Procuradores da Lava Jato ironizaram mortes de esposa, irmão e neto de Lula

'Morte de Marisa fez uma mártir petista e liberou ele pra gandaia'; 'O safado só queria passear no enterro do irmão'; 'Fez discurso político em pleno enterro do neto'

Presidente se emocionou muito durante o velório de Marisa (Foto: Nacho Doce/Reuters)

Jornal GGN – Os procuradores da força-tarefa da Lava Jato trataram com desprezo, dúvida e ironia as mortes da esposa, irmão e neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A postura dos membros do Ministério Público Federal é revelada em mensagens de chats privados no aplicativo Telegram enviados por fonte anônima ao site The Intercept Brasil e analisadas com o UOL em matéria publicada nesta terça-feira (27).

As mensagens revelam ainda que, mesmo sabendo que Lula tinha garantido em lei o direito de sair da prisão para ir ao enterro do irmão Vavá, alguns procuradores se deixaram dominar pelo posicionamento político defendendo que o ex-presidente fosse proibido de sair do cárcere para se despedir do familiar próximo.

O GGN prepara uma série de vídeos sobre a interferência dos EUA na Lava Jato e a indústria do compliance. Quer se aliar a nós? Acesse: www.catarse.me/LavaJatoLadoB

Dona Marisa Letícia deu entrada no hospital no dia 27 de janeiro de 2017, após sofrer um AVC hemorrágico. A morte cerebral foi diagnosticada no dia 3 de fevereiro. Um dia depois, a colunista do jornal Folha de S.Paulo, Mônica Bergamo, descreveu a agonia vivida por Marisa em seus últimos dias de vida. Em abril deste ano, em entrevista à mesma colunista, o ex-presidente Lula disse que “Marisa morreu por conta do que fizeram com ela e com os filhos dela”.

“Dona marisa perdeu motivação de vida, não saía mais de casa, não queria mais conversar nada”, continuou o presidente ao responder uma pergunta sobre a possibilidade de a saúde da esposa ter sido afetada pelas investigações da Lava Jato.

Nas conversas divulgadas na matéria mais recente dos portais Intercept e UOL, a visão apresentada pelos procuradores da Lava Jato era bem distante da humanizada.

No dia 24 de janeiro de 2017, quando foi noticiada a internação de dona Marisa Letícia, o procurador Januário Paludo escreveu no chat “Filhos do Januário 1”: “Estão eliminando as testemunhas…”

No dia 2 de fevereiro, quando saiu nos jornais que o cérebro da ex-primeira dama parou de receber sangue, a procuradora Laura Tessler disse no mesmo grupo: “quem for fazer a próxima audiência do Lula, é bom que vá com uma dose extra de paciência para a sessão de vitimização”.

No dia seguinte, quando confirmado o falecimento de Marisa Letícia, a procuradora Jerusa Viecili comentou: “Querem que eu fique pro enterro?”. A frase foi acompanhada com o símbolo de um emoticon sorrindo com os dentes à mostra.

No dia 4 de fevereiro, Telles disse sobre a nota de Mônica Bergamo descrevendo a agonia dos últimos dias de dona Marisa Letícia: “Ridículo… uma carne mais salgada já seria suficiente para subir a pressão… ou a descoberta de um dos milhares de humilhantes pulos de cerca do Lula…”

“Só falta dizer que a Lava Jato implantou 10 anos atrás um aneurisma na cabeça da mulher…milhares de pessoas morrem de AVC no mundo…isso faz parte do mundo real e ponto”, continuou.

Januário Paludo partiu para as conspirações: “A próxima, sempre tive uma pulga atrás da orelha com esse aneurisma. Não me cheirou bem. E a segunda morte em sequência”, comentou sem especificar o que seria essa segunda morte.

No dia 5 de fevereiro de 2017, o procurador Antônio Carlos Welter esperava que a própria imprensa iria cair “de pau” em Lula, porque na sua avaliação o ex-presidente estaria fazendo uso político da tragédia com a ex-primeira dama. “A morte de Marisa fez uma martir petista e ainda liberou ele pra gandaia sem culpa ou consequência política”, completou.

“O safado só queria passear”

No dia 29 de janeiro deste ano, o irmão de Lula, Genival Inácio da Silva, de 79 anos, conhecido como Vavá, morreu em São Paulo em decorrência de um câncer no pulmão.

O ex-presidente pediu à Justiça para comparecer ao velório, invocando o artigo 120 da Lei de Execução Penal (LEP), que afirma que “os condenados que cumprem pena em regime fechado ou semiaberto e os presos provisórios poderão obter permissão para sair do estabelecimento, mediante escolta, quando ocorrer um dos seguintes fatos: falecimento ou doença grave do cônjuge, companheira, ascendente, descendente ou irmão”.

