Religião, guerra e prejuízo ou imaginação, arte e lucro: escolha sabiamente, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Nosso país está passando por uma situação difícil? Sem dúvida. Então o melhor nesse momento pode ser imaginar novas maneiras de produzir valor e renda

Há diversas maneiras de nos conectarmos com nossas infâncias. Podemos fazer isso através de objetos e das memórias que eles evocam.

Não preciso fazer muito esforço para lembrar de quatro objetos de metal que foram importantes na minha infância. Carrinhos de lata japoneses com rodinhas de plástico. O anel de caveira do Fantasma. Uma tesourinha dobrável chinesa. Um soco inglês.

As rodinhas dos carrinhos não rodavam muito. Os eixos plásticos delas se rompiam facilmente em razão da fricção com os engates que existiam nas carcaças dos pequeninos objetos moldados em lata. Aqueles carrinhos eram objetos admiráveis feitos para serem admirados especialmente por causa da pintura. Eles tinham tudo o que os carros devem ter, mas eram ocos como as cabeças de alguns pastores evangélicos.

O anel do Fantasma era mágico. Ele transformava seu possuidor num personagem de histórias em quadrinhos. Perambulando sorrateiramente numa selva ou entre as ruínas, o herói brigava com seus inimigos. Se fossem obrigados a ver a caveira do anel eles eram derrotados. Aquele objeto quase sempre sambava no dedo fino do menino magro até se perder no local onde ele brincava. Quando isso não ocorria, o dedo crescia muito rápido e o anel ficava apertado e tinha que ser esquecido.

Uma tesourinha dobrável de metal estava sempre à mão. Podia ser levada a qualquer lugar e até para a escola. Ela cabia no bolso da calça e no estojo de canetas. Cortava papel, plástico e até lata. Mas quando o rebite laceava a tesourinha começava a falhar e tinha que ser descartada.

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O soco inglês era um objeto ameaçador. Ele evitava algumas brigas e terminava outras provocando lesões. Vi alguns, mas nunca quis ter um. Não me parecia certo vencer uma briga usando um objeto tão perigoso que transformava os covardes em valentões e os valentões em covardes ou mutilados.

E já que estamos falando de brigas… Foi somente adulto que fiquei sabendo que aqueles carrinhos japoneses foram produzidos e exportados por um país cuja economia havia sido totalmente devastada pela guerra. O Japão conseguiu inventar uma maneira de produzir valor com matéria prima descartada no lixo. Aqueles carrinhos modelados em lata e ricamente decorados fizeram as crianças do mundo inteiro sonhar. E garantiam a alimentação de muitas famílias japonesas.

O personagem criado por Lee Falk em 1936 fazia bastante sucesso no início da década de 1970. Não sei dizer se o anel de caveira do Fantasma tinha alguma relação com o símbolo de metal engastado no quepe dos oficiais da SS nazista. Mas tenho certeza de que os jovens alemães que foram recrutados pela tropa de elite de Hitler também acreditavam que seriam heróis. Condicionados a matar impiedosamente todos os inimigos do III Reich (as pessoas tratadas como seres inferiores incluídas), os assassinos da SS cometeram crimes inenarráveis.

Precisamos desconfiar muito dos líderes políticos e religiosos que defendem a tese de que o genocídio é uma solução política. Eles são capazes de desumanizar seus seguidores até convencê-los a fazer uma coisa ruim pensando que estão fazendo algo bom. O que era válido no tempo de Hitler é ainda mais válido para as milícias de Bolsonaro e para os grupos de terroristas evangélicos que estão sendo organizados pela Igreja Universal.

Ok. Admito que minhas palavras também podem funcionar como um soco inglês. Mas não estou estimulando ninguém a cometer agressões ilegais contra quem quer que seja. A pacificação da sociedade brasileira (objetivo maior do sistema constitucional e da própria existência de um Estado) não será alcançada com o uso de milícias criminosas e de exércitos evangélicos. Muito pelo contrário. A violência de extrema direita apenas provocará a organização violenta das vítimas do bolsonarismo.

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As reflexões políticas feitas aqui pretendem ser apenas utilitárias. Elas foram inspiradas na mentalidade chinesa que levou à idealização, produção e comercialização de um objeto prático, leve, pequeno, útil, barato e, eventualmente, descartável. Ao invés de organizar exércitos para cometer violências, as igrejas deveriam estimular seus fiéis a rejeitar a mentalidade genocida que levou à destruição do III Reich e de todos os templos, igrejas e catedrais que endossaram e participaram dos projetos macabros dos nazistas.

Nosso país está passando por uma situação difícil? Sem dúvida. Então o melhor nesse momento pode ser imaginar novas maneiras de produzir valor e renda a partir de matérias primas descartadas como se fossem lixo. No final dos anos 1940 início dos anos 1950 o Japão transformou a produção e a exportação de sonhos infantis numa religião pacífica e rentável. A organização de milícias bolsonaristas e de exércitos evangélicos não será capaz salvar o Brasil da guerra civil que alguns pastores desejam. Numa guerra todos os envolvidos perdem algo e apenas os fabricantes de armamentos tem lucro.

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