27 de junho de 2026

Dona Mercê do Alagadiço: Guardiã da cultura tradicional no Piauí, por Eduardo Pontin

Ela é a alma de sua comunidade e, por sua causa, muitos jovens hoje podem vivenciar noites que são verdadeiras aulas de cultura ancestral.
Dona Mercê na simplicidade de seu lar no Alagadiço | Foto: Francisca Sousa

Dona Mercê, de Itainópolis (PI), é referência na preservação das tradições culturais locais, como São Gonçalo e Cantoria de Viola.
Desde criança, aprendeu e lidera rituais culturais, sendo reconhecida como mestre e aglutinadora comunitária no Alagadiço.
Mesmo diante do preconceito, promove a cultura tradicional e mantém vivas as manifestações ancestrais em sua comunidade.

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Série Piauí Cultura Regional (27)

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Dona Mercê do Alagadiço: Guardiã da cultura tradicional do interior do Piauí

Mestra é elo entre gerações no repasse dos saberes de seus ancestrais

por Eduardo Pontin

No povoado Alagadiço, no município de Itainópolis, Dona Mercê (Maria das Mercês de Azevedo Sousa, 24/09/1956-) é a grande referência quando o assunto é cultura tradicional. Graças a ela, expressões como o São Gonçalo, as rezas de Benditos, a Cantoria de Viola e a Lezeira prosseguem vivas. Prestes a completar 70 anos bem vividos, Dona Mercê é a alma de sua comunidade e, por sua causa, muitos jovens hoje têm o privilégio de vivenciar noites que são verdadeiras aulas de cultura ancestral.

O gosto por essas manifestações vem de berço: seu avô José era tirador de Visita de Cova; sua mãe, Dona Luiza, era rezadeira de Benditos em velórios; seu pai, Seu Francisco, e seus tios eram de Lezeira; e o pai também era promovente de Cantoria. E, sem perceber, Dona Mercê foi se criando naquele meio repleto de alegria e com um toque sagrado. Hoje não tem pra onde correr: ela é a voz de referência na região e, quando alguém quer organizar um São Gonçalo, uma Lezeira ou uma Cantoria, vão logo bater à porta de Dona Mercê, sempre aberta para o seu povo e para a sua cultura.

Dona Mercê dá depoimento para equipe do IPHAN | Foto: Francisca Sousa

A força de uma enfrentante

Entre as principais qualificações de um mestre de cultura, está a iniciativa de tomar a frente, de saber começar e terminar o ritual, de enfrentar, por isso, os líderes de bens culturais na caatinga do sertão do Piauí são chamados de enfrentantes. Dona Mercê reforça:

“Eu sou desapoucada pras coisas. Aquilo que eu sei fazer não tenho medo nem tenho vergonha de começar”.

A sempre sorridente Dona Mercê | Foto: Francisca Sousa

Com pouco mais de 10 anos, já acompanhava o pai e as irmãs nas rodas de Lezeira, sendo frequentemente censurada para não entrar por causa da sua idade. Mas isso nada adiantava e, mal a roda se formava, Mercêzinha era das primeiras a dar as mãos ao seu par, cheia de vontade de brincar e até de arriscar alguns versos, cantando. Nessa época, aprendeu cantiga que muito bem representa a Lezeira:

Adeus Rosa, lira
Que eu vô me ausentá
Deserto pelo mundo
Vô brincá, vô vadiá

Com apenas 12 anos de idade, um Mestre de São Gonçalo a ensinou os fundamentos e o simbolismo desta dança. Desde então, Dona Mercê tornou-se trocadeira de São Gonçalo, passando, com o tempo, a guieira, que é quem coordena as outras trocadeiras durante as jornadas da dança.

Por volta de 18 anos, já ia aos velórios prestar seus sentimentos às famílias e observava o povo rezando fervorosamente os Benditos para que a alma da pessoa que estava ali imóvel na sala fizesse a sua viagem em paz. Hoje, nos terços de sua comunidade, é Dona Mercê quem puxa as rezas e todos a acompanham.

Dona Mercê entoa pé de verso com Dona Irene e Dona Lúcia | Foto: Ricardo Augusto Pereira (IPHAN)

Versos no terreiro contra o preconceito

O gosto em promover a Cantoria de Viola Dona Mercê aprendeu com o pai. Pra se ter uma ideia da paixão de sua família por essa arte, quando uma filha de Seu Francisco se casava, não havia festa de sanfoneiro, não. A ordem era mandar chamar os mais competentes cantadores da região, pra que a celebração do matrimônio fosse feita em versos cantados ao som plangente da viola. Nessa toada, Dona Mercê foi crescendo na companhia de poetas que desfiavam versos que contavam a história de sua família, de seus vizinhos, de seu povo, enfim.

Poetas que a história oficial nunca teve o cuidado de documentar, mas que permanecem vivos no coração de Dona Mercê, como Miguel Serafim, João Senhora, Vicente Cego, Vicente Francalino, Seu Loro e Astrogildo. Ela pegou amor pela Cantoria e, hoje, por sua causa, o Alagadiço segue vivendo noites de poesia. Em seu terreiro, hoje brilham as vozes e as estrofes de Chico da Luz, Genivaldo Souza, Henrique Paiva, Zé da Luz, Vilelas, Antônio Lima, Barrazul.

Zé da Luz tem no terreiro de Dona Mercê palco certo para sua arte | Foto: Francisca Sousa

Tudo isso mesmo com o preconceito dos que preferem os paredões de som e as bandas:

“Quem não gosta, tem raiva, fica difamando a gente que só gosta de Cantoria, só é gastando dinheiro nas Cantoria. Não, eu pago porque, aquilo que eu não sei fazer, eu gosto de admirar e ali é um trabalho deles, não é todo mundo que faz aquele trabalho. Eu promovo e valorizo quem sabe fazer o trabalho”.

O mestre como aglutinador

Itainópolis é uma terra onde há diversas Cantadeiras e Cantadores de Lezeira. Porém, a maior parte já tem certa idade e, para acontecer uma Lezeira interior adentro, só mesmo se Dona Mercê estiver pelo meio. Afinal, mestre não é apenas aquele que sabe praticar uma expressão cultural com esmero e brilhantismo. Saber fazer é qualidade básica, mas o mestre também tem que ser um aglutinador comunitário: se mobilizar, convocar seus vizinhos, movimentar a comunidade. Por isso, mesmo com a Lezeira devagar pros lados do Alagadiço, quando Dona Mercê sai convidando o povo pra brincar a Lezeira, todos comparecem para prestigiar e fazer acontecer uma noite de celebração à vida e à memória de seus ancestrais.

Dona Mercê enfrentando roda de Lezeira no terreiro | Foto: Francisca Sousa

Sabe quando a gente busca na memória quem foi a primeira pessoa que vimos à frente de uma atividade cultural de base comunitária? No povoado Alagadiço, muitos adultos se lembram hoje de Dona Mercê. E muitas crianças, no futuro, também se recordarão dessa guardiã da cultura de seu povo — um verdadeiro elo entre gerações no repasse da herança viva que recebeu de seus antepassados.

Dona Mercê (ao centro), nos braços da comunidade | Foto: Francisca Sousa

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

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Eduardo Pontin

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

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