28 de junho de 2026

TV GGN: Flávio Bolsonaro prometeu o Brasil a Rubio, e a base bolsonarista começa a perceber

Carta enviada pelo senador ao secretário de Estado americano revelou promessas de alinhamento com Washington e acirrou briga com Michelle Bolsonaro pelo controle do bolsonarismo
Crédito: Reprodução/ TV GGN

Senador Flávio Bolsonaro ofereceu equipe de transição ao governo dos EUA antes de ser eleito presidente.
Secretário Marco Rubio listou exigências como fim do PIX e combate ao desmatamento em resposta à oferta.
Disputa no bolsonarismo se intensifica entre Flávio e Michelle, com críticas internas e rachaduras na base.

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viajou aos Estados Unidos com o objetivo de demonstrar alinhamento ao governo Trump e pedir a suspensão das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, e voltou com uma resposta contundente do secretário de Estado Marco Rubio. A visita, porém, revelou um episódio muito mais grave: em carta enviada em 2 de junho, Flávio havia oferecido sua equipe de transição de governo ao governo americano antes mesmo de ser eleito.

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“Estou confiante que serei eleito presidente do Brasil neste outubro. Isto dito, coloco meu time de transição imediatamente à sua disposição”, escreveu Flávio na correspondência a Rubio. Na resposta, o secretário agradeceu a “oferta generosa” e registrou “otimismo” com as próximas eleições brasileiras de outubro.

Para o professor e pesquisador da FGV e USP Ergon Cugler, o teor da troca de mensagens configura traição. “Não é nem o Marco Rubio exigindo, é o Flávio entregando de graça. O Rubio só está aceitando e agradecendo a entrega”, afirmou em entrevista ao TVGGN 20 Horas.

Exigências americanas

A correspondência de Rubio ao senador brasileiro lista uma série de demandas: o fim do PIX, a não taxação das Big Techs americanas, o combate ao desmatamento ilegal e à questão do narcoterrorismo, além de abrir espaço para negociações sobre terras raras brasileiras.

Cugler lembra que a origem das tarifas sobre o Brasil remonta ao próprio campo bolsonarista. “A ideia original de taxar o Brasil veio do Eduardo Bolsonaro. Esse foi o maior tiro no pé que a família deu, porque eles não estão preocupados com o Brasil, estão tentando usar a chantagem para tirar o pai da cadeia.”

Agora Flávio tenta correr da mancha que ficou sobre sua reputação. Pesquisas de opinião, segundo Cugler, mostram que parte do eleitorado já associa a nova rodada de tarifas à visita do senador a Washington. “A mesma proporção que acha que foi o Flávio é a mesma que acha que foi o Lula, o que mostra que as redes subterrâneas do bolsonarismo continuam a todo vapor.”

Big Techs

Um dos pontos centrais da carta americana é a pressão pelo fim do PIX. Para o pesquisador, a exigência revela a lógica por trás da política americana: enquanto as maquininhas de cartão de crédito com bandeiras americanas garantiam uma fatia de cada transação feita no Brasil, o PIX criou uma infraestrutura de pagamentos independente, tirando esse fluxo financeiro das empresas dos EUA.

“É quase que uma dor de cotovelo de quem está perdendo o monopólio global em torno do que é o dinheiro”, disse Cugler. Ele lembra ainda que o próprio Jair Bolsonaro, quando presidente, não sabia o que era o PIX, mas depois quis se apropriar da criação. “Depois que o filho é bonito, todo mundo quer ser pai.”

Eduardo Bolsonaro chegou a sugerir que o Zelle, plataforma americana de transferência bancária, poderia substituir o PIX no Brasil. A comparação, porém, ignora que as funções são distintas: o Zelle opera apenas transferências entre contas, sem a capilaridade de pagamentos no varejo que o PIX oferece aos brasileiros.

Trono do bolsonarismo

Com Jair Bolsonaro preso e inelegível, a disputa pelo controle do movimento se acirrou entre Flávio e Michelle Bolsonaro. Segundo Cugler, cada um representa uma estratégia diferente, e uma base eleitoral diferente.

“A candidatura de Flávio Bolsonaro nasce com um único objetivo: garantir que o pai saia da cadeia. Não à toa, ele diz que uma de suas primeiras ações como presidente seria conceder o perdão ao próprio pai”, analisou o pesquisador.

Michelle, por outro lado, não fez a mesma promessa pública. Para Cugler, sua candidatura potencial capitalizaria sobre uma base de mulheres evangélicas que Flávio não consegue aglutinar da mesma forma. Porém, no interior do bolsonarismo, historicamente machista, os aliados tendem a preferir apoiar o filho do que a companheira.

A briga ganhou novos contornos com declarações pesadas de Michelle sobre o senador, a quem teria chamado de pessoa violenta com mulheres.

Rachaduras na base

Cugler identifica três grupos distintos dentro do eleitorado bolsonarista diante das últimas revelações.

O primeiro é o núcleo duro, que não muda de opinião independentemente das evidências. “Eles fazem malabarismo retórico custe o que custar”, disse.

O segundo grupo, formado por comunidades redpill, que valorizam a imagem de liderança forte, começa a chamar Flávio de “beta”, o oposto do perfil que essas redes admiram, diante de tantos recuos e inconsistências.

O terceiro e mais interessante, segundo Cugler, é formado por pessoas que se aproximaram do bolsonarismo mas estão confusa, não necessariamente porque Flávio recebeu dinheiro do empresário investigado Vorcar, mas porque negou o fato, mudou de versão e foi desmentido. “É uma questão de não ter honrado o nome dele com a base que está seguindo. As pessoas que o apoiam estão ficando sem argumento para debater.”

Big Techs

O pesquisador encerrou com uma crítica ao que chama de infiltração das plataformas digitais no próprio Estado brasileiro. Ele aponta que no Conselhão da Presidência da República, onde tem assento, é possível contar nos dedos os representantes da sociedade civil voltados a direitos digitais, enquanto as Big Techs, como Amazon e Microsoft, têm cadeiras formais.

“Até quando a gente vai aceitar que o inimigo se infiltre no nosso Estado? Porque na hora H, são eles que calibram o algoritmo”, questionou.

O ponto se conecta à plataforma Tela Brasil, lançada pelo governo federal para disponibilizar filmes nacionais gratuitamente, mas cuja infraestrutura de armazenamento, segundo Cugler, está hospedada em data centers da Amazon nos Estados Unidos. “Não basta ter a aplicação se a casa de máquinas onde os vídeos estão armazenados são galpões americanos.”

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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