5 de junho de 2026

Ministra diz que Ustra é um dos responsáveis pela morte do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino

Sugerido por P Pereira
 
Da Agência Brasil 
 
“Assassinato de Merlino tem responsáveis”, diz ministra sobre morte de preso político
 
Por Elaine Patricia Cruz
 
São Paulo – Em 1971, sob a ditadura militar (1964-1985) no país, o jornalista e militante do Partido Operário Comunista (POC) Luiz Eduardo da Rocha Merlino foi preso, torturado e morto. Enquanto era torturado em um pau-de-arara nas dependências do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operação de Defesa Interna do 2º Exército (DOI-Codi), na Rua Tutóia, em São Paulo, Eleonora Menicucci, atual ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, era torturada na cadeira do dragão (cadeira revestida de metal ligada à corrente elétrica).
 
“Eu estava sendo torturada e ele também. Ele estava em um pau-de-arara e tinha uma ferida enorme na perna direita, que gangrenava. Ele começou a morrer ali”, disse a ministra, relembrando o dia em que presenciou Merlino sendo torturado. “Essa é a coisa mais forte da minha vida, embora eu tenha assistido a outras sessões de tortura e às minhas próprias”, ressaltou. 
 
Na tarde de hoje (13), durante audiência da Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo, a ministra declarou que o ex-comandante do DOI-Codi, o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, é um dos responsáveis pela morte de Merlino. 
 
“O assassinato de Merlino tem responsáveis e pessoas diretamente responsáveis, com a fúria e selvageria que caracterizava [o período]”, disse, acrescentando que na sala de tortura, em que estavam ela e Merlino, estavam também presentes o comandante Ustra, o capitão Ubirajara [como era chamado o delegado Aparecido Laertes Calandra] e JC [como era conhecido Dirceu Gravina]. “Essas três pessoas são absolutamente responsáveis pelo assassinato do Luiz Eduardo da Rocha Merlino”, destacou a ministra.
 

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Na audiência na tarde de hoje na Assembleia Legislativa paulista, mais quatro pessoas, que também estiveram presas no mesmo local, foram ouvidas e disseram ter presenciado momentos do jornalista nas dependências do DOI-Codi. Um deles foi Ivan Seixas, membro da Comissão da Verdade de São Paulo. Ele relatou ter ouvido os gritos de Nicolau [codinome que era usado por Merlino] sendo torturado. “A noite inteira a gente ouviu as torturas pelas quais passou o Nicolau”, disse. Seixas contou que sua cela ficava muito próxima à sala onde Merlino era torturado, e que presenciou Ustra pedindo para que limpassem a sala depois da tortura “porque havia muito sangue”. 
 
A irmã de Seixas, Ieda Seixas, que também esteve presa no mesmo local, declarou ter ouvido os gritos de Merlino. “Ele foi torturado a noite inteira. Aquela noite foi especialmente difícil”. Segundo ela, no dia seguinte, ouviu torturadores dizendo que “Merlino era uma pessoa difícil” porque se recusava a falar ou delatar alguém. 
 
Já Leane de Almeida, que militava no mesmo partido do jornalista, contou ter visto Merlino, após as sessões de tortura, sendo retirado do DOI-Codi e colocado dentro do porta-malas de um carro. “Mas não sei dizer se ele já estava morto”, disse. 
 
Em seu depoimento, Otacílio Cecchini relatou que estava sendo interrogado no DOI-Codi quando ouviu o comandante Ustra receber um aviso sobre um telefonema de um hospital. “Um estranho – um militar – entrou na sala onde eu estava sendo interrogado e disse que havia um telefonema do hospital. Ele não falou que hospital era, mas [disse] que os médicos estavam pedindo contato de uma família porque havia necessidade de uma amputação. Ou seja, havia uma solicitação de um hospital, de um paciente ainda vivo que estava no hospital, sobre um preso político torturado com princípio de gangrena, com necessidade de amputação de uma perna, e o Ustra recebeu esta informação”, ressaltou.
 
Para Cecchini, os depoimentos de hoje demonstram que Merlino foi torturado e morto por agentes da ditadura. “Todos os colegas [aqui presentes na audiência] viram uma série de fatos que, somados, remontam essa história covarde [sobre a morte de Merlino]”, disse.
 
Há alguns anos, a família de Merlino moveu uma ação por danos morais envolvendo Ustra. Na decisão de primeira instância, o coronel foi condenado a indenizar a família em R$ 100 mil por ter participado e comandado sessões de tortura que mataram o jornalista. A defesa de Ustra recorreu da ação.
 
Na audiência de hoje, o jurista e defensor dos direitos humanos Fábio Konder Comparato citou um relatório feito pela Arquidiocese de São Paulo no qual consta que durante o período em que Ustra comandou o DOI-Codi, entre janeiro de 1970 e dezembro de 1973, 40 pessoas morreram no local e mais de 500 foram torturadas. “Muitos desses mortos faleceram em consequência das torturas”, declarou.
 
Comparato criticou o fato da Lei de Anistia no Brasil não permitir a condenação, responsabilização e punição dos torturadores. “Na Argentina, a Lei de Anistia foi anulada. Mais de 200 policiais e militares foram condenados e dois ex-presidentes foram condenados à prisão perpétua e um deles morreu na prisão. No Brasil, nenhum sequer dos torturadores foi condenado com trânsito em julgado”, disse.
 
No decorrer deste ano, segundo o deputado estadual Adriano Diogo, presidente da Comissão Estadual da Verdade, 106 audiências foram feitas pela comissão, restando ainda mais três para serem feitas até o fim deste mês. “Fizemos o primeiro capítulo, que é o capítulo das vítimas e da memória. No próximo ano, vamos tentar fazer o capítulo da repressão, dos agentes do Estado que provocaram toda essa tragédia e barbárie, os assassinatos e ocultamentos de cadáveres”, acrescentou.

Redação

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4 Comentários
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  1. Lucinda

    14 de dezembro de 2013 11:32 am

    Tortura

    O Brasil está mudando, quem não tem ódio ao PT é capaz de admitir o feito deste partido, penso que há muito a se fazer para avançarmos na área da saúde, habitação, saneamento básico, e educação. A educação  segundo noticias na midia tem um novo projeto, que preve mais verbas. Mas temos que aprender e ensinar mais sobre as origens do povo brasileiro, um ensinamento que revele as origens do ódio de classes, a elite tudo pôde até agora, receber verbas públicas para se manter no poder, para não ter que prestar contas com a justiça, esplorar a mão de obra do povo, poderia enumerar muitos abusos autorizados aos privilegiados pela estrutura de exploração que domina o imaginário dos brasileiros. Que as novas gerações fiquem constrangidas com a pobreza da maioria da população, composta por trabalhadores, sub qualificados; e também com o conservadorimos que prega a redução da menoridade penal, mas não critica a tercerização da educação, das creches, da saúde, segurança. Imagine-se sem frentista; sem porteiro; sem empregada doméstica, que não tem quem cuide dos filhos enquanto trabalham cuidando dos filhos dos patrões; sem trabalhador tendo que aceitar condições subhumanas de trabalho ou sua família passa necessidade, até mesmo ele trabalhando, lembre-se ele não tem qualificação deve aceitar qualquer trabalho; sem crianças abandonadas suas mães estão servindo algum privilegiado, imagine como as mulheres devem servir ou serem servis; sem mulheres espancadas pois mesmo com uma  lei avançada  (Maria da Penha, redigida por uma mulher muito competente, procure saber o nome dela, pois há vida inteligente neste país apersar  da Globo, Veja, Folha, Estadão, e outras representantes da midia conservadora). Pense a quem serve a desqualificação, satanização de um partido político que tem criado  políticas públicas para alterar a situação de exclusão da maior parte da populaçãobrasileira, não aceite a redução da menoridade penal, peça a melhoria da educação, moradia digna para todos, saúde de qualidade, segurança. E não aceite o perdão aos torturadores, eles violaram os direitos de brasileiros, assim como o de todos nós tem sido violado pela ineficiência de desgovernos municipais, estaduais, que são acobertados pela mídia retrogada,  ela sim movida por interesses mesquinhos e incompetencia sataniza o PT. O demônio é a ignorância, ódio, preconceito. 

  2. Marco Santo

    14 de dezembro de 2013 11:46 am

       Cara a Cara é a melhor

       Cara a Cara é a melhor condenação. Os covardes não “encaram” muitos usam oculos escuros. 

  3. Malú

    14 de dezembro de 2013 2:29 pm

    O que não entendo, ou entendo

    O que não entendo, ou entendo perfeitamente é,  por que essas sessões da Comissão da Verdade não são transmitidas ao vivo como foram as sessões do julgamento da AP 470. O povo precisa saber porque é da nossa história que está se tratando. Na Argentina, no Chile, os jornais e TVs transmitem pois aqui ficamos sabendo. Aqui tudo é feito como se não fosse uma coisa legal que precisa ser escondida. Temos o direito de saber por inteiro dos detalhes desses casos, pois quem os viveram foram brasileiros e não marcianos. Que a grande imprensa esconda essas sessões até entendo,  mas não entendo porque as estatais como a TV Brasil não transmitem ao vivo para que possamos acompanhar.  Cada vez que fico sabendo de algumas coisas que aconteceram nestas sessões,  tenho a sensação delas estarem sendo realizadas em algum porão,  às escondidas, as imagens que vem à minha cabeça é de um filme em preto e branco. As estatais não têm desculpas para não estarem transmitindo ao vivo.

  4. crisbr

    14 de dezembro de 2013 6:06 pm

    Alguém esta investigando as

    Alguém esta investigando as denúncias do   assassino Claudio Guerra sobre a casa da morte  e os crematórios? Essas denúncias precisam ser apuradas o que ele contou sobre os fornos  e a casa da morte tem pontos de convergencia com outros relatos. Uma pericia nos fornos seria interessante afinal são quase 12 desaparecidos da Guerrilha Urbana . Já os da Guerrilha do Araguaia não há qualquer informação sobre a localização dos corpos. 40 anos depois onde estão Aurea Valadão? Telma Correa? . Aqui no Brasil ninguem se importa com os desaparecidos  fico muito triste e revoltada com isso.

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