29 de junho de 2026

Nêga Dominga: A matriarca do Quilombo Mutamba, por Eduardo Pontin

Ela não deixa cair de sua comunidade os modos de vida quilombolas, apostando tudo o que tem na continuidade da cultura de seu povo.
Dona Dominga: orgulho em ser quilombola | Foto: Francisca Sousa

Nêga Dominga lidera o Quilombo Mutamba no Piauí, preservando a cultura e aguardando título oficial da terra quilombola.
Há 6 anos, revitaliza festejos católicos locais e constrói capela para fortalecer a fé da comunidade quilombola.
Ativista e cantadeira, mantém viva a tradição da Lezeira e promove eventos culturais para transmitir a ancestralidade.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Série Piauí Cultura Regional (29)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Nêga Dominga: A Matriarca do Quilombo Mutamba

Griô luta para dar continuidade à cultura de seus ancestrais

por Eduardo Pontin

Nêga Dominga (Maria Domingas Teresa dos Santos, 21/07/1969 – ) é uma guerreira. Nasceu e se criou no Quilombo Mutamba, que fica numa encruzilhada de Santa Cruz do Piauí com outros municípios, e hoje é, sem dúvida, a matriarca do lugar. Isso porque quando algum morador necessita de algo, é a Nêga Dominga a quem recorrem. Com sabedoria, a griô sabe muito bem que o alimento da alma é o que move o seu povo. Por isso, vem se desdobrando para não deixar cair em sua comunidade os modos de vida quilombolas, apostando tudo o que tem na continuidade da cultura de seu povo. Dia 1º de julho, o Quilombo Mutamba enfim vai receber o título de terra quilombola do Estado.

A Retomada da Fé: São Raimundo Nonato e São Gonçalo

Como boa matriarca, Nêga Dominga percebeu que o quilombo precisava retomar a cultura dos festejos do catolicismo popular que seus antepassados realizavam. Com a partida de Maria Daniel e Dona Ana de Antônio de Carlo, o Quilombo Mutamba deixou de festejar novenas.

Sentindo que as coisas não poderiam ficar assim, há 6 anos, Nêga Dominga passou a festejar entre 23 e 31 de agosto, a novena de São Raimundo Nonato, padroeiro da comunidade. Todas as noites os moradores da comunidade quilombola e região se reúnem para rezar Benditos puxados por Dona Dominga, numa renovação de fé admirável. O festejo reúne todos os moradores da Mutamba, incluindo jovens e crianças.

Inclusive, para dar alma nova a essa devoção, Dona Dominga mobilizou a comunidade para levantar recursos e construir uma capela. As obras andam devagar, já que o dinheirinho envolvido é curto, porém, a vontade dos quilombolas é grande e, de tijolo em tijolo, as paredes vão se erguendo e a fé vai se fortalecendo. Tudo por iniciativa de Nêga Dominga.

Capela está sendo construída graças à força de vontade de Nêga Dominga e a comunidade | Foto: Francisca Sousa

Além disso tudo, nos últimos anos, a griô vem atuando em outra frente, dessa vez, levando adiante o 3º Encontro de São Gonçalo, primeiro evento dessa natureza em todo o estado do Piauí. Emocionada, é a própria quilombola quem explica e convida a todos a participarem:

“Nós vamos ter dia 3 de julho o 3º Encontro de São Gonçalo. Eu queria até convidar a todos, se fosse possível. E aí a gente tá construindo uma gruta aqui pra colocar São Gonçalo dentro. Enquanto eu for viva, esse festejo vai acontecer aqui na Mutamba. A gente já tem o de São Raimundo Nonato, e esse de São Gonçalo também vai acontecer enquanto eu tiver viva aqui dentro da Mutamba. A gente fez camiseta, fez tudo. Eu acho que no Piauí, é o único Encontro de São Gonçalo, e esse nós já vamos fazer o 3º. A gente tá organizando um festejo de São Gonçalo bem bonito. A gente reúne as comunidades, cada uma trazendo o São Gonçalo e a gente faz aquela festa”.

A Lezeira no Sangue e o Legado de Nêgo Bispo

Ativista Quilombola, Nêga Dominga é discípula de Nêgo Bispo, com quem compartilhou inúmeros momentos de luta, quebrando as estradas do sertão piauiense para conscientizar os quilombolas de suas identidades e suas raízes. Hoje ela celebra, pois finalmente o Quilombo Mutambo irá receber a titulação de terra quilombola oficial.

