Xadrez da hipótese mais provável da morte de Marielle, por Luis Nassif

No artigo Xadrez do caso Marielle e da luta pelo poder com Bolsonaro conto como Marielle tornou-se peça essencial no pacto selado entre Bolsonaro e o general Villas Boas, que resultou na ascensão de Braga Netto para Ministro-Chefe da Casa Civil de Bolsonaro.

No evento, a mãe de Marielle Franco descrevendo a filha, sua força, suas convicções. É em um evento preliminar do Fórum Econômico Social. Fala da angústia de não chegar nos mandantes. Todo dia ela amanhece se perguntando até quando ocultarão os mandantes do crime.

Com acréscimos, para deixar mais claro

Peça 1 – o Google de Ronnie Lessa

Quando identificado como o executor de Marielle Franco, houve busca e apreensão na casa de Ronnie Lessa, vizinho de Jair Bolsonaro. Na primeira vistoria em seu notebook, os policiais chegaram ao mote do crime. Havia um histórico de pesquisas no Google buscando políticos que eram contra a intervenção militar no Rio de Janeiro. As buscas foram dar em vários mas, especialmente, em Marielle Franco, a maior crítica.

A chave do mistério estava aí.

A troco de quê milicianos se interessariam por política, a ponto de investigar políticos que eram contra a intervenção?

Peça 2 – o pacto Temer-Forças Armadas

Com a posse de Michel Temer, houve uma aproximação com os militares coordenada por Raul Jungman e Alexandre de Moraes.

Na época, houve um pacto com Forças Armadas, Supremo e tudo visando garantir eleições – com Lula preso. A maneira de introduzir as FFAAs no jogo político foi através da Operação Garantia de Lei e Ordem no Rio de Janeiro, com o comando sendo exercido  pelo general Braga Netto.

Não havia nenhuma justificativa para dois pontos centrais. Primeiro, o álibi da segurança nacional. Por mais que o Rio estivesse imerso em caos, nem de longe se poderia falar em ameaça à segurança nacional. Segundo, o fato do comando ter sido entregue a um general, afrontando a própria Constituição – que determinava claramente que o comando de qualquer GLO deveria ser civil.

Peça 3 – os que eram contra as eleições

Em setembro de 2017, o então presidente do Clube Militar, general da reserva Hamilton Mourão, mostrou-se contra as eleições e defendeu intervenção militar.

Em palestra na Loja Maçônica, Mourão ameaçou: “Ou as instituições solucionam o problema político”, retirando da vida pública políticos envolvidos em corrupção, ou então o Exército terá que impor isso”.

Disse mais: “Então no presente momento, o que que nós vislumbramos, os Poderes terão que buscar a solução. Se não conseguirem, né, chegará a hora que nós teremos que impor uma solução. E essa imposição ela não será fácil, ele trará problemas, podem ter certeza disso aí”.

O então deputado Jair Bolsonaro foi mais enfático. Disse que o modelo de intervenção federal determinada por Michel Temer se presta a “servir esse bando de vagabundos” – ou seja, aos membros do governo. Disse que a decisão foi tomada “dentro de um gabinete” e não consultou as Forças Armadas. “Nosso lado não está satisfeito. Estamos aqui para servir à pátria, não para servir esse bando de vagabundos”

Disse mais: “É uma intervenção política que ele [Temer] está fazendo. Ele, agora, está sentado, tranquilo, deitado. Se der certo –vou torcer para que dê certo–, [mérito] dele. Se der errado, joga no colo das Forças Armadas”.

Ou seja, ambos eram vigorosamente contra a GLO, a intervenção no Rio de Janeiro, por entender que era uma maneira de cooptar as Forças Armadas para garantir o grupo de Temer, em eleições em Lula.

Peça 4 – o caso Riocentro

Conforme amplamente documentado, o caso Riocentro foi uma articulação de uma ultra-direita firmemente entronizada nas Forças Armadas. Há evidências de que o próprio presidente da República, general João Baptista Figueiredo, foi informado um mês e meio antes do evento.

A lógica era óbvia: um atentado terrorista, que seria atribuído à esquerda, e impediria o avanço da redemocratização. O crime foi abafado sucessivamente pelo Superior Tribunal de Justiça, numa sucessão em que a última medida de acobertamento partiu do MInistro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal de Justiça.

Tinha-se, então, um militar egresso dos porões da ditadura, Jair Bolsonaro, admirador de um grupo cujo modo de ação consistia em atentados visando comprometer a ordem democrática.

Àquela altura, Marielle Franco se tornara a maior crítica da intervenção. Sua morte comprometeria agudamente a intervenção militar – como de fato ocorreu. Nos meses seguintes, o interventor general Braga Netto foi desafiado a desvendar o crime. Chegou a anunciar, algumas vezes, que estaria próximo do desfecho.

