Lezeira na Semana Santa: é tempo de vadiá
Quilombos e Comunidades Tradicionais agoam seus terreiros para receber dança centenária
por Eduardo Pontin
Série Piauí Cultura Regional (25)
A Semana Santa está chegando e, com ela, a dança da Lezeira invade os terreiros de quilombos e comunidades rurais tradicionais do sertão do Piauí. Neste ano de 2026, a brincadeira vai ser agitada, pois diversas localidades estão se organizando para colocar em prática a dança centenária: Comunidades Floresta, Sobradim e Uruçui Preto, além dos Quilombos Mutamba, Atrás da Serra, Custaneira e Potes. Mestre Gabiru, Raimundão da Mutamba, Pai Pedim de Aruanda, Josias, Naldim e Mestra Dona Rita já estão aquecendo a goela e treinando o juízo pra festejar direitinho. A Lezeira, assim como muitas outras expressões culturais afro-indígenas, é tradicionalmente brincada num período religioso. Confira a seguir a agenda da Lezeira nesta Semana Santa e, se puder, se organize para ir vadiar também! Lembrando que, como toda brincadeira, a Lezeira acontece sob o transbordante céu de estrelas da noite piauiense.
Quarta-feira Santa
Quilombo Atrás da Serra
Em Santa Cruz do Piauí, no Quilombo Atrás da Serra, Pai Pedim de Aruanda mantém carinhosamente uma tradição herdada de sua mãe: ao cair da noite, após a janta, reúne toda a comunidade para rezar um terço. Logo em seguida, a Lezeira rola solta no terreiro em frente à sua casa. Pai Pedim é Patrimônio Vivo do Piauí.

Terreiro da casa de Pai Pedim recebe reza do terço antes do início da Lezeira | Foto: Francisca Sousa
Quinta-Feira Santa
Comunidade Sobradim
Picos é a terceira maior cidade do Piauí, mas seu crescimento não oprimiu a prática da Lezeira em sua zona rural, onde a brincadeira resiste bravamente na Comunidade Boa Vista. Lá, Mestre Chico Guilherme, certificado neste ano como Patrimônio Vivo do Piauí, é o principal cantador. Neste ano, a Lezeira foi encomendada por Seu Agenor, da comunidade vizinha de Sobradim, e irá reunir os brincantes de toda a região para a poeira subir e a roda girar.

Mestre Chico Guilherme se remoça em roda de Lezeira na Boa Vista | Foto: Francisca Sousa
Sexta-Feira Santa
Floresta do Piauí
A cidade de Floresta do Piauí é a sexta menor do estado, por essa razão, é tratada como uma comunidade. Os florestenses cultivam a Lezeira na Sexta-Feira Grande há mais de um século e mantêm viva essa expressão cultural geração após geração. Há cerca de uma década, o terreiro escolhido para a brincadeira é o de Dilsim e Hosana, na localidade Volta. Mestre Gabiru (Patrimônio Vivo do Piauí) e Zé de Anísia (Mestre Imortal da Academia Florestense de Cultura Popular) irão arrebanhar o povo da Lezeira pra vadiá até o dia amanhecer. Floresta do Piauí é conhecida como a Capital da Lezeira.

Mestre Gabiru sustenta com irreverência a Lezeira em Floresta | Foto: Francisca Sousa
Quilombo Mutamba
Como a Sexta-Feira Maior é historicamente a data mais tradicional da Lezeira, é comum que mais de um lugar a festeje. E no Quilombo Mutamba, Dona Dominga e Seu Raimundão já estão limpando o terreiro para abrigar a brincadeira de seus ancestrais com muito carinho e amor. Seu Raimundão da Mutamba é um dos mais festejados cantadores de Lezeira e foi o primeiro cantador desta expressão cultural a ser certificado pelo Governo do Estado como Patrimônio Vivo do Piauí. A Lezeira da Mutamba é uma das coisas mais belas que se pode presenciar nessa vida.

Quer conhecer Lezeira grande? Vá no Quilombo Mutamba e amanheça o dia | Foto: Francisca Sousa
Quilombo Custaneira
Certa vez, Negô Bispo disse que se os quilombos tivessem uma capital, seria o Quilombo Custaneira. Não à toa, a programação para a Sexta-Feira Santa está repleta: haverá procissão, seguida de jantar, terço, Reisado, Lezeira e, após a meia-noite, a derruba do Judas. Em Custaneira, a Matriarca Dona Rita (Patrimônio Vivo do Piauí) é quem dá o tom para que seu filho, Mestre Naldim, sustente as brincadeiras com grande energia e devoção.

Dona Rita é mestra na arte de dizer versos na Lezeira | Foto: Ricardo Augusto Pereira
Uruçuí Preto
No município de Uruçuí, Mestre Josias não se cansa de lutar pela continuidade da Lezeira, que em sua região é conhecida apenas como Lezô. Toda Sexta-Feira Maior, reúne os brincantes na localidade Uruçuí Preto e arrocha a goela no mundo, entoando cantigas e versos de Lezeira que vencem a noite.
Relação de bens afro-indígenas com o sagrado
As expressões culturais musicais afro-indígenas têm uma matriz em comum: a maior parte delas são desdobramentos da relação de suas comunidades com o sagrado. Isso não significa que sejam necessariamente religiosas, mas que dividem o mesmo espaço onde há práticas religiosas. Por essa razão, durante muitas décadas, definiram-se erradamente essas expressões como profanas e como sagradas apenas os cânticos de fato religiosos. Entretanto, essa é uma visão reducionista e colonialista, uma vez que o canto da Lezeira, por exemplo, é sagrado para quem o pratica há gerações em sua família.

A entrega do canto da Lezeira é sem dúvida algo sagrado | Foto: Francisca Sousa
Nesse contexto, como muitos outros bens culturais afro-indígenas, a Lezeira é praticada tradicionalmente num período considerado sagrado. Neste caso, durante a Semana Santa. Algumas razões explicam a escolha dessa data. Uma delas diz respeito às tradições da Sexta-Feira Santa, quando o catolicismo popular dita que não se deve utilizar faca, varrer a casa ou tocar instrumentos musicais, para se honrar o sofrimento de Jesus na cruz. Mas o entendimento do povo é tão fino que, já que não se podia tocar instrumento, criou-se uma brincadeira em que era possível cantar e dançar sem toque de instrumento algum. Nascia a Lezeira.

“O instrumento da Lezeira é o cantador”, Monique Augras, cientista social especialista em cultura afro-brasileira | Foto: Francisca Sousa
Outra razão, essa mais universal e que também justifica tantas outras manifestações culturais praticadas conjuntamente a eventos religiosos, é o ajuntamento de pessoas que esses encontros proporcionam. Pessoas que moram longe e, com as demandas do dia a dia, se veem pouco. Os encontros motivados por eventos sagrados são uma ótima oportunidade para não apenas colocar a fé em dia, mas também o espírito de brincadeira, em meio a um cotidiano sempre tão duro e tão sério.

Eventos religiosos mobilizam diversas comunidades no interior do Piauí
Por essas e outras razões, a Semana Santa é o período preferido dos brincantes da Lezeira. E neste ano não vai ser diferente! Os mestres e mestras já estão arrebanhando o povo da Lezeira para vadiá até o sol quilariar. Ou até quando a leseira em seus corpos os consumir.
♫ Lezô Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira!
Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.
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