6 de novembro de 2026

Como Milei e Trump ajudaram Flávio Bolsonaro a fugir do Brasil

Senador percorreu mais de 1,6 mil quilômetros por terra e seguiu para Miami em jato particular; ao NYT, político negou ajuda externa
Foto: RS/Fotos Públicas

Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil com família em jatos e carros, após cancelamento de passaportes e alerta migratório.
Assessor de Javier Milei teria coordenado embarque na tríplice fronteira, agilizando documentação e apagando imagens.
Casa Branca organizou jato e Trump autorizou entrada, concedendo parole para permanência de Flávio nos EUA.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva, envolveu uma operação internacional com jatos particulares, veículos usados para despistar monitoramentos e a participação de integrantes dos governos de Donald Trump e Javier Milei.

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Flávio deixou o Brasil na noite de 27 de outubro, acompanhado da mulher e das duas filhas. Depois de percorrer mais de 1,6 mil quilômetros por terra até a fronteira argentina, embarcou em um jato particular em Puerto Iguazú, fez escala no Equador e chegou a Miami.

A viagem ocorreu depois que autoridades brasileiras determinaram que o senador entregasse seus passaportes, no contexto de investigações criminais. Os documentos foram cancelados e um alerta migratório foi emitido para impedir sua saída do país.

Em entrevista de 75 minutos ao New York Times, publicada em 5 de novembro, Flávio negou ter recebido ajuda de governos ou autoridades estrangeiras. “Foi tudo eu”, afirmou. Questionado sobre como conseguiu chegar aos Estados Unidos, acrescentou: “Como cheguei aqui, vou levar para o túmulo”.

As informações reunidas pelos jornais, entretanto, apontam para uma operação articulada com participação de aliados estrangeiros.

Deslocamento terrestre e jatos particulares

Segundo o Clarín, o plano inicial previa que a família viajasse de Brasília até a região da tríplice fronteira em um jato particular. O proprietário da aeronave desistiu de cumprir o contrato depois que a imprensa divulgou que Flávio estava proibido de deixar o Brasil.

A família teria então percorrido mais de 1,6 mil quilômetros por estrada. Para despistar possíveis monitoramentos, seis veículos teriam saído em sequência da residência dos Bolsonaro, em Brasília.

A operação também contou com pelo menos quatro jatos particulares, segundo o jornal argentino. O principal era um Gulfstream IV, de matrícula LV-JQW, pertencente à empresa Baires Fly. A aeronave saiu de Buenos Aires em 26 de outubro e aguardou em Puerto Iguazú até a madrugada de quarta-feira (28).

O proprietário da empresa, Luis Grande, confirmou ao New York Times que o avião havia sido alugado por um intermediário por US$ 150 mil. Outro jato, um Learjet 45, também esteve no aeroporto argentino e retornou a Buenos Aires horas antes da chegada da família.

Duas outras aeronaves com matrículas norte-americanas apareceram em registros de voos entre a Flórida e a região de Misiones. Uma delas teria seguido para Assunção, no Paraguai, com um plano de voo considerado enganoso pelo Clarín, como parte das alternativas de saída.

Assessor de Milei teria coordenado embarque

Um dos principais personagens da operação é Santiago Caputo, assessor próximo do presidente argentino Javier Milei. Segundo o New York Times, Caputo percorreu cerca de 1.290 quilômetros desde Buenos Aires e chegou à região na noite de 26 de outubro. Três pessoas familiarizadas com a operação afirmaram que ele ajudou a coordenar a saída do senador, facilitando o processamento dos passaportes e a documentação do voo.

As mesmas fontes disseram que Caputo e seus assessores agilizaram os procedimentos alfandegários. Depois da decolagem, o assessor teria procurado um policial que gravava imagens da pista e ordenado que apagasse os vídeos. O Clarín também atribuiu a Milei a decisão de enviar Caputo à região para garantir o sucesso da operação.

Caputo negou envolvimento, assim como o Ministério das Relações Exteriores argentino. Flávio afirmou ao NYT que não conhecia o assessor, embora tenha agradecido publicamente a Milei depois de chegar aos Estados Unidos.

Casa Branca organizou avião e Trump autorizou entrada

As reportagens do New York Times apontam que a participação dos Estados Unidos foi além da concessão de autorização migratória. Segundo autoridades norte-americanas ouvidas pelo jornal, Jason Miller, funcionário da área de Comunicação da Casa Branca e aliado da família Bolsonaro, organizou o jato particular utilizado na viagem.

O plano teria começado a ser colocado em prática na segunda-feira (26), depois que Flávio recebeu a determinação de entregar seus passaportes.

O presidente Donald Trump também confirmou que autorizou a entrada do senador nos Estados Unidos. Flávio e sua família receberam o chamado parole, mecanismo de permanência temporária concedido por razões humanitárias ou de interesse público. A autorização permite que permaneçam no país por pelo menos um ano.

Segundo autoridades ouvidas pelo NYT, Flávio poderá solicitar residência permanente, conhecida como green card, e o processo poderá ser acelerado. A reportagem também identificou um registro público que sugere que o senador apresentou um passaporte diplomático brasileiro cancelado ao chegar aos Estados Unidos.

No Brasil, a Polícia Federal informou que não havia registro oficial da saída do senador e que investigaria as circunstâncias do descumprimento da ordem judicial. A corporação ressaltou, porém, que a restrição de viagem não significava necessariamente que Flávio fosse considerado foragido ou pudesse ser preso.

Flávio acusa Judiciário e promete continuar na política

Na entrevista ao NYT, Flávio justificou a saída do Brasil alegando perseguição política e afirmou que sua prisão seria inevitável caso permanecesse no país. Ele não foi formalmente acusado de crime, mas é investigado em casos relacionados a lavagem de dinheiro e corrupção.

O senador também voltou a questionar o resultado eleitoral, alegando, sem apresentar provas, que a vitória de Lula seria fraudulenta. As autoridades eleitorais brasileiras rejeitaram as acusações, e observadores internacionais independentes atestaram a integridade do processo.

Mesmo nos Estados Unidos, Flávio pretende continuar atuando na política brasileira. Disse que buscará contestar judicialmente a vitória de Lula, embora reconheça que as chances de sucesso são pequenas. Também pretende apoiar aliados que defendem a anistia para o pai e os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.

Questionado sobre a possibilidade de pressionar o governo Trump a adotar novas medidas contra o Brasil, o senador evitou responder diretamente. Também não descartou uma nova candidatura presidencial: “Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente”.

A permanência de Flávio nos Estados Unidos pode ter consequências diplomáticas. Em análise publicada pelo Intercept Brasil, a situação é comparada à do general português António de Spínola, que fugiu para o Brasil após uma tentativa frustrada de golpe em Portugal, em 1975. O artigo avalia que o senador pode se tornar um instrumento de pressão de Trump sobre o governo brasileiro, inclusive em negociações comerciais.

Apesar das revelações, ainda não estão esclarecidos todos os detalhes sobre o financiamento da operação, a participação efetiva dos agentes estrangeiros e como Flávio conseguiu atravessar a fronteira brasileira depois do cancelamento de seus documentos.

Em sua entrevista, o senador afirmou que não revelará como conseguiu chegar aos Estados Unidos. A frase resume o principal ponto ainda sem resposta sobre a operação: quem organizou, financiou e garantiu a saída do Brasil de um parlamentar submetido a restrições judiciais.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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