Logo quando a notícia do falecimento do irmão de Lula foi compartilhado no grupo de mensagens dos membros da Lava Jato, o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallangol respondeu que o ex-presidente iria pedir para ir ao enterro. “Se for, será um tumulto imenso”, escreveu.

“Mas se nao for, vai ser uma gritaria. e um prato cheio para o caso da ONU”, respondeu o procurador Athayde Ribeiro Costa, se referindo à manifestação que a defesa do petista estava preparando para dar entrada na Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas.

A partir dali, as consequências da saída do ex-presidente da superintendência da PF de Curitiba e a legalidade da liberação começou a ser debatida no chat. Parte dos procuradores defenderam o direito de Lula ir ao enterro, enquanto outra sustentou que o ex-presidente não era um “preso comum”, ter o pedido recusado.

Os procuradores da Lava Jato enviaram uma manifestação à juíza responsável por avaliar o pedido da liberação, argumentando que a logística para levar Lula ao enterro envolveria “centenas de agentes policiais” considerando “temerária a saída provisória do custodiado, pelo que, manifesta-se pelo indeferimento”.

Minutos depois os procuradores têm acesso a parecer da Polícia Federal dizendo que não tinham condições de atender ao pedido do ex-presidente, considerando risco de “fuga ou resgate” de Lula, falta de aeronaves que, naquele momento, tinham sido alocadas para dar apoio em Brumadinho (MG), por conta do rompimento da barragem.

A Justiça Federal, na primeira e segunda instância, também se posicionando contra o pedido da defesa de Lula.

“Eu acho que ele tem direito de ir. mas não tem como”, escreveu o procurador Antônio Carlos Welter.

“O safado só queria passear e o Welter com pena”, respondeu Januário Paludo.

“Vamos apanhar muito por isso”, se preocupou Jerusa Viecili, sendo em seguida acalmada por Laura Tessler que escreveu: “O foco tá em Brumadinho…logo passa…muito mimimi.

A decisão que permitiu Lula ir ao enterro do irmão em São Paulo foi tomada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, mas exatamente no momento em que Vavá estava sendo sepultado em São Bernardo do Campo. Lula acabou não deixando a superintendência da PF.

“Fez discurso político em pleno enterro do neto”

No dia 1º de março, mais uma tragédia na vida do ex-presidente de Lula. Seu neto Arthur Araújo Lula da Silva morreu aos 7 anos, devido a uma infecção generalizada provocada por bactérias.

Na ocasião, a procuradora Jerusa Viecili compartilhou a notícia no chat “Filhos do Januário 4”, complementando: “Preparem para nova novela de ida ao velório”.

“Putz… no meio do carnaval”, respondeu Athayde Ribeiro Costa. O coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, pensou de forma prática. “Tem q fazer igual o Toffoli deu”. Talvez indicando a maneira demorada em que o presidente do Supremo acabou tomando a decisão, inviabilizando a participação de Lula na cerimônia de enterro do irmão, meses antes.

No dia seguinte, 2 de março, a justiça autorizou o ex-presidente ir ao enterro do neto, após o governo do Paraná ceder uma aeronave para a locomoção de Lula.

Dallagnol compartilhou no mesmo dia uma nota da colunista da Folha Mônica Bergamo contando que o ministro do Supremo, Gilmar Mendes, ligou para o ex-presidente Lula que teria se emocionado ao telefone.

“Estratégia para se ‘humanizar’, como se isso fosse possível no caso dele rsrs”, escreveu o procurador Roberson Pozzobon.

“Não. Estratégia pra amploar [ampliar] base na esquerda q ê sua aliada desde a questão da execução provisória. Ele pensa no Senado”, disse Dallagnol.

Dois dias depois, no chat “Winter is Coming”, composto por integrantes do MPF de diferentes estados, a procuradora Monique Cheker, do Rio de Janeiro, compartilhou uma notícia em que Lula afirmou que o neto sofria bullying na escola pelas questões políticas.

“Fez discurso político (travestido de despedida) em pleno enterro do neto, gastos públicos altíssimos para o translado, reclamação do policial que fez a escolta…vão vendo”, disse a procuradora.

As reportagens do UOL e Intercept entraram em contato com os procuradores responsáveis pelas mensagens. Todos disseram que não poderiam ou não iriam se manifestar sobre as mensagens, por não terem acesso ao conteúdo integral das conversas. O UOL pontua que não viu indícios de que as mensagens enviadas por uma fonte anônima ao Intercept tenham sido adulteradas.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora