Enviado por Assis Ribeiro
Da Carta Maior
Tarifa de telefonia e privatização
Por Paulo Kliass
Durante a fase de ouro das reformas estruturais nos países em desenvolvimento, os pressupostos do chamado “Consenso de Washington” orientavam a grande maioria das políticas públicas pelo mundo afora. A América Latina foi, em especial, um palco privilegiado para o estabelecimento de medidas orientadas a favorecer a acumulação privada de capital, em detrimento de um conjunto de atividades econômicas e sociais que ainda eram desenvolvidas pelos Estados na região.
Um dos pilares mais importantes desse cardápio do neoliberalismo era a privatização das empresas estatais, processo que conheceu diferentes formas de implementação. A intenção básica era reduzir a presença do Estado na economia, seja por meio da venda direta do patrimônio das empresas públicas ao setor privado, seja por meio da ampliação do espaço do capital privado nesses setores, seja pela abertura da participação acionária ao setor privado nas empresas estatais, seja por meio da concessão de novos espaços da atividade para as empresas privadas. Em suma, todo processo de privatização significa o aumento da presença do privado e o esmagamento da presença do público.
A elaboração mais refinada dos argumentos ficou sob responsabilidade das instituições multilaterais (FMI, Banco Mundial e outros), de centros de pesquisa da ortodoxia econômica e dos institutos ligados ao financismo. A privatização era imposta como uma verdadeira panacéia para todos os males de que as sociedades padeciam. Tudo se explicava pela ineficiência do setor público e de seu suposto gigantismo. Para fazer valer as leis sacrossantas do mercado, era fundamental que o Estado fosse reduzido à sua dimensão mínima, apenas para assegurar os serviços básicos que não pudessem ser delegados à iniciativa privada.
Privatização das telecomunicações: propaganda enganosa
Os diferentes setores de infra-estrutura foram um prato cheio para o processo de privatização. Lá no início – entre as décadas de 1930 e 70, telecomunicações, energia, transportes, saneamento básico e outras áreas foram constituídas como serviços geridos pelas administrações públicas exatamente pelas características inerentes a esse tipo de atividade. No entanto, uma vez passada a fase inicial de investimento pesado, o capital passou a identificar nas mesmas um “locus” espetacular para realização de sua própria acumulação e reprodução.
O caso das telecomunicações brasileiras foi exemplar. As empresas estatais foram todas vendidas ao capital privado a preços muito abaixo de seu valor patrimonial e com o suporte de uma engenharia financeira de baixíssimo custo para os novos proprietários. Esse processo envolveu a sub-avaliação dos lances iniciais das empresas leiloadas, a possibilidade de utilização das chamadas “moedas podres” da dívida federal como forma de pagamento, a participação de fundos de pensão de empresas estatais como suporte financeiro, ente tantos outros artifícios em prol da lógica privada.
Os argumentos mais “convincentes” asseguravam que a venda seria essencial para atenuar o impacto da pesada dívida pública e que o governo ficaria, assim, mais livre para investir nas áreas prioritárias. Além disso, dada a suposta ineficiência pública considerada inquestionável, a simples transferência das empresas para o setor privado provocaria – como um simples toque de mágica – elevação de eficiência e redução de custos. As conseqüências chegariam pela redução de tarifas e pelos ganhos em qualidade de serviços para os usuários. Em suma, seria o melhor dos mundos para todos.
Benesses para empresas e custos para os usuários
No entanto, a realidade pós privatização de nossas telecomunicações foi sendo construída de maneira bem diferente. A suposta prevalência das regras de mercado e de concorrência terminou não vindo pela simples e óbvia razão de que o setor não comporta essa conformação de empresas pulverizadas. Trata-se de uma estrutura altamente concentrada, organizada sob a forma de oligopólios que preferem o acerto entre si a promover disputas que possam resultar autofágicas. Além disso, o desenho das agências reguladoras permite que as políticas públicas sejam implementadas de acordo com os interesses das empresas prestadoras dos serviços, e não dos usuários e nem da sociedade em geral.
Muitos argumentam também que a universalização do acesso ao telefone tetia ocorrido graças à privatização. Na verdade, utiliza-se aqui de um capcioso instrumento de retórica. É inegável o grande avanço de inclusão que foi proporcionado pelo acesso generalizado que a população passou a ter à rede de comunicações (via telefone celular e internet) depois da década de 1990. Esse é um fenômeno global, que atinge as populações de baixa renda na grande maioria dos países, por todos os continentes. O salto tecnológico alcançado pelas inovações da área de telecomunicações, combinada com conquistas da informática, não podem ser consideradas como fruto da melhor gestão privada das empresas.
Fosse o nosso sistema ainda de natureza pública, com toda a certeza os telefones celulares estariam tanto ou mais difundidos pelo Brasil afora, como atualmente. A título de comparação, basta ver o desempenho excepcional alcançado pela Petrobrás em sua área específica de atuação. O fato de ela ter escapado à sanha privatizante – e permanecer até hoje como empresa estatal – não a impediu de auferir ganhos de eficiência e produtividade na pesquisa, prospecção, refino e outras atividades do setor energético. Ao contrário, nossa sexagenária detém conhecimento e capacidade tecnológica de ponta em todas as etapas do processo petrolífero.
Assim, ao fazermos um balanço breve do ocorrido ao longo desses 15 anos de telefonia privatizada, os resultados não se revelam positivos, se a ótica for os usuários e sociedade brasileira de forma geral. O sistema foi vendido a preço de banana e a dívida pública explodiu durante essa década e meia. Assim, o esforço de transferir a propriedade desse verdadeiro filé mignon de nossa administração pública para os conglomerados privados não apresentou os resultados esperados em temos da ótica fiscal. O efeito concorrência foi praticamente nulo, em razão dos poucos agentes operando pelo lado da oferta. As tarifas estavam indexadas, logo de início, à evolução de um índice de preços (IGP-M) que subiu muito mais do que a inflação medida pelo INPC. Assim,, houve uma brutal transferência de renda dos usuários para as empresas já administradas pelo capital privado.
No quesito qualidade de serviços, a impunidade tem sido a regra, juntamente com o desrespeito aos contratos e aos direitos básicos dos consumidores. A ANATEL não consegue impor nenhuma autoridade efetiva sobre as empresas e as mesmas são sistematicamente as primeiras colocadas no campeonato de número de reclamações junto aos órgãos de defesa do consumidor. Disputam as medalhas com as instituições financeiras privadas. Estão aí como prova desse descaso também o sucateamento da rede de telefones públicos, as sistemáticas e recorrentes falhas na oferta de sinal, as ilegalidades cometidas na emissão de faturas irregulares, a propaganda enganosa, as dificuldades na execução da portabilidade, entre outros escândalos.
Tarifa no Brasil é a mais cara do mundo
E para premiar a lista de más notícias, eis que surge agora o Relatório 2013 da União Internacional de Telecomunicações (UIT), a agência das Nações Unidas que se encarrega do assunto. O documento consolida um conjunto amplo de informações a respeito do sistema de telecomunicações em todo o planeta, com significativas tabelas de comparação país a país, com dados de 2012. O órgão divulga um índice que procura avaliar o desempenho de cada país em termos de uso e capacidade em tecnologias de informação e comunicação. Na composição desse indicador entram apenas elementos de acesso à rede e equipamentos, mas não há nada relativo a preços de produtos ou serviços. Nesse quesito, o Brasil ocupa a 62ª posição, dentre 193 países avaliados. Um dos itens que mais contribui para essa posição é a variável “número de telefones celulares por 100 habitantes”, pois aqui apresentamos 125 no quesito, ou seja, possuímos a média de 1,25 aparelhos por habitante. E aqui estamos na posição número 45, inclusive à frente de países como Estados Unidos, Canadá, França e Japão.
Outra estatística preocupante refere-se aos preços praticados nas faturas dos telefones fixos de uso residencial. A tarifa média cobrada pelas operadoras no Brasil localiza-se dentre as mais caras do globo. Ocupamos a posição de número 179, atrás apenas de países com perfil de Suíça, Canadá, Noruega, Luxemburgo e semelhantes. Algo deve estar destoante nessa companhia de países com nível de renda per capita muito mais elevada do que o vigente em nossa sociedade.
Porém, a informação que mais evidencia a crueldade com que a população brasileira é tratada nas telecomunicações pode ser sintetizada na tarifa cobrada junto aos usuários de telefonia celular. Nesse caso, ocupamos a última posição da longa lista de países afiliados à UIT, que vai do Afeganistão ao Zimbabwe pela ordem alfabética. Em nosso País, o preço da ligação de telefonia celular – expresso em dólares – é mais elevado do que o praticado, por exemplo, nos Estados Unidos, Japão, Austrália e todos os paises da União Européia. Um verdadeiro contra-senso, principalmente se levarmos o poder aquisitivo do salário mínimo vigente em nossas terras, comparado com os países desenvolvidos.
Tarifa elevada, serviço de qualidade sofrível e extensões imensas de nosso território sem cobertura de sinal. Essa é a realidade da telefonia pós privatização.
Enquanto isso, pelo lado das empresas, todo tipo de benesses concedidas pelos sucessivos governos, desde o momento dos leilões de venda ao capital privado.
Mudanças na Lei Geral das Telecomunicações (lei nº 9.472/97) com o intuito de permitir a operação de telefonia e celular por um mesmo conglomerado. Estímulos ainda maiores à concentração e centralização das mega-empresas do setor, com concordância e autorização da parte do órgão regulador do sistema (ANATEL) e do órgão teoricamente encarregado da “defesa da concorrência” (CADE).
Em resumo, continua valendo por aqui a velha máxima da imagem criada pelo economista Edmar Bacha: infelizmente, também nesse quesito, ainda somos uma Belíndia. Preços e lucros de Primeiro Mundo, ao passo que a qualidade ainda é de Terceiro Mundo.
(*) Doutor em economia pela Universidade de Paris 10 (Nanterre) e integrante da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.
Henrique Steckelberg Sobrinho
12 de outubro de 2013 2:02 pmO Sr. Paulo Klias, certamente
O Sr. Paulo Klias, certamente não teve necessidade de telefone nas decadas de 70 e 80, quando uma simples linha telefonica custava mais caro do que um carro e demorava até dois anos depois de paga para ser instalada. Hoje temos no Brasil mais de um celular por habitante e podemos ter uma linha de telfone fixo por módicos R$ 29,00, com mais 30 ou 40 reais, internet de boa velocidade.
Lionel Rupaud
12 de outubro de 2013 3:03 pmSó que o Sr esquece de considerar a grande mudança…
tecnológica nas telecomunicações nos últimos 20 anos.
Mas não tem problema, o Sr acaba tendo razão por que os governos Lula e Dilma não mexeram na situação do setor, e continuaremos pagando bem mais caro que na Europa e EUA, para um serviço bem pior, ajudando grupos empresariais mexicanos (o sonho de consumo dos leitores da revista exame), espanholas ou portugueses (exemplos acabados de sucessos económicos e sociais) com enormes remessas de lucros que as salvam da bancarroto.
Uma marravilha…
sergio m pinto
12 de outubro de 2013 4:16 pmO Sr. Henrique talvez não
O Sr. Henrique talvez não saiba que a Telebras investiu 21 bilhões de reais e vendeu a telefonia por 13, depois de aumentada a capacidade da infra-estrutura e saneada a empresa. Talvez o Sr, Henrique também não tenha lido os dois livros do memorável jornalista Aloisio Biondi – O Brasil Privatizado sobre o assunto.
humberto costa pereira
12 de outubro de 2013 5:14 pmNa verdade o adquirente
Na verdade o adquirente comprava ações da companhia. Telefone hoje por 29,00 só se for para enfeite. Utlilizando efetivamente a conta, economizando, é da ordem de 200,00. A cada dez meses daria para comprar uma nova linha no sistema antigo.
Quando privatizadas as estatais já haviam lançado o celular e antes de serem repassadas tiveram forte investimento..
Caetano.
12 de outubro de 2013 10:43 pmAções ou linha telefônica?
As pessoas não queriam comprar ações, queriam simplesmente uma linha telefônica; pagavam caríssimo e aguardavam anos (foi meu caso). As cartas de reclamação dos adquirentes, publicadas nos jornais, eram respondidas com desdém e sem dar prazo para a instalação: o consumidor que deixasse de importuná-los.
Fora a Petrobrás, que realmente tem alta capacidade técnica (mas eficiência nem tanto), e o Banco do Brasil, as demais empresas estatais são uma vergonha: cabide de empregos, cheias de cargos de nomeção política de incompetentes.
Segundo o artigo, as empresas foram vendidas a preço baixo; ora, foi um leilão, quem achava que valia mais podia dar o lance. E no meu ponto de vista, seria vantajoso para os brasileiros ainda que fossem entregues graciosamente.
macedo
12 de outubro de 2013 4:14 pmInvestimento público em infraestrutura pós-privatização
http://www.scielo.br/pdf/ecos/v20n1/v20n1a07.pdf
Investimento público em infraestrutura no período pós-privatizações Gabriel Caldas Montes e Artur Faria dos Reis
Economia e Sociedade, Campinas, v. 20, n. 1 (41), p. 167-194, abr. 2011
3.1 Telecomunicações A reestruturação e a privatização do setor de Telecomunicações tiveram início com a quebra do monopólio da Telebrás (1995), com a instituição da Lei Mínima (Telefonia celular privada e outros serviços em 1996-97) e continuaram com a Lei Geral das Telecomunicações (julho de 1997). Uma vez aprovada a modificação constitucional da quebra do monopólio estatal, foi estabelecida uma estratégia de ação composta por três etapas:i) abertura imediata do mercado de telefonia celular (Banda B);ii) criação da Agência Nacional de Telecomunicações e a organização dos serviços (classificação em regime público ou privado e interesse coletivo ou restrito);iii) reorganização e privatização da Telebrás, efetuada em 1998, com a introdução da concorrência na rede básica. A condução da reforma estaria baseada na concorrência e privatização. No período de 1996-1998 – de investimentos ainda estatais – a política proativa implicou em um forte reajuste tarifário da Telebrás e na autorização de aumento dos investimentos da estatal. Posteriormente, no ciclo de investimentos privados (1998-2002), foram estabelecidas estruturas de mercado duopólicas, uma regra tarifária que faria o valor da cesta local (habilitação, assinatura e pulso local) cair lentamente até 2005 e a possibilidade de expansão das holdings locais a partir de 2002, com o cumprimento das metas de universalização. Na fase anterior à privatização, houve uma série de elementos favoráveis como a recuperação da capacidade de financiamento das operadoras, principalmente por meio da forte elevação das tarifas telefônicas iniciada no final de 1995. Houve, também, a então elevada rentabilidade da telefonia celular, os ganhos de escala advindos da expansão da rede, a contenção dos custos das operadoras do sistema e um mercado em rápida expansão, devido a uma forte demanda reprimida. Com a privatização da Telebrás em julho de 1998 e a nova regulamentação setorial, os investimentos das empresas privatizadas resultantes da cisão da Telebrás e de um subconjunto de operadoras de telefonia móvel da Banda B totalizaram mais de R$ 62 milhões entre 1998 e 2001, o que representou o dobro da média anual do volume de recursos aplicados no setor em 1996 e 1997. O investimento em telecomunicações foi acelerado na transição para a privatização e alguns anos após. A taxa de investimento aumentou de 0,53% do PIB em 1995 para 0,79% em 1997 e 1,14% na média entre 1998 e 2000. Os terminais de telefonia fixa aumentaram cerca de 13 milhões para algo em torno de 50 milhões entre 1994 e 2002e o número de celulares cresceu de 600 mil para quase 30 milhões no mesmo período. A possibilidade de expansão geográfica e diversificação de serviços constituíram um forte estímulo às empresas de telefonia. Isso porque os objetivos de ganhos de escala nos serviços, ingresso nos mercados coorporativos e de longa distância nas áreas não cobertas pelos contratos de concessão originais e ampliação da presença na telefonia celular foram essenciais ao aumento dos recursos investidos logo após a privatização do setor de telecomunicações. Uma redução dos investimentos, contudo, era esperada após as metas serem atingidas pelas operadoras, o que efetivamente se confirmou a partir de 2002. Outros fatores também induziram a desaceleração dos investimentos como o enfraquecimento da demanda (observado pelo aumento da inadimplência e na devolução de linhas contratadas); a baixa rentabilidade para um conjunto expressivo de operadoras, especialmente no segmento de longa distância e na Banda B da telefonia celular; o alto grau de alavancagem em dólar de várias empresas, com efeitos negativos no endividamento dessas empresas devido à desvalorização cambial e a fragmentação do mercado na telefonia celular, implicando nas limitações de escala
alexandre a.moreira
12 de outubro de 2013 8:14 pmMuitos argumentam também que a universalização do acesso ao tele
Não entendi
Quer justificar com este texto a maior tarifa do mundo só para criticar o artigo do Kliass ?
Martins Andrade
12 de outubro de 2013 8:22 pmO pior de tudo é que a
O pior de tudo é que a justiça acabou com o prazo de validade de recarga,e sabe quem recorreu para que as empresas continuem embolsando nosso dinheiro? A ANATEl!
Pois é a ANATEL recorreu para que nosso dinheiro continue tendo o mesmo prazo de validade dos remédios. Com uma diferença: os remédios geeralmente têm prazo de validade de dois anos. Nosso dinheiro só vale.no máximo, 9o dias!
O Ministério das Comunicações do governo é ocupado por um dos bananas da Dilma, o tal Bernando.
Waldyr Kopezky
14 de outubro de 2013 4:42 amGente, deixa eu dar meu
Gente, deixa eu dar meu pitaco tardio (Nassif, perdoe o meu atraso…):
1. O advento da telefonia móvel, da internet e novas mídias (TV a cabo, PCs, interconexão) era um desafio pesado para ficar somente no âmbito do Estado. Não era questão de gerir, mas de construir toda uma infra-estrutura dedicada que atendesse a uma demanda iminente ecrescente. Quem teve uma linha da Telesp Celular sabe como era – fila de espera de 2 anos ou desembolso de cerca de R$ 3 mil p/ comprar uma já habilitada de quem tinha sido contemplado; conta cobrando ligações feitas E RECEBIDAS no aparelho; além de enormes áreas de blackout de sinal na capital paulista (sem rede). Era um gargalo que não supria a expectativa pepular pelos serviços.
2. No acesso à rede, então, nem se fala – acessá-la (fragmentada, ainda sem ser a internet world wide web interconectada de hoje) era um processo penoso via rede telefônica que começava contratando uma empresa de call back, pois as tarifas da Embratel eram muito altas (discava-se para uma companhia no exterior, dava-se um toque e desligava para receber a ligação dela em seguida; sendo que, no final do mês, ela mandava a fatura dos interurbanos num preço menor); mas a rede era também limitada a alguns grupos de sites reunidos em BBSs (Bulletin Board Systems). Estes eram mais ou menos como provedores web (com fóruns, servidor de e-mail, bate-papo e download de arquivos), mas limitavam-se a uma quantidade restrita de sites (e pra acessar outros sites hospedads em outra BBS, tinha que rediscar paa outro telefone.
3. Neste cenário, a privatização dos setores de telecomunicações e radiodifusão era razoável e justificada – liberava-se o Estado do ônus de investir num setor tido como não-essencial (saúde, educação e segurança seriam suas prioridades) e delegava-se a responsabilidade a empresas privadas com expertise e eficiência de gestão de desenvolvimento comprovada no mercado específico.
4. A privatização, portanto, parecia atender às expectativas de dois pólos – o da população (que teria um serviço e infraestrutura de supote mais ágil, barato e competente) e o da administração pública, fervorosa adepta de conceitos modernos (neoliberais) de gestão de negócios como o do foco e alta especialização no core business, terceirizando toda e qualquer área da administração e garantindo o máximo empenho de seus recursos, objetivando a eficácia total na manutenção e excelência do grupo empresarial em sua função-fim. Tudo isso cortando custos, reduzindo gastos e “enxugando” a máquina pública.
5. Claro que esse conceito agradava ainda mais ao setor privado, sempre ávido po oportunidades e novas áreas de expansão de negócios sem amarras ou regulações do gestor público à sua atuação de mercado. Seu sonho sempre foi transformar grandes setores de atuação do governo em cadeias produtivas privadas (de vários elos) sob concessão e ingerência mínima do estado, sob a alegação que a qualidade e o preço (custo-benefício) seriam regrados pela demanda do mercado e a livre concorrência entre companhias concorrentes.
6. Bonito, lógico e irrefutável, mostrado por esta ótica – mas somente um ingênuo vê este modelo de gestão como uma arquitetura econômica oriunda essencialmente do mercado. Ela estava (e está) no cerne de políticas de Estado levadas a cabo por nações desenvolvidas que garantem estímulo a grupos e setores corporativos oriundos de seus mercados nacionais, mas com tamanho, projeção e interesses transnacionais. E isso é a base do chamado “Consenso de Washington” – um mercado global amplo, acessível e livre de barreiras, aberto e fácil à predominância dos interesses econômicos e tecnológicos de megacorporações e conglomerados experientes em açambarcar mercados via controle e manipulação (através da oferta e demanda) nos respectivos setores produtivos. Assim, garantem hegemonia e liderança de mercado que lhes garantem domínio e pressão sob médios e pequenos negócios regionais concorrentes. Para atingir esse objetivo eles vem não só com um corriculo profissional extenso e de sucesso, mas inclusive com suporte ($$$$, logístico e até político) do governo de sua sede/matriz, tanto quanto o beneplácito/conivência/passividade do governo onde reside sua recém-criada filial. Daí, para a cartelização nesse mercado (controle e liderança hegemônica, garantindo a supressão da concorrência via manipulação de fornecimento e capitais) é só um passo – cenário que denunciaria qualquer discurso ou prática em defesa de um sistema de livre-mercado baseado em igualdade de oportunidades.
7. Mas, agora vamos tentar por de lado a discussão de supostos interesses subliminares e subreptícios no processo, para voltar à análise da ideía original e das razões que justificaram a implementação das privatizações no Brasil. Vamos intuir, por um momento, que houve intenção sincera e nenhuma malícia na ação de diminuir o setor público e suas obrigações, pois era o foco obter maior eficácia e expertise atraindo um player do setor privado com comprovada atuação de mercado (desenvolvimento, gestão e pesquisa constante), tudo visando garantir mais qualidade, maior acesso e satisfação total de seu público-alvo.
8. Sejamos ainda mais condescendentes e deixemos de lado ainda quaisquer dúvidas sobre inconsistências na adaptação de conceitos, ferramentas e práticas de management empresarial à gestão no setor publico – pois o Estado teria diferenças evidentes e abissais em relação a grupos empresariais do setor privado (tanto em foco de atuação – mais de um core business ou atividade-fim – quanto em avaliação de resultados, já que maior lucro e menor custo não seriam seus objetivos no atendimento das demandas públicas e sociais, ok?).
9. Vamos então apenas avaliar o processo de privatização dos anos 90 em si, como conceito/intenção e como realização/consecução – idéia versus realidade. Bem, para começar vamos observar alguns ativos físicos do patrimônio das estatais que eram estratégicos e foram incluídos no processo de entrega das estatais – sim, entrega, pois foi inraestrutura vendida junto com a permissão de atuação das estrangeiras em nosso mercado, para SEMPRE (sem limitação de prazo de controle de uso e devolução, o que caracterizaria o processo como concessão, sistema adotado de 2002 para cá). Vamos lá:
Embratel – sua entrega ocorreu APÓS a construção (com investimento público massivo) do “backbone” (espinha dorsal dos cabos de fibra ótica que ligam o Brasil (telefonia, dados, radiodifusão, telex, etc.) ao MUNDO TODO! Foi uma estrutura tão moderna (em termos de tecnologia e potencial no atendimento do volume/demanda de transmissão de dados) que tornou-se imediatamente a principal via de fluxo e acesso não somente do Brasil, mas da América do Sul inteira (com exceção, creio, da Venezuela e Colômbia, atendidas por outro sistema dedicado). Hoje pertence à Telmex (aqui Claro) do Carlos Slim – controlar esse backbone seria estratégico para garantir minimamente o controle sobre acesso e envio de dados a exterior (espionagem).
Ainda Embratel – mas não fica só nisso, pois a estatal de telecomunicações foi entregue com o ÚNICO SATÉLITE NACIONAL em plena operação à época e tempo útil extenso e garantido em órbita. Hoje, nossos sistemas de vigilância militar orbital e previsão/ mensuração de eventos e ocorrências atmosféricas e geográficas (tempestades, terremotos, devastações por queimadas, etc.) dependem do fornecimento externo desses dados.
Telesp (demais estatais estaduais de telefonia fixa tiveram perfil similar) – não bastou privatizar a empresa e o acesso à rede de cabos subterrânea – eles venderam A PRÓPRIA REDE SUBTERRÃNEA como um ativo das companhias. E aí eu pergunto: se o propósito era garantir acesso aos serviços com qualidade e menor custo abrindo o segmento ao setor privado e a um ambiente de concorrência equilibrado, eles puseram tudo isso por terra ao venderem a rede (que passou a ser exclusiva) da espanhola Telefônica/Vivo fixo. E ai, onde ficou a coerência do discurso de livre mercado?
Telesp Celular (Telerj Celular e do DF, as que estavam montadas com infra robusta) – no conceito, a telefonia sem fio trazia a vantagem de conceder a mais de uma companhia o direito de atender prioritariamente o mercado (por isso foram criadas as concessões para empresas-espelho, como a extinta BCP em SP). Mas, novamente, houve a distorção de se privatizar a rede de antenas já em operação á empresa controladora da ex-estatal, que restringiu o acesso da sua concorrente e garantiu assim uma vantagem competitiva que a permitiu deter a hegemonia de mercado e condenar as sucessoras da BCP (Claro e Tim) a fatias modestas de um mercado que ela controla até hoje.
Resumindo: mesmo desconsiderando a prática (tão lesiva quanto escandalosa) de subvalorizar as empresas privatizadas com justificativas tão frágeis e falaciosas quanto o sucateamento das infra-estruturas por má gestão do Estado – ou absurdas e infundadas como o um temor do governo no desinteresse e abandono de empresas e investidores nacionais e estrangeiros nos leilões de privatização – ficam muito visíveís os equívocos e as contradições entre o alegado/pretendido (que seria o estímulo estatal investimentos e empreendimentos privados em novos nichos de atuação com forte demanda e potencial de crescimento expressivo via concorrência equilibrada) e a implementação desigual de todo processo de privatização efetivado nos anos 90 – compromentendo inclusive resultados e qualidade de serviços ao privilegiar abertamente certos grupos empresariais. E não somente na telefonia – nas áreas de energia, mineração e siderurgia o roteiro foi praticamente o mesmo. ABs.
Franklin
24 de novembro de 2013 4:25 pmPrivatização
Se o PT privatiza hoje, por que não privatizaria antes? Por que o PT não reviu o contrato dela? … Por que o Sr. defende o leilão do campo de LIBRA ?