4 de junho de 2026

Apartheid ainda existe na Austrália

Sugerido por Almeida
 
Do London Daily Mirror

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Mandela foi-se, mas o apartheid está bem vivo na Austrália

 
Por John Pilger
 
Aborígenes australianos. No fim dos anos 1960 o editor-chefe do London Daily Mirror, Hugh Cudlipp, atribuiu-me mais uma missão. Devia retornar à minha pátria, a Austrália, e “descobrir o que está por trás da sua face radiante”. O Mirror fizera uma campanha incansável contra o apartheid na África do Sul, onde havia relatado o que estava por trás da sua “face radiante”. Como australiano, eu fora bem recebido naquela fortaleza da supremacia branca. “Admiramos vocês aussies “, diziam as pessoas. “Vocês sabem como tratar os seus negros”.
 
Eu ficava ofendido, é claro, mas também sabia que apenas o Oceano Índico separava as atitudes raciais das duas nações coloniais. Do que eu não estava consciente era de como a semelhança provocou tamanho sofrimento entre o povo original do meu próprio país. Quando crescia, meus livros escolares haviam deixado claro, para citar um historiador: “Nós somos civilizados e eles não são”. Recordo como a uns poucos talentosos jogadores da Aboriginal Rugby League foi permitido atingirem sua glória desde que eles nunca mencionassem o seu povo. Eddie Gilbert, o grande jogador aborígene de críquete, o homem que bateu Don Bratman com um resultado zero ( duck ) , foi impedido de jogar outra vez. Isso não era atípico.
 

 
Em 1969 voei para Alice Springs no coração vermelho da Austrália e encontrei-me com Charlie Perkins. Num tempo em que o povo aborígene nem sequer era contado no recenseamento – ao contrário dos carneiros – Charlie era apenas o segundo aborígene a obter um grau universitário. Ele tem feito bom uso desta distinção liderando “campanhas itinerantes” (“freedom rides”) em cidades racialmente segregadas no sertão australiano da Nova Gales do Sul. Ele apanhou a ideia das campanhas itinerantes nas que se verificaram no Sul Profundo (Deep South) dos Estados Unidos.
 
Alugámos um velho Ford, apanhámos a mãe de Charlie, Hetti, uma anciã do povo aranda, e fomos para o que Charlie descreveu como “inferno”. Era Jay Creeki, uma “reserva nativa”, onde centenas de aborígenes eram encurralados em condições que eu só tinha visto na África e na Índia. De uma torneira do lado de fora pingava um líquido castanho; ali não havia instalações sanitárias; a comida, ou “rações”, era fécula e açúcar. As crianças tinham pernas finas como palitos e barrigas inchadas pela desnutrição.
 
O que me impressionou foi o número de mães e avós enlutadas – desoladas pelo roubo de filhos pela polícia e autoridades do “bem-estar” que, durante anos, haviam levado aquelas crianças com pelo mais clara. A política era a “assimilação”. Hoje, isto mudou apenas no nome e na racionalização.
 
Os rapazes acabariam a trabalhar em fazendas dirigidas por brancos, as meninas como serviçais em lares da classe média. Isto era trabalho escravo não declarado. Eles eram conhecidos como a Geração Roubada. Hetti Perkins contou-me que quando Charlie era criança ela teve de mantê-lo atado às suas costas e escondia-o sempre que ouvia o tropel dos cavalos da polícia. “Eles não o levaram”, disse ela, com orgulho.
 
Em 2008, o primeiro-ministro Kevin Rudd pediu desculpas por este crime contra a humanidade. Os aborígenes mais velhos ficaram gratos; acreditaram que o primeiro povo da Austrália – a mais duradoura presença humana sobre a terra – podia finalmente receber a justiça e o reconhecimento que lhe fora negado durante 220 anos.
 
O que poucos deles ouviram foi o PS adicional das desculpas de Rudd. “Quero ser categórico acerca disto”, disse ele. “Não haverá indemnização”. Que a 100 mil pessoas profundamente ofendidas e marcadas pelo ódio racista – resultado de uma forma de movimento eugenista com ligações ao fascismo – não fosse dada qualquer oportunidade para restabelecerem suas vidas era chocante, embora não surpreendente. A maