4 de junho de 2026

São Paulo: do populismo de direita à esquerda intelectual

Sobre a formação política de São Paulo

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O POPULISMO DE DIREITA EM SÃO PAULO – Após o fim do Estado Novo e da redemocratização de 1946, São Paulo conheceu um  fenomeno politico novo, o populismo, forma de mediação politica direta do lider com as massas, algo que não existia na Primeira Republica, com seus politicos solenes e formais, cujo contato com o eleitor se dava por intermedio dos chefes politicos locais. Governadores eram eleitos sem sair da capital, cada municipio através de sua liderança local se encarregava de entregar os votos em troca de influencia e atendimento de suas reinvidicações no Governo do Estado. O processo se repetia para a eleição de Presidente, lembrando que na Republica Velha o voto era aberto, restrito e masculino.

No regime democratico da Constituição de 46 surgiu em São Paulo um politico de estilo populista com vinculo direto com o povo na figura de Adhemar de Barros, oriundo da elite cafeeira paulista mas com acurado faro politico que o fazia ser personagem antenado com o povão. Adhemar não era um do povo, médico com elevada formação, residencias medicas nos EUA e Alemanha, falava alemão, francês e inglês,  Adhemar fazia o tipo escrachado, amigão, simpatico, caiu logo no gosto popular. Foi eleito governador duas vezes (47 e 63) e Prefeito uma (57), tendo sido antes Interventor por nomeação do ditador Getulio Vargas. Adhemar era um tipico populista de direita, deixou um enorme legado de obras e realizações, importantes em São Paulo até hoje e uma fama de corrupto. Por causa de seu estilo e não de sua ideologia, Adhemar era considerado em São Paulo o anti-elite, por ser um contraponto ao politico da Republica Velha, formal e solene.

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Janio Quadros nasceu como politico em oposição a Adhemar, tambem se comunicava e muito bem direto com o povo, não precisva de intermediarios e nem de partidos. Janio foi eleito Prefeito (53), Governador (55) e Presidente (61) pelo seu estilo e não pela ideologia, que era nenhuma.

Histrionico e folclorido na comunicação era, como Adhemar, excelente administrador no sentido de atenção aos detalhes, acompanhamento de obras, controle do governo.

Paulo Maluf foi de uma forma bem distante um seguidor do estilo populista embora com menos originalidade.

O populismo de direita é uma caracteristica de São Paulo porque tem eleitores que se alinham bem com esse modelo. O mercado do populismo de direita está carente em São Paulo, seus eleitores não tem em quem votar, o voto populista está disperso, o ultimo politico paulista com um resquicio de populismo foi Mario Covas, o unico populista tucano conhecido.

O eleitorado do populismo de diretia era o capital politico fiel de Paulo Maluf por um bom tempo, um esgarçamento geracional sem duvida ocorreu mas ainda é um nucleo consideravel de votos sem dono.

Para se ter uma ideia desse potencial, Janio Quadros, depois do desastre politico da renuncia que em situações normais o fariam um politico arquivado para sempre, ainda ganhou uma eleição de Prefeito em São Paulo contra Fernando Henrique Cardoso, então com o prestigio de combatente contra a ditadura e intelectual reputado. Janio, já alquebrado, com uma campanha modesta, ganhou de FHC

com os votos de um fiel eleitorado.

E registre-se que nos anos de construção desse populismo em São Paulo, uma onda importante de pensamento de esquerda se formou , a partir de varias vertentes. Um livro saboroso, que recomendo, NOS BARES DA VIDA-Produção Cultural e Sociabilidade em São Paulo-1940-1950, de Lucia Helena Gama, Editora Senac, 328 paginas, dá o pano de fundo da formação da esquerda intelectual paulistana, com os nomes que se filiaram ao Partido Comunista Brasileiro, como Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Patricia Galvão (Pagu), Samuel Pessoa, Samuel Wainer, Rachel de Queiroz, Carlos Scliar, Aparicio Torelli (o Barão de Itararé), Villanova Artigas, Candido Portinari, Alvaro Moreyra, Caio Prado Junior, Mario Schmberg,  tambem moços que frequentavam o Edificio Santa Helena, sede do PCB e do Partido Socialista, como Saulo Ramos, recem formado em Direito.

O livro de Lucia Helena Gama mostra o prestigio que o Partido Comunista tinha nessa intelectualidade

refinada daquela época, o que não se transformou em votos para ganhar eleições. Para quem gosta, o livro é um prato cheio para a descrição da vida boemia da São Paulo da garoa dos anos 40, seus cafés, boates, dancings, barzinhos, restaurantes, orquestras, clubes, carteados, bilhares, teatros e cinemas, alem das livrarias pontos de encontro, como a Jaraguá.

Aos que retrucam que a São Paulo de hoje não tem nada a ver com essa São Paulo respondo que as cidades tem alma que se impregna nas ruas, postes, predios e parques, muita coisa muda, outras continuam, Paris de hoje é tambem diferente da Paris Belle Epoque mas o espirito das cidades tem vida independente de seus habitantes e São Paulo continua sendo hoje muito diferente do restante do Brasil, é um contraponto ao Rio de Janeiro até hoje, por exemplo, estrangeiros percebem isso quando vem ao Brasil pela primeira vez.

A politica de São Paulo é muito especifica, a mesma cidade que elegeu Maluf em seguida elegeu Erundina, que fez uma campanha simples, modesta e despretensiosa, o porque é de explicação nada facil, São Paulo é realmente uma cidade bem complicada.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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