Nêga Dominga é uma das mais ativas lideranças quilombolas do Piauí | Foto: Francisca Sousa

É notável o esforço vigoroso com que Nêga Dominga se doa para a continuidade da cultura deixada por seus ancestrais. Eu poderia gastar o verbo aqui pra tentar explicar a dimensão da importância de Nêga Dominga, mas nada como ela mesma expressar o seu amor à cultura de seus antepassados. Quando eu e a jornalista Francisca Sousa levamos Nêga Dominga pra se apresentar no SESC Parnaíba, onde aconteceu o lançamento do livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira” em 2024, a griô proferiu fala histórica, que sensibilizou a todos os presentes:

“Eu sou Nêga Dominga, eu sou do quilombo Mutamba, e sou da Lezeira, aonde lá a gente tem diversas culturas. Lá a gente tem a Lezeira, a gente tem o São Gonçalo, a gente tem várias culturas lá. Lá onde a gente mora é um quilombo, é um quilombo ainda bem… esquecido mesmo, bem pobre, as casas aonde a gente mora são casinhas lá de pau a piques, de taipa, mas mesmo assim a gente é feliz com a nossa cultura, porque a nossa cultura, quando a gente nasce, a gente já traz no sangue.

Quilombo Mutamba é resistência | Foto: Francisca Sousa

Porque Lezeira, quando eu nasci, ninguém me ensinou a dançar Lezeira. Quando eu fui crescendo eu já fui vendo, né, e já infuluí pra dançar, mas meu tio me tirou que eu era muito pequena, né, eu digo: ‘Mas um dia eu vou crescer e é isso que eu vou fazer’. E eu cresci, e hoje a gente tá na Lezeira. E lá no nosso quilombo a gente sempre se reúne e a gente sempre faz a Lezeira, né? E tudo que a gente vai fazer a gente envolve um pouquinho da Lezeira. Por exemplo, lá a gente tem um festejo que a gente festeja São Raimundo Nonato, mas a gente faz o nosso festejo, depois do nosso festejo a gente convida: ‘Vamô fazer uma roda de Lezeira’. E aí nós estamos aí fazendo a Lezeira, né, o São Gonçalo.

E eu quero dizer a vocês que isso pra gente é muito importante, porque é uma coisa que vem dos nossos antepassados, que a gente vem passando de geração em geração pra gente não ver a nossa cultura apagar, a nossa cultura cair. E aí a gente tá lá, fazendo a Lezeira acontecer. E aí as crianças já vão crescendo vendo, e a gente já vai envolvendo elas no nosso quilombo e elas também já são da Lezeira”.

Nêga Dominga fez fala emocionante no SESC Parnaíba

O Canto que Ecoa

Hoje Nêga Dominga é uma das mais destacadas cantadeiras de Lezeira e, numa noite desta brincadeira, quando abre a boca pra sapecar os seus versos, todos vão à forra, com a beleza de seu canto e a riqueza de seus versos. Dona Dominga faz parte da linhagem de uma tradição de canto que merece cuidado e respeito. Os cantos coletivos em que a mulher entoa uma oitava acima, cobrindo o lençol de vozes com um canto agudo arrepiante de se presenciar.

No Samba, esse canto era função das Pastoras nos primórdios das Escolas o que, no decorrer das décadas, foi se perdendo e hoje vem sendo retomado pelo Movimento Samba de Terreiro, nascido em São Paulo e que vem se espalhando para outros estados. Por isso o canto de Nêga Dominga precisa ser escutado com reverência e admiração, assim como necessita ser cuidado como uma flor, para que não se perca no vendaval do tempo.

Nêga Dominga solta a voz na roda de Lezeira | Foto: Francisca Sousa

Mas o papel de uma Mestra não é somente dominar os ofícios de sua arte, mas sim, antes de tudo, lutar para que a sua comunidade tome gosto pelos modos de vida de seus ancestrais e os prossiga praticando e os repassando, continuamente. E esse desafio Nêga Dominga encara como missão de vida, compensando a carência material onde vive com muito amor, muita garra e muita luta. A griô segue plantando com coragem e lirismo, para quando se encantar, as crianças do quilombo colherem os frutos que ela tão bem vem cultivando, haja chuva ou haja sol.

Nêga Dominga tem forte conexão com sua terra | Foto: Francisca Sousa

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Eduardo Pontin

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados