5 de junho de 2026

O período de transição política na Venezuela

Por Maíra Vasconcelos

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Do Portal Luis Nassif

A posse do presidente

De agora em diante, com o passar dos dias e meses, o eleitorado chavista perceberá, ainda mais, que seu líder não está, realmente, presente. Choque de realidade. Como é o viver de toda experiência de morte, os registros da falta se sucedem com o passar dos dias, do tempo. O sentimento dispensado ao Hugo Rafael Chávez Frías, por seus seguidores, tem a carga e o peso afetivo como da perda de um ente da família que não circula mais dentro da casa de cada um deles – ademais, que, muitas dessas casas, foram conseguidas via os programas de assistência social, durante seu governo.

Desde a morte do “comandante”, o período é de transição a um novo governo e liderança política. Desde o dia 5 de março, até o hoje 18 de abril, são escassos os 45 dias, frente tal enxurrada de fatos corridos nesse espaço de tempo. Os venezuelanos, sejam chavistas, sejam opositores, todos, e sem distinção política ideológico-partidário, foram submergidos pelos acontecimentos pós-morte de Hugo Chávez. Cada qual a seu lado: desamparados ou aliviados.

processo eleitoral foi carregado de impressões golpistas, de insegurança e medo pela perda da continuidade da “revolução bolivariana”. Após a proclamação de Nicolás Maduro presidente, pelo CNE, 1,6% de diferença animou o ex-candidato e governador do Estado de Miranda, porta-voz da oposição, Henrique Capriles, a aparecer com mãos ocas de provas, mas palavras cheias de acusação de fraude, e o não reconhecimento do processo eleitoral democrático.

O opositor instou seu eleitorado á exigir a recontagem manual dos votos. Imperou o clima de confronto: oito mortos; fala-se em dezoito Centros Médicos de Diagnóstico Integral, um dos projetos sociais chavista,  e cinco sedes regionais do partido governista PSUV, queimadas em todo o país; tumulto em frente às instalações das emissoras estatais TeleSur e VTV, intimidação ás casas da presidente do CNE, e do diretor executivo da PDVSA, que teve a residência atacada com mais de 25 tiros. E a responsabilidade…? A formalidade indica que o Ministério Público abriu inquérito: 161 investigações e uma ação legal contra Capriles.

Por quatro dias, após as eleições, entre 15 e 18 de abril, até a posse, amanhã, essa parcela da população aguentou amarrada como nó no meio da garganta, a sensação de que todos esses benefícios de consumo básico poderiam desaparecer como foi naqueles tempos em que, realmente, esse amontoado de direitos de vida não lhes pertencia.

O eleitorado chavista foi obrigado, então, a votar também no grito, e juntos nas ruas, com bandeiras ao alto. O sentimento de perda pelo voto dado á “revolução socialista de Chávez” está atrelado á casa, ao celular, á pintura que deu dignidade de moradia aos blocos do 23 de Enero, aos centros de saúde públicos e gratuitos e ás escolas bolivarianas.

Com essa apreensão, e carregados de uma obrigação além-voto, os chavistas saíram ás ruas em Caracas e em várias partes do país, quantas foram as manifestações… Centro de Caracas: intrépido. Noites caracterizadas pela dualidade: opositores batiam panela, chavistas soltavam fogos de artifício. Nesses dias que sucederam o ato de proclamação do presidente eleito, até a posse, amanhã, os protestos de apoio a Maduro foram acompanhados pelo espírito de luto por Chávez, olhos emocionados, derramados ou contidos, essa foi uma comum paisagem na Capital transitada por corpos vermelhos, carregados de acessórios do “comandante supremo”.

E passado todo o processo, desde o ponto crucial, 5 de março: morte e velório do líder, eleição, democracia em xeque, oposição com traços antigos e incorrigíveis golpistas, protestos de afirmação do voto, apoio dobrado e triplicado ao presidente eleito, chegou o dia da posse. A previsão: lotar as sete avenidas que circundam a principal Bolívar.

Os chavistas sabem que Maduro não é Chávez, mas sabem desde a palavra dita. Pois, o tempo ainda é curto para sentir de fato o desaparecimento da figura de Chávez Frías, e o viver junto ao ritmo do processo desde a sua morte até o hoje, acoberta esta realidade. Por outro lado, também é a partir de agora que Maduro começará a empreender as atividades cotidianas de governança. Somados ambos os fatores, será de agora em diante que se saberá como “seus eleitores” irão reagir, se irão lhe conferir mediana ou baixa representatividade. Esse é o cenário por vir. O que também dependerá de como a oposição irá tirar proveito da fragilidade e brecha de liderança política deixada pelo “comandante”, e das instabilidades dadas pelas revisões de atitude e ações nas internas do PSUV, ou se insistirão com o velho e tradicional caminho golpista.

Tal situação de um futuro próximo expõe ao menos uma paisagem certa: a dificuldade com a qual irá se deparar Maduro, para incorporar e dar seguimento á mística popular aglutinadora inquestionável das massas, impregnada na Venezuela, após 14 anos de governo Chávez. Seu próprio desempenho, já questionado, é algo ademais a parte do aproveitamento que lhe é exigido em reciprocidade com o que foi Hugo Chávez. Este, um fator que está além do poder formal da democracia, que, amanhã, será de fato e de posse de Nicolás Maduro.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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