No artigo Xadrez do caso Marielle e da luta pelo poder com Bolsonaro conto como Marielle tornou-se peça essencial no pacto selado entre Bolsonaro e o general Villas Boas, que resultou na ascensão de Braga Netto para Ministro-Chefe da Casa Civil de Bolsonaro.

Peça 5 – as peças se encaixando

Tem-se, então, as seguintes questões à procura de uma teoria do fato – isto é, uma narrativa que junte todas as peças.

  1. O assassino de Marielle pesquisando vereadores contrários à intervenção no Rio.
  2. O assassino morando vizinho do principal crítico da intervenção, o deputado Jair Bolsonaro. Aliás, saindo de lá para executar a vereadora.
  3. O fato de que a morte de Marielle colocaria em xeque a intervenção militar e os antecedentes do Riocentro – envolvendo os mesmos grupos militares aos quais se filiava Bolsonaro.
  4. As afirmações do então Ministro Raul Jungman, sobre forças influentes que impediam o avanço das investigações.
  5. O pacto entre o general Villas Boas e Bolsonaro, que resultou na ascensão de Braga Netto.

A teoria do fato mais lógica é a seguinte:

  1. Com a desmoralização da política, as Forças Armadas decidiria entrar no jogo.
  2. Havia dois caminhos. Do lado de Mourão e Bolsonaro, o golpe puro e simples. Do lado de Villas Boas, o avanço em etapas. Por isso, selou um acordo com Temer e o Supremo visando garantir as eleições de 2018 com Lula fora do jogo. O acordo foi sedimentado com a intervenção no Rio de Janeiro, comandada por um general ligado a Villas,
  3. Esse acordo foi interpretado como uma cooptação das FFAAs pelo governo Temer, suscitando enorme resistência de Mourão e Bolsonaro.
  4. Coincidência ou não, o atentado que vitimou Marielle tinha por objetivo central o comprometimento da intervenção.
  5. No meio do caminho, no entanto, Bolsonaro vai gradativamente se tornando uma alternativa viável para as eleições.
  6. É celebrado, então, o pacto entre os dois grupos, que torna Braga Netto MInistro-Chefe da Casa Civil.

Na sua despedida do cargo de comandante das Forças Armadas, Villas Boas dá a senha do pacto.

 “Dois mil e dezoito foi um ano rico em acontecimentos desafiadores para as instituições e até mesmo para a identidade nacional. Nele, três personalidades destacaram-se para que o “Rio da História” voltasse ao seu curso normal. O Brasil muito lhes deve. Refiro-me ao próprio presidente Bolsonaro, que fez com que se liberassem novas energias, um forte entusiasmo e um sentimento patriótico há muito tempo adormecido. Ao ministro Sergio Moro, protagonista da cruzada contra a corrupção, e ao general Braga Netto, pela forma exitosa com que conduziu a intervenção federal no Rio de Janeiro”.

10 Comentários

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Marcelo Alacarini

- 2022-05-02 21:02:16

Tudo é muito possível. Essas criaturas rudimentares ainda ocupam o poder com mentalidade de séculos passados. Só a troca de gerações vai trazer novos ares.

Maria

- 2022-05-02 11:59:08

Jair era um cara que foi expulso (reformado) no exército tido como “mau militar”. Não podia nem passar na porta dos quarteis. A partir de 2014 ele foi apresentado na formatura da AMAN (já ao lado de Mourão). Para entrar nesses eventos você tem que passar pela ciência de toda a hierarquia militar. Como um cara que era "mau militar" passa a ser apresentado como um candidato confiável e recebe as bençãos de todos os oficiais para estar na formatura da AMAN? O alto oficialato em 2014 era contemporâneo de jair na AMAN. Gen. heleno, Mourao. Esse General Ramos. Gen Etchegoyen (guardem esse nome), Braga Neto e Cruz e Silva. (entre outros). Todos eles fizeram parte das operações no Haiti e aplicaram GLO lá. General heleno na década de 70 foi ajudante de ordem de um General chamado Silvio Frota (tio-avô do Alexandre frota, aliás) esse mesmo que se revoltou e queria dar golpe em Costa e Silva porque ele falou que o regime iria se abrir lenta a gradualmente. Ele achava que tinha que endurecer...Capitaram? Em 2014, Dilmãe fez a famosa Comissão da Verdade, aquela que conseguiu a condenação do USTRA (que deu aulas para os nossos generais, aliás) e expôs um monte de genreais como responsáveis por mortes e desaparecimentos, além de torturas. Dentre eles estava o Pai ou Tio do General Etchegoyen. Por tal razão Dilma sofre represarias das FA. Acelera para 2016, o império dos vazamentos da lava jato começa a ressoar nos jornais. Cunha dá golpe em Dilma. Temer entra e nomeia Etchegoyen como chefe do GSI (segurança institucional) que manda na ABIN. Temer estava super impopular. Etchegoyen vende pra ele a ideia de que pra ele se viabilizar eleitoralmente ele deveria combater o tráfico pq a violência depois dos jogos olímpicos escalou. O que o Temer faz? Intervenção no Rio. Pouco tempo depois, vaza o famoso áudio do "tem que manter isso ai hein" do temer. Curiosamente, quem está na chefia da segurança do Temer é o.... General Etchegoyen...ele é o responsável por fazer varreduras de grampos...por exemplo. Braga Beto foi nomeado interventor. A Intervenção caiu no gosto popular (pode ver as pesquisas) até a morte da vereadora. Ai, o vinho virou vinagre. Se uma veradora, a gente de cargo público estava insegura, quanto mais uma pessoa comum? (pensou o carioca). Dai para frente teve mais lava-jato e jair montou nesse touro até se eleger, inclusive colocando Moro como ministro, além de prometer apoio às forças policiais no combate ao crime. Então, não. Eu não concordo essa teoria, Nassif. Eu acho que desde 2014, os generais planejaram jair ser presidente. Usaram Moro e boa parte do judiciário para inviabilizar o PT e deram golpe no Temer tb, para ele ficar totalmente inviável eleitoralmente. E eu acho que se o Braga Neto for vice de jair, ele toma golpe. Os militares fazem muitos golpes de marketing como por exemplo “auto-demissão” para organizar uma ala contraria a jair e ai PT (Santo-Cruz) porque era importante ter uma via de fuga caso o plano desse errado. Assim como acho que vamos ter uma grande simulação de tentativa de golpe de jair para os militares e o STF posarem de “salvadores” da nação caso lula seja eleito de forma inequívoca e superlativa.

Afonso Celso de Olivrira

- 2022-05-01 23:50:09

Escolheram o caso Mariele,e o caminho que vai causar menos danos,ao sistema. O da Facada destroem muitas reputações. O único modelo matemático que pode tirar o Lula é confronto direto MoroxLula. Bolsonaro se demonstrou muito independente e esta fora de controle. Tudo se resolve em 10 dias.

RAí Duprat

- 2022-04-29 09:24:31

Parabéns ! Elucidou maravilhosamente minhas dúvidas, as peças se encaixam perfeitamente! Apavorante e tudo se torna muito claro!!

Marcelo.j

- 2022-04-28 11:39:53

OBG POR TER VISITADO O SITE GGN,SE PUDEREM FORTALEÇAM AS REDES DO NASSIFÃO,VLW PESSOAL!

Bruno Cabral

- 2022-04-28 11:07:48

Agora o 6 fqs mais sentido

Chris

- 2022-04-28 08:50:25

Marielle tinha potencial inclusive para ganhar a eleição ao senado e eles sabiam disso…. Foi um somatório de motivos. Eu vou fazer também um comentário off topic sobre a Nuland no Brasil porque julgo necessário: A vinda de Victoria Nuland sempre é nefasta. Eu não descarto a possibilidade dela ter feito uma proposta irrecusável para Bozo: o apoio “técnico e tático “ para que ele vença as eleições em troca dele minar a entrada nos BRICS. Os EUA sabem que Lula jamais abriria mão dos BRICS, que é fundamental para o nosso desenvolvimento. E o estopim para a retirada da Dilma foi justamente a proximidade dos BRICS, a criação dos Banco dos BRICS…. Pensem no xadrez da geopolítica que vocês começam a entender os movimentos por aqui.

Eudes Gouveia da Silva

- 2022-04-27 20:52:59

Por ocasião da morte de Marielle, em março de 2018, Bolsonaro nem de longe era o favorito, muito menos seu filho candidato ao senado, Silveira não era cotado para deputado e Witzel para governador. O PSOL ainda não havia definido sua chapa majoritária com governador e senador. Marielle seria nome forte ao senado. É comum vereadores bem votados se candidatarem 2 anos depois nas eleições para deputado/senador e governador, se não ganharem ficam em evidência para a próxima eleição municipal dentro de outros 2 anos. Ou seja, Marielle seria forte concorrente do 01 ao senado, o que, somado à então bate-boca com o Carluxo, levam a suspeita de volta ao condomínio na Barra. Após seu próprio assassinato e a facada a história é outra.

MIRIAN Leite Barbosa Belchior

- 2022-04-27 20:37:57

Tudo muito assustador, principalmente para o que pode ocorrer nas próximas eleições !!!

Bruno Cabral

- 2022-04-27 20:32:01

Algo errado nao esta certo nessa hipotese. Se o objetivo era impedir a intervenção, com o crime a findando mais cedo, por que o general responsável, Braga Neto, cairia pra cima? Penso ser mais provavel que Marielle estivesse perto de denunciar o envolvimento do clã com as milicias e silencia-la serviu a esse propósito e permitiu que o grupo, neste caso com o interventor envolvido, ascendesse ao poder no rio, como de fato ocorreu, até se lançar candidato a presidência e ganhar

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