O povo vadiô na Lezeira, mesmo com chuva forte na Semana Santa
Temporais não desanimaram brincantes
por Eduardo Pontin
Série Piauí Cultura Regional (26)
Historicamente, o cantador de Lezeira trabalha na lavoura. A relação do homem e da mulher da roça com a chuva é sagrada. É dela que vem a boa safra de seus legumes, a fartura de alimentos para os próximos meses. Por isso, quando durante a Semana Santa cai um temporal que os impede de brincar a Lezeira em seu período mais tradicional, os brincantes da Lezeira não ficam se maldizendo.
Pelo contrário, saem a repetir o mantra: “A gente faz um plano, Deus faz outro. E o certo é o de Deus”, ou “Tudo o que Deus faz, é bem feito”.
Foi o que aconteceu nessa última Semana Santa. Os redutos de Lezeira estavam no jeito pra vadiá, mas São Pedro achou por bem derramar água até o limite do fim do inverno no Piauí, beneficiando milhares de famílias que vivem da agricultura de subsistência.
Com isso, na Quarta-feira Santa, Pai Pedim de Aruanda, do Quilombo Atrás da Serra, não pôde rezar o terço que herdou de sua mãe, tampouco brincar a Lezeira com sua comunidade. A chuva foi pesada na quarta.
Quinta-feira despontou e com ela novamente a chuva. Havia grande expectativa em Picos na Comunidade Sobradinho para Seu Chico Guilherme e os brincantes da localidade Boa Vista mostrarem o que sabem fazer numa roda de Lezeira.
A produtora Mariana Guedes da TV Assembléia teve a ideia de ir lá registrar a brincadeira. No dia e horário da Lezeira na quinta, a chuva insistiu em cair torrencialmente. Foi numa trégua dos céus que os brincantes puderam vadiar e festejar o secular brinquedo piauiense, com tudo sendo registrado pela TV Assembleia, com reportagem pra lá de caprichada do jovem e talentoso jornalista Danilo Eliéser. Assista:
Na Sexta-Feira da Paixão, no Quilombo Custaneira, a brincadeira foi transferida do terreiro para o salão coberto, para evitar a chuva, com Mestre Naldim contagiando a todos com sua vitalidade.
Também na sexta, em Floresta do Piauí, Mestre Gabiru honrou seus ancestrais e liderou roda de Lezeira no terreiro de Dilsim e Hosana. Já o Quilombo Mutamba preferiu adiar a brincadeira e deixar pra fazer mais pra frente, quando as chuvas tiverem cessado por lá.

O inverno no Piauí é um estado de espírito. Tudo fica verde, sobe aquele cheiro de terra molhada repleto e todos ficam felizes com a fartura que o inverno traz.
Talvez essa seja uma das motivações para se escolher a Semana Santa para brincar tradicionalmente a Lezeira: era quando, antigamente, o inverno já havia findado e era possível festejar e agradecer uma boa colheita.
E se o motivo para não brincar são as chuvas, não importa! O que importa de verdade para o sertanejo é um ano com bom inverno.
A Lezeira pode esperar pela Semana Santa do próximo ano.
♫ “Entreguei essa Lezeira / Entreguei satisfação / Que pena que a chuva / Num deixô nóis brincá, não” ♫
O que Deus faz, é bem feito!

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.
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