
O monstro está solto e a saída domesticada também: uma análise de conjuntura do momento político brasileiro
por Bruno Lima Rocha
Introdução
Este texto traz duas partes complementares. A primeira apresenta uma rápida análise do país que conseguiu a duras penas realizar a Greve Geral de 28 de abril de 2017, colocando no mundo do trabalho formal a centralidade da luta social brasileira. A segunda parte observa a tensão entre o conflito que vai continuar mesmo após a possível (e até provável) vitória eleitoral de centro-esquerda em 2018 e a tentativa de domesticar a rebeldia brasileira contemporânea. Vamos ao debate, há muito para fazer.
Analisando o fator repressivo após a Greve Geral de 2017
Ao final da noite de 28 de abril me vi obrigado a fechar a seguinte análise. Se compararmos momentos distintos, mesmo continentes diferentes em momentos de crise, seguimos a seguinte observação. A economia da Grécia encolheu cerca de 30% de seu PIB de 2008 até 2015 (estes são índices ‘conservadores’, se consultarmos a ONG ATTAC Europa, os índices são ainda mais elevados). Neste espaço de tempo, nunca faltou verba para a repressão. Quando em janeiro de 2009 acabou o estoque de gás lacrimogêneo, o Estado de Israel cedeu “gentilmente” o produto. Nos piores planos de intervenção da Troika europeia, o fundo do Europol (recursos da União Europeia para as polícias “nacionais”, também operando como agência da entidade supranacional; ver: https://www.europol.europa.eu/) nunca foi minguado. Ao contrário. Na Argentina, a economia colapsou em 2001 e nunca faltaram fundos para a repressão política massiva. Exemplos assim sobram na história recente.
A elevação de gastos com policiamento “preventivo e anti-distúrbios” e a ênfase da cobertura dos conglomerados midiáticos nos atos de repressão e violência na luta social são inversamente proporcionais ao que realmente está em jogo (CLT, Previdência, Terceirização, Ensino Médio….). Trancar rua não é e nem nunca foi por fetiche. Já reprimir, nunca foi garantia de ordem pública e sim de manutenção dos privilégios societários em forma de Estado de direito (ou de retirada legal de direitos). Tenhamos calma e fôlego, este embate só está recomeçando. A equação brasileira é tão simples como cruel. O abuso policial que mata na favela e incide negativamente, ampliando os índices de criminalidade, é o mesmo que reprime politicamente nas ruas, tal como no caso do estudante de ciências sociais Mateus Ferreira (graduando da UFG), covardemente agredido pelo capitão Sampaio da Polícia Militar do estado de Goiás (comandante da 37ª Cia Independente da PMGO).
A tendência é desta regra de comportamento ser ampliada. Quanto mais ilegítimo for um governo, mas vai depender da fábrica de mentiras e consentimento midiático e, ao mesmo tempo, mais vai usar e abusar da repressão policial e agora, da intimidação através do Judiciário e do Ministério Público. A Nova República acabou, mas mesmo no auge do lulismo, o entulho autoritário não foi tocado e estas instituições reforçam os vínculos ideológicos autoritários no seio das classes subalternas brasileiras. O que vem pela frente está sendo escrito agora, ainda com o glossário político das instituições moribundas.
O monstro está solto e a saída domesticada também
Escutei uma entrevista da ex-presidenta Dilma Rousseff (no dia 04 de maio, ao programa Esfera Pública da Rádio Guaíba) afirmando agora, e somente agora, as demandas que estavam nas ruas em 2013. A ex mandatária afirmou, com todas as letras, que o oligopólio midiático com incidência nacional bloqueia o debate político e apenas um mecanismo de referendos e plebiscitos poderia avançar em medidas de aumento de carga tributária sobre grandes fortunas e dividendos. A ficha caiu, agora, na etapa final da sístole liberal-conservadora (onde o governo MT se segura em um fio de legalidade e no aval da mídia) ou estamos diante de uma manobra tática, de duplo sentido?
Um possível sentido seria o de salvar seu próprio legado como presidenta, onde a mesma, como ex-guerrilheira, portou-se de maneira passiva e nada estratégica. Outro sentido, ainda mais grave, seria o de canalizar a rebeldia de 2017, a luta contra as leis regressivas e apostar no projeto da volta ao Poder Executivo. Este perigo é real e imediato e não há como retroceder um milímetro para conceder um “gesto de boa vontade” ao governo deposto e seus dirigentes.
Concordo na íntegra – em sua dimensão analítica – com o professor Wanderley Guilherme dos Santos (ver http://migre.me/wA40D), tanto quanto ao labirinto onde as forças golpistas se encontram – momento tipo Collor ou Berlusconi; isolamento da plutocracia, do estamento e dos senhores de engenho; entreguismo amplo e geral; sopro de legalidade e sem um pingo de legitimidade – tudo levando a duas condições.
A primeira, o fato de que Lula, ou é eleito em 2018 ou já é o maior cabo eleitoral do país. Só um desastre não faz de Luiz Inácio o próximo presidente ou o cabo eleitoral do presidente que virá. Ciro Gomes põe as barbas de molho, pondera a verborragia e interage com a inteligência restante do empresariado brasileiro, aguardando seu momento. A segunda condição, indicada por este e por Luis Nassif (ver: http://migre.me/wA425; assim como pelo modesto analista aqui a escrever) é a certeza de que com pacto nacional-produtivo, manobra de centro-esquerda ou giro ao centro do empresariado restante, a bolha ultraconservadora, o submundo da internet, a vontade própria de setores do MPF-PGR e do Judiciário, a República de Curitiba e o comando da Globo não vão retroceder. Assim, mesmo ganhando na urna, como irá governar o lulismo ou o pós-lulismo?
Neste questionamento, como prever que toda a energia de resistência liberada neste último ano, um esforço contínuo e cumulativo desde 2013 – por esquerda, bem à esquerda – não vai servir de contrapeso para negociar a tal da governabilidade ainda sob o manto do maldito presidencialismo de coalizão?
Outra questão é ainda mais urgente: Lula, o lulismo, o pós-lulismo, vai realmente se comprometer em reverter a perda de direitos caso ganhe a Presidência na urna da democracia indireta oligárquica? A dimensão estratégica é esta, e daí para frente as posições se definem e a esquerda eleitoral aposta em uma candidatura própria, a esquerda não eleitoral fortalece suas bases e enlaces, e a centro-esquerda, lulista ou pós-lulista, se prepara para governar novamente, mas desta vez, sem “acórdão” com a Casa Grande. Não que a oligarquia que um dia foi vermelha não o queira, mas é irreversível, no curto prazo de uma campanha e um mandato, a posição belicosa assumida pela nova-velha direita. Até Gilmar Mendes se apercebeu disso e aponta alguma saída político-oligárquica. Resta combinar com os Jardins paulistanos e o Jardim Botânico dos Marinho. Duvido que aceitem.
Apontando conclusões
Entendo que o pessimismo ou ceticismo analítico do professor Wanderley Guilherme dos Santos é saudável. Isso não interfere nas preferências ideológicas, ou ao menos não deveria preferir. A fórmula que os veteranos da luta latino-americana de corte libertário me ensinaram ainda na juventude é “ceticismo analítico, dúvida teórica e certeza ideológica”. Do contrário, caímos em cientificismos e falsas certezas. O cenário é de isolamento do Poder Executivo mesmo, escorando-se no pior do Brasil e nas fábricas de mentiras. É o fim da Nova República. Concordo. Mas, a partir daí é preciso operar e trabalhar, mergulhar no tecido social desorganizado, batalhando por uma democracia de massas com mecanismos de controle popular. E, ao mesmo tempo, preparar um contra golpe, indo além e apesar das elites políticas de centro-esquerda que são favoritas nas urnas. Não é tarefa fácil, mas realmente não vejo outro caminho.
Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais (www.estrategiaeanalise.com.br / E-mail e Facebook: [email protected])
jose carlos vieira filho
7 de maio de 2017 8:21 pmcorreção
“Quanto mais ilegítimo for um governo”
não seria mais apropriado dizer “quanto mais ilegítimo for um estado”?
franciscopereira neto
7 de maio de 2017 10:56 pmA fórmula existe
Tanto Lula quanto Ciro Gomes, tem afirmado o que será necessário fazer no próximo mandato.
Ciro já falou a um tempo atrás que todo o esquartejamento da Petrobras será revertido se eleito for.
Lula, no seu último discurso reafirma que vai enquadrar a mídia, principalmente a Globo, se ele for presidente.
Tenho insistido que a melhor chapa é Lula/ Ciro, não necesariamente nessa ordem. Mas Ciro tem de afinar o seu discurso com o do Lula, pois este nunca o criticou, e este por sua vez, vive dizendo bobagens do Lula e da Dilma que em nada tem acrescentado nas intenções de votos a seu favor.
Lula sempre foi conciliador, e Ciro sempre explosivo.
A situação ideal dessa chapa está justamente nos opostos de comportamentos, e vai exigir de ambos a mesclagem necessária para enfrentar momentos conturbados que virão.
Quando for o momento certo de enquadrar a grande mídia televisada, Ciro tem de encabeçar essa tarefa e ir até as últimas consequências, se não, não haverá governança.
Lula pode ficar no seu estilo paz e amor e deixar Ciro enfrentar as feras: mídia, empresariado anti nacionalista, oposição ao governo, e recuperar tudo de volta para o país, pois quem se aproveitou de comprar o patrimônio nacional sabia muito bem que o governo golpista não tinha nenhuma legitimidade para fazê-lo.
Podem chorar aonde quiseram, ONU, OMC e o escambau.
Lula tem a intuição e Ciro a estratégia que vem somado ao seu apreço e apoio ao “Projeto Brasil Nação” de Luis Carlos Bresser Pereira.
Agora, é preciso eleger uma bancada pró governo para escapar do famigerado governo de coalizão.
Não tem mais jeito.
Esquerda tem de governar com a esquerda.
O que eu disse é apenas um desejo, mas enfim, como podemos saber o que virá.
Carlos Dias
8 de maio de 2017 12:25 amGostei!
Mas, o gigante não tinha acordado em 2013? Cadê esse gigantinho que quando acorda é que não faz nada ?!
Somebody
8 de maio de 2017 2:37 amO Brasil não sai desse
O Brasil não sai desse atoleiro sem uma guerra civil.
Quando os governantes brasileiros deveriam e poderiam ter extirpado o câncer escravocrata (a minha própria terra precisou uma guerra civil para isso acontecer e mesmo assim ainda sobraram resquícios na Virgínia), o que eles fizeram foi varrer o problema para debaixo do tapete. Mas como todos vocês sabem, varrer para debaixo do tapete só tira o problema da vista de todos sem realmente acabar com o problema.
E depois de décadas varrendo o problema para debaixo do tapete e fingindo que o Brasil continuava uma democracia (nunca foi), o problema agora ficou grande demais para ficar escondido embaixo do tapete e grande demais para ser resolvido com “paz e amor” ou o que vocês adoram fazer por serem cagões demais para qualquer outra coisa: “pactos com o diabo”.
Vocês passaram décadas fazendo pactos com o diabo (os descendentes de escravos, os saudosistas do Império, todos os que são incapazes de viver em uma democracia de verdade) e agora o diabo quer tudo para ele.
E outro “pacto” dessa vez não vai resolver.
bonobo de oliveira, severino
8 de maio de 2017 11:02 amQue guerra civil?
Ora, Somebody! Todo o GOLPE enfrentado no Brasil na história recente, 1954, 1964 e 2016, foi conduzido ou apoiado pelo imperialismo do escravagismo dos EUA. Nesse cenário só resta a alternativa da composição política com os embaixadores da metrópole porque a via da confrontação só interessa a quem tem o poder da 4ª Frota estacionada no Atlântico Sul. Aliás, não por acaso, uma arma de guerra formidável recriada para patrulhamento da área do Pré-Sal, pouco tempo depois de serem confirmadas as ambudantes jazidas descobertas. Cuide do seu escravagismo que nós cuidamos do nosso da forma que for possível.
Somebody
8 de maio de 2017 12:20 pmUma correção: Aonde eu
Uma correção: Aonde eu escrevi “descendentes de escravos” o correto é “descendentes de senhores de escravos”.
jruiz
10 de maio de 2017 12:03 pmalternativas..
.. não se trata de uma guerra civil no Brasil, é uma guerra mundial, no mínimo uma guerra envolvendo todos os países da América Latina..
.. e é bom lembrar também que o escravista hoje tem marca nas prateleiras de super mercado.. passa na TV..
.. e a guerra “tradicional” não é o único caminho, existe a possibilidade da reforma política “profunda”, que é de interesse da esmagadora maioria da população.. inclusive da população hipnotizada, usada como massa de manobra, chamada “direita”, porque esse grupo é 99% ignorância, é preciso levar uma solução “mastigada” para eles, que também estão ávidos por uma luz..
.. o nosso maior problema é que as lideranças de esquerda NÃO conseguem sair do maldito quadrado, não percebem as mudanças de comportamento planetárias e que exigem novas formas de governo..
.. sonham em retomar palácios..
.. mas o momento é de derrubar os palácios..
.. a internet é o grande elemento transformador da humanidade..
.. extremamente poderosa, libertadora e disponível..
.. precisamos eliminar o nosso próprio medo e nos lançar por novos caminhos..
.. a força das redes, da solidariedade, das comunidades é gigantesca, é maior do que a das bombas que as corporações que comandam o planeta vão usar nessa suposta guerra civil “tradicional”..
Marcos Antônio
8 de maio de 2017 3:18 amNa sombra da lava-jato…
É impossivel que 99% dos brasileiros não percebam que realmente vivemos uma luta de classe protagonizada pelo judiciário…
O LULA sempre disse uma coisa: Que ele como trabalhador não poderia errar, por que ai nunca mais um trabalhador assumiria a presidência da república, que alguém vindo de baixo não assumiria mais o cargo maior do país!
Mas, que aos outros, o erro era perdoado por terem vindo de uma classe que “compreendia” os ricos e ele os pobres – foi assim com todos que assumiram o governo no Brasil antes do LULA!
Por, isso – simbolicamente, a condenação do LULA será um vaticínio do que dizia o LULA e mais: É uma ação contra todos os outros 99%, contra os trabalhadores principalmente!
É uma ação exemplar, didática – tal como viveu Tiradentes, que alem de ser morto, teve seu corpo esquartejado e espalhado para mostrar o que acontecia com quem desafiasse o império!
Como diria o saudoso Belchior – Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos ancestrais da época da coroa portuguesa!
Os que não são trabalhadores e estão entre os 99% também serão afetados!
Todos – até aqueles que lutam contra o LULA – jornalistas, paneleiros, economistas, juizes – todos que dependem de viver e morar no Brasil sofrerão!
Estará sendo jogado na miséria milhares de pessoas, que sem condição e discernimento se voltarão contra quem estiver mais próximo!
Milhões de cunhas se tornarão milicianos e vão criar pedágios em cada porta, em cada rua…
Ai pode ser eu, pode ser você – com quem estiver entre os 99%!
Só os muitos poderosos estarão livres!
É impossível que não se veja que patrocinador do golpe foi anistiado em multas junto a receita federal e processos de sonegação em mais de 40 bilhões!
Esse valor é apenas mais de 57.000 vezes o valor do processo do sítio que o LULA frequentava!
57.000 LULAS e 57.000 Moros!
Se a cada segundo aparecesse um processo deste valor na justiça, levariam mais de 15 horas para chegar ao fim!
15 horas seguidas, a cada segundo – todos os segundos e sem parar!
Você já imaginou isso? Você viu alguma coisa sobre isso nos telejornais?
E a justiça com isso? nada…
Que os juros não baixam ainda que hajam milhões de desempregados e com baixo desempenho da economia!
Os juros deviam ser baixados para estimular o consumo e alavancar as vendas!
É inacreditável que as pessoas não estejam vendo isso!
mauro silva 3
8 de maio de 2017 10:05 amautocrítica
a crítica de dilma ao afirmar que o oligopólio midiático nacional bloqueia o debate deveria ser, de fato, uma autocrítica porque ela e seu antecessor não tocaram aquela estrutura, contribuindo, inclusive, com dinheiro público e incentivos obscenos, para preservá-las. além de vetar artigo fundamental, para horror dos cidadãos, da lei de direito de resposta.
não se deve negar a sra. dilma suas imensas responsabilidades pelo descalabro político atual quando franqueou as portas do palácio e as chaves do tesouro nacional a esta quadrilha que assaltou o poder.
e o sr lula da silva, até agora, não se dignou a negar reconhecer todos os atos praticados pelo usurpador, inclusive a indicação de alexandre de moraes.
Marcelo33
8 de maio de 2017 2:10 pmA PEC do Teto inviabilizou o
A PEC do Teto inviabilizou o país.
Podem botar a Tatcher como podem botar o Lênin na presidência. Com a PEC do Teto, o governo será o mesmo.
Por que ninguém diz isso ???
Por que vamos nos iludir que ganhar essas eleições vão adianta alguma coisa ???
A direita convicta tem 24 a 25 senadores garantidos até 2022. Com mais 8 de 54, segura a PEC do Teto até 2022.
O Povo nos condenou À isso. Ninguém protestou contra essa maldita PEC do Teto que nos amarrou a Temer por 20 anos.
Temer sairá da presidência, mas a Presidência não sairá de Temer.
Temer será o nosso ditador até 2038, mesmo que morra antes disso. E não importa quem sente na maldita cadeira. Ninguém fará nada sem as bençãos de Temer.
Severino Januário
8 de maio de 2017 7:35 pmDesculpe, mas a meu ver há um
Desculpe, mas a meu ver há um furo em sua análise. Olho para a composição do Senado e não consigo ver o que foi considerado “direita convicta”. Ali, o que menos prevalece é a ideologia, e prolifera uma matreirice política que é extremamente maleável e suscetível às menores mudanças de temperatura. E esta PEC é tão absurda que até os mais notórios golpistas evitam falar nela. Pronunciá-la já até soa como maldição. E no Brasil, quando uma lei é impronunciada, fica esquecida e depois se torna sem efeito. Com algum tempo, será inócua, cabendo a qualquer um do baixo clero a iniciativa vitoriosa, recebida com aplausos unânimes, de propor sua revogação.