23 de junho de 2026

O enfraquecimento dos partidos em uma sociedade fragmentada, por Assis Ribeiro

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Por Assis Ribeiro

Comentário ao post “Entra em campo o fator João Dória, por Luís Nassif

Política – nuvens negras

Não haverá partidos, teremos apenas nomes de candidatos, e ganhará, tanto quanto aconteceu com Collor, Berlusconi ou mesmo Trump, quem estiver mais deslocado da ideia de partido, do conceito tradicional de partido político.

Essa é a tendência mundial em eleições onde a grande mídia conseguiu desmoralizar a política e na própria fragmentação da sociedade, profundamente estuda por Bauman.

“De acordo com Bauman, a sociedade tardo-moderna decreta a afirmação do indivíduo, mas do indivíduo de jure, não do indivíduo de fato. Sozinho, vulnerável, sem um espaço público a que se referir, sem uma dimensão política que apenas uma ressurreição da “ágora” pode garantir, o indivíduo contemporâneo não se eleva para o papel de cidadão, mas um isolado”.

É o mundo líquido, da sociedade fragmentada, difusa, sem referenciais, com suas relações efêmeras e passageiras. Do imediatismo frígido e frágil.

É dessa forma que está sendo observado um total esfarelamento de qualquer função relacionada ao conceito de coletivo.

O resultado das últimas eleições no Brasil e na vitória de Trump nos EUA foram emblemáticas, apontando a agonização de todos os partidos políticos e mesmo da política.

A fragmentação dos resultados no Brasil e a desordem da eleição de Trump demonstraram que os eleitores estão se afastando do conceito usual do que seja a política.

Não interessa mais a plataforma partidária, a coletividade de propostas.

No Brasil, os últimos candidatos eleitos muitos sem nunca terem participado de disputa partidária, e representando vários partidos, sem bandeiras, sem propostas e com discurso agressivo, populista e descompromissado com a política no sentido essencial do conceito.

O que ocorreu não demonstra a vitória de uma agremiação. Ao contrário, o que se observou foi a absoluta derrota dos três partidos de maior dimensão; o PMDB, o PT e o PSDB.

No caso de São Paulo o resultado pode ter sido “uma vitória de Pirro”.

O PSDB apenas retomou um dos seus feudos. E o fez abrindo cicatrizes.

A vitória de Alckmin com a eleição de João Dórea é, de certa forma, uma derrota do PSDB. O que se observou foi o aumento do racha interno e a total dissolução de qualquer princípio partidário e programático.

No PMDB a constatação plena em qualquer estudo ou observação de que se trata de um amontoado de representantes dos seus interesses próprios, sem compromissos partidários e éticos.

No PT – o último partido – a total desmoralização promovida pela mídia em conluio com a operação “lava-jato”.

É a morte da política no sentido partidário- representativo.

Zygmunt Bauman disse, citando Gramsci: “se o velho morre e o novo não nasce, neste interregno ocorrem os fenômenos mórbidos mais diversos”.

Os partidos políticos perderam o elo com as populações e o conceito da representatividade ruiu.

Neste sentido, a união voluntária de cidadãos com afinidades ideológicas e políticas, organizada e com disciplina, visando a disputa do poder político, está sendo substituída pelos “clubes eleitorais”, sem ideologias, sem princípios e sem estrutura de tipo piramidal com a base sólida e orientadora dos planos e projetos políticos, econômicos e sociais, siglas sem identidade.

Se os principais partidos políticos serviram como instrumento para pessoas e grupos entrarem no sistema político para expor suas reivindicações, necessidades e sonhos, aglutinadores das decisões políticas, nos dias atuais é visível o esvaziamento da importância dessa base formadora de opiniões e decisões, ficando a nítida sensação de que os partidos não mais representam essa função.

É assustadora a situação da representatividade, mas a descrença da população tem mais a ver com as siglas partidárias do que com o sistema político como um todo. Na atual conjuntura, os partidos olham mais para o seu projeto de poder do que para um projeto de sociedade, o resultado foi o fiasco dos partidos políticos nas últimas eleições.

Situação preocupante.

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3 Comentários
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  1. Cláudio Freire

    6 de março de 2017 10:48 am

    Era digital

     

    Não sou especialista em comunicação, mas tenho impressão que a base desse mundo da sociedade fragmentada, com suas relações efêmeras, passageiras, e seu imediatismo frígido e frágil, decorre em grande medida do tipo de comunicação que se instasurou com a era digital.

    Se, por um lado, a era digital representou enorme avanço na velocidade e na facilidade de comunicação num nível global, por outro lado permitiu a simplificação na busca pelas informações. O cidadão médio pesquisa a enorme maioria dos assuntos hoje na internet, sem maior debate e de uma forma que incita o individualismo extremado.

    São os dois lados de uma mesma moeda. Sem dúvida, a situação é extremamente preocupante.

  2. Wilton Cardoso Moreira

    6 de março de 2017 1:11 pm

    Que velho está morrendo? E que novo virá?

    Caro Assis,

    Estamos num período de transição em que “o novo não nasceu”. Mas é preciso saber o que, exatamente, está morrendo, para saber que novo poderá vir. Há várias hipóteses circulando:

    1. O fim da hegemonia ocidental, com o deslocamento do poder econômico para a ásia (China e associados);

    2. A crise do modelo capitalista pós-guerra, primeiro com o fim do fordismo e, agora, com o fim do neoliberalismo, prenunciando uma outra forma de organização capitalista;

    3. O fim do capitalismo, que pode abrir a possibilidade para o surgimento de uma soiedade racional e igualitária, mas pode também resultar no caos e na barbárie;

    Eu estou com os marxistas (principalmente os da crítica do valor) e creio que a terceira hipótese é a mais factível. A modernidade/capitalismo está em colapso. E pode durar décadas este colapso, num processo contínuo de desorganização social, política e econômica, que atinge todas as nações.

    (Neo)keynesianos, (neo)liberais e pós-modernos batem cabeça e veem todas as suas teorias econômicas e sociais afundarem, refutadas pela realidade. Sociólogos como Bauman e Larch, costumam acertar na descrição fenomenológica, mas se recusam ou não conseguem dar uma explicação factível para o estado de coisas que descrevem.

    Enquanto isso, os marxistas são os únicos teóricos que têm uma explicação causal para a crise, que é lógica e fortemente anorada em dados empíricos.

    Por isso, acho que todas as análises conjunturais deveriam levar em contra este pano de fundo estrutural, diagnosticado pela crítica marxista, de queda irreversível do capitalismo. Precisamos voltar a ler Marx e os marxistas: o barbudo judeu-alemão está mais atual que nunca.

  3. Paulo F.

    6 de março de 2017 2:45 pm

    No vácuo do poder?

    Considerar que a vitoria em S. Paulo foi uma vitoria de pirro é um equívoco.

    Geraldo Alckmin se firma e desponta no vácuo deixado pelo desinteresse de Aécio e capitulação dissimulada de Serra.

    Doria? Mero acessório .

    Muito mais que Macunaima, é Lampedusa é quem dá o mote na política brasileira, na voz do príncipe de Falconeri: tudo deve mudar para que tudo fique como está.

     

     

     

     

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