméstica está na posição da embaixada dos EUA e a administração democrata de Joe Biden. Israel é o aliado estratégico do Império Anglo-Saxão Americano e esta condição é bipartidária. Já na projeção de poder para as Américas, podemos ver um maior alinhamento de transfusão cultural. O chamado “cinturão bíblico” da direita republicana estadunidense encontra eco nas empresas de exploração da fé alheia que arrecadam em espécie alinhando neopentecostais, pentecostais e renovados. Este fenômeno ocorre não apenas no Brasil, mas em toda América Latina, com ênfase em alguns países além do nosso: Guatemala, Honduras, Paraguai e Colômbia por exemplo.

Em termos de arranjo externo-interno, como Jair Bolsonaro se alinhou integralmente na agenda do trumpismo tropical, aceitando o próprio Donald Trump como líder e Steve Bannon na figura de ideólogo, é impossível para a Casa Branca de Biden encontrar eco ou ponto de diálogo com os protofascistas brasileiros. O inverso é verdadeiro. Da parte da centro esquerda e da direita liberal-democrática, a agenda mais “avançada de costumes”, ampla, geral e inclusiva, constitui um fundamento político contemporâneo e é cavalo de batalha do Partido Democrata.

Outro aspecto revelador na semelhança da política interna dos EUA para aquela existente no Brasil após a chegada da Operação Lava Jato é o descrédito no jornalismo profissional de meios hegemônicos, mesmo quando esses veículos são a base do consumo cultural brasileiro, como é o caso da Rede Globo. Curioso é observar que as bases da Lava Jato vêm do Projeto Pontes, a versão jurídica do “big stick” na Era Obama inaugurada ainda em fevereiro de 2009, em sua primeira administração com Hillary Clinton (derrotada por Clinton em 2016) à frente do Departamento de Estado. Em suma, o veneno termina atingindo o próprio escorpião.

Uma análise das pesquisas e da manipulação de redes sociais  

Como as previsões do IPEC, IPESPE e DATAFOLHA não chegaram perto de uma vitória de Lula raspando, dando segundo turno ou levando por pouco no primeiro, estamos vendo a ascensão do argumento bolsonarista. Mesmo que a social-democracia vença no 2o turno, como Lula não venceu no primeiro turno com12 pontos de vantagem, outubro se transforma no inferno em verde e amarelo em termos de fake news e manipulação.

O trabalho de difusão de institutos de pesquisa sob encomenda e o reforço de bolhas de opinião publicada manipulando a opção do público levam a um fenômeno do século XXI latino-americano. A extrema direita ganha as ruas, há um abandono dos símbolos do nacionalismo popular latino-americano e a ideia de “país” mais se assemelha a uma cópia do período colonial. As lições da história política ensinam que quanto mais espaço se dá para o inimigo, mais este cresce e devora tudo ao redor.

Breve conclusão 

Teremos um outubro de absoluto frenesi. Espero sinceramente que a social-democracia desista desta lógica absurda de entregar as ruas para os proto-fascistas. No que diz respeito à colônia árabe-brasileira, é fundamental ganhar os espaços públicos dos sionistas e seus aliados no Brasil.

Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini), militante socialista libertário de origem árabe-brasileira, cientista político e professor de relações internacionais e jornalismo. Escreve semanalmente para o MEMO e tem seus textos publicados regularmente em portais como IHU, GGN, Repórter Popular, Semana On, El Coyote, Blog de Canhota, Brasil de Fato, Fórum, Outras Palavras, Brasil Debate e artigos especiais na Carta Maior. Tem presença frequente em rádios latino-americanas e de língua espanhola, além de participação em entrevistas para Hispan TV, Press TV, RT e Radio Sputnik. Editor dos canais do portal Estratégia & Análise.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha Beaklini é jornalista formado pela UFRJ, doutor e mestre em ciência política pela UFRGS, professor de relações internacionais. Editor do portal Estratégia & Análise (no ar desde setembro 2005), comentarista de portais nacionais e internacionais, produtor de canal estrangeiro e editor do Radiojornal dos Trabalhadores.

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  1. Antônio Uchoa Neto

    4 de outubro de 2022 10:07 am

    O crescimento da desigualdade, e portanto da pobreza, leva necessariamente à tomada de posições de força – por quem as pode tomar – e de submissão, por quem é objeto ou vítima dessas posições. Chamem de pusilanimidade, de síndrome de Estocolmo, como quiserem; o fato é que a imensa maioria da população – explorada, marginalizada, empobrecida – não tem como tomar posição, por diversos motivos – o principal deles, a ignorância, de si e do mundo. Essa população é sempre a bucha de canhão das guerras, das revoluções, e, hoje em dia, das eleições. Ponto.
    As revoluções, se as houvesse ainda, no mundo de hoje, são ou serão televisadas; deixando as metáforas de lado, perderam o elemento subterrâneo, clandestino, que as possibilitava tomar força e emergir à superfície, irresistíveis, a partir do momento em que as massas se punham em movimento, e a elas aderiam. Hoje, essas mesmas massas emergiriam nas ruas, com os celulares apontando para si, fazendo selfies individuais e coletivas. Vale mais uma penca de seguidores nas redes sociais, do que entender o que está, de fato, se passando. Essa será a revolução que nos sobrará, de hoje em diante. A atomização irreversível do homem, e consequente fragmentação da sociedade, coloca como única revolução possível as eleições. E as eleições são obra e projeto da elite – são a perpetuação pacífica de seu domínio, sob a fantasia de participação democrática, aquela velha história cabotina de “do povo, para o povo, e pelo povo.”
    As posições de força, por quem as pode tomar, são todas contrárias aos interesses do povo – mas tanto faz, porque o povo, ele mesmo, desconhece ou mal compreende seus próprios interesses, limitando-se a consumir a própria vida no desejo, consciente ou inconsciente, de emular o modo de vida de quem está acima na escala social. O que o leva, automaticamente, a abraçar e apoiar essas mesmas posições de força. Não é suicídio, não é auto-imolação. É ignorância, é o devorar-se a si mesmo, pelo cérebro ou pelo fígado.
    Com tudo isso, ainda creio em vitória de Lula, em 30 de outubro. Mas o que virá depois, nem Deus sabe, pois creio que, se Ele existe, já nos abandonou à nossa própria sorte. Ele existindo ou não, tudo é permitido aos que podem tomar posições de força. Que, ao que parece, sempre terão a seu lado suas vítimas e objetos, voluntariamente.
    è o melhor dos mundos, o deles. E nós, em lugar de destruí-lo, queremos entrar nele.

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