4 de junho de 2026

O Centro Carter e a democracia, por Celso Amorim

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Da Folha

 
Celso Amorim
 
Entre janeiro de 2003 e agosto de 2004, o Brasil esteve profundamente envolvido com a evolução da crise na Venezuela, originada com o golpe abortado contra o presidente Hugo Chávez, em 2002.

Já no período de transição, em meio a greves e locautes, que alimentavam os confrontos de rua, os dois presidentes, Fernando Henrique e Lula, mantiveram estreita coordenação com o objetivo de evitar uma conflagração de grandes proporções naquele país vizinho.

Lula enviou a Caracas aquele que viria a ser assessor para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, com quem eu, já indicado para as Relações Exteriores, mantinha contato desde Londres. Nas primeiras semanas de governo, o Brasil tomou a iniciativa de propor a criação de um “grupo de amigos” que deveria ajudar o então secretário-geral da OEA, César Gaviria, na difícil tarefa de encontrar uma solução pacífica, democrática e pela via eleitoral para a crise venezuelana.

O “grupo de amigos” logo assumiu um papel central nos esforços de conciliação e apaziguamento da crise na Venezuela. A criação do grupo exigiu muita negociação, que envolveu isolar os elementos radicais de um lado e de outro. Afinal, durante um encontro de presidentes, por ocasião da posse de Lucio Gutiérrez como primeiro mandatário no Equador, a ideia foi aprovada, apesar das resistências.

Criado o grupo, este teve que se voltar para a situação interna na Venezuela, que caminhava para o impasse. Os opositores de Chávez, com algum apoio da OEA, pressionavam pela realização imediata de um plebiscito ou pela antecipação das eleições. Ambas as sugestões eram consideradas ilegais e inconstitucionais pelo governo venezuelano.

Hugo Chávez, entretanto, admitia outra solução, esta sim, prevista na Constituição venezuelana, que consistia na convocação de um “referendo revogatório”, desde que fossem respeitados os ritos e os prazos estabelecidos.

A grande questão que se colocava, em face da crise que opunha as duas correntes políticas (pró e antigoverno), de dimensões muito semelhantes, era a de garantir que o pleito tivesse credibilidade, não só interna, como externa, avalizando o trabalho do grupo de amigos e evitando o isolamento de Caracas.

Depois de um considerável esforço de persuasão, impulsionado pelo Brasil, Chávez terminou por aceitar a presença da OEA, cuja missão foi chefiada por um brasileiro, o embaixador Valter Pecly.

Em todo esse processo, desde a criação do grupo de amigos até a apuração dos votos no referendo, o papel do Centro Carter, cuja neutralidade estava acima de qualquer dúvida, foi fundamental. Mantivemos com seus integrantes, inclusive com seu fundador e presidente, Jimmy Carter, contato constante.

No mesmo dia em que os votos estavam sendo computados, além do nosso embaixador, aconselhei-me com o Centro, antes de conversar com o secretário-geral da OEA, para persuadi-lo da importância de proclamar logo o resultado, a confirmação de Hugo Chávez na Presidência, já que as irregularidades eventualmente encontradas não eram de porte a alterá-lo. Venceu-se, assim, uma etapa crucial da crise venezuelana, ainda que suas raízes mais profundas permaneçam vivas.

Alguns anos depois, o presidente Jimmy Carter visitou o Brasil, acompanhado de sua mulher, Rosalynn. Ambos foram recebidos em audiência pelo presidente Lula, mas coube a mim, juntamente com minha mulher, Ana, homenagear o casal com um almoço no Itamaraty.

Na ocasião, falamos de assuntos como Cuba, Palestina e muitos outros. Ao final desse diálogo, marcado por grande concordância de opiniões, confirmando o que Carter ouvira de Lula, o ex-presidente norte-americano disse: “Sabe de uma coisa, a política do Centro Carter é igual à política externa do Brasil”.

Foi, pois, com tristeza que soube, lendo esta Folha, que uma instituição tão ativa na busca da paz, do diálogo e da conciliação, e tão respeitada por sua imparcialidade, não vá estar presente acompanhando de perto nas eleições parlamentares na Venezuela.

 

Redação

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3 Comentários
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  1. Mogisenio

    12 de agosto de 2015 1:13 pm

    Caros debatedores,
    ué, que

    Caros debatedores,

    ué, que estranho?

    Será verdade isso mesmo?

    Pra mim, a venezuela “bolivariana” , contrária  à liberdade, inclusive de imprensa, é uma “ditadura” daquelas!

    O diplomata deve estar sonhando não?

    Ora, basta  v. pegar qualquer “jornal” do bão!  aqui no Brasil, para ver que o diplomata está inventando essa estorinha.

    E olha que eu estou “bem informado” heim diplomata!? Leio “jornais”.

    Aliás, antes que eu me esqueça: Fora Dilma!

    Saudações 

     

  2. vera lucia venturini

    12 de agosto de 2015 1:39 pm

    IHHH! Dessa vez a direira vai

    IHHH! Dessa vez a direira vai poder roubar. Com ajuda da NSA. Os senadores patetas, liderados por Aécio caga nas calças Neves, também vão lançar uivos estridentes por aqui.

  3. Lucinei

    12 de agosto de 2015 4:26 pm

    “Sabe de uma coisa, a

    “Sabe de uma coisa, a política do Centro Carter é igual à política externa do Brasil”.”

    hahahaha, já  era; a confissão que faltava: o Centro Carter é “bolivariano”!… rsrsrs…

    Assim como o Fundação Ford e o New York Times são “anti americanas”, segundo o Olavo de Carvalho e seu séquito de malucos, rsrsrs

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