A presença de Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina Ana Clara, assassinada aos cinco anos com tiros de fuzil, marcou o momento de maior tensão no debate presidencial da TV Globo na noite desta nesta sexta-feira (23). Questionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre sua atuação como advogado do policial militar acusado do crime, o senador Flávio Bolsonaro (PL) protagonizou uma cena de brutal insensibilidade: dirigiu-se à mãe chamando-a pelo nome da filha assassinada.
O flagrante desrespeito à dor da família ocorreu enquanto o parlamentar tentava justificar a defesa gratuita do cabo da PM Bruno Dias Delaroli. Em uma fala que buscou emplacar a tese de confronto armado, Flávio declarou:
“Ana Clara, quero falar com a senhora. Deixo minha solidariedade. Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filha de cinco anos de idade. Eu tenho uma filha de 14 e de 12. Era uma troca de tiros. Eu quero ajudar a achar o autor desses disparos, porque eu tenho a confiança que não foi esse policial.”
A postura do senador causou indignação imediata. Da plateia, Cristiane levantou-se para expor a falta de empatia e a distorção dos fatos por parte do político. “Eu não tive uma resposta qualquer. Por que ele defendia o assassino da minha filha? Ele inventou um confronto ali, como o policial inventou no dia. Ele nem sabe da história“, protestou a mãe.
Sombra das milícias
O comportamento de Flávio Bolsonaro foi duramente confrontado por Lula, que inseriu a atitude do adversário em um longo histórico de proximidade com o crime organizado fluminense.
“Eu fico pensando no povo que está nos assistindo agora, vendo esse rapaz. Todo mundo sabe a relação dele com muita coisa ruim aqui no Rio de Janeiro. Não sou eu quem falo, é a imprensa que fala todo dia“, afirmou o petista, referindo-se às investigações do esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). “Todo dia ele defende miliciano, dando emprego para mãe e irmã do dono do Escritório do Crime.“
As nomeações citadas por Lula ocorreram no antigo gabinete do senador na Alerj, que abrigou familiares do ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado como chefe da milícia.
O caso Ana Clara
Ana Clara brincava na porta de casa na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói (RJ), quando foi atingida por dois tiros de fuzil em 2 de fevereiro de 2021. Denunciado por homicídio doloso, quando há intenção ou se assume o risco de matar, o cabo Delaroli foi preso em flagrante, mas responde ao processo em liberdade desde novembro daquele ano.
A manobra política em torno da tragédia ganhou força em 2024, quando Flávio assumiu a defesa do PM. O senador chegou a assinar um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar barrar o júri popular, pedido que foi negado. O julgamento, inicialmente previsto para a última quarta-feira (21), foi adiado para 5 de maio de 2027.
Cenário de indefinição
O acirramento no debate da Globo reflete o momento crítico da eleição. Pesquisas recentes consolidam um cenário de empate técnico, embora o candidato do PL mantenha ligeira vantagem numérica. No levantamento da Quaest, Flávio aparece com 45% dos votos totais contra 44% de Lula. O Datafolha mostra placar semelhante, de 47% a 46%.
O salto no número de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest, que dobrou de 7% para 14%, transforma a capacidade de persuasão e os deslizes nos debates televisivos em fatores decisivos para a escolha final do eleitorado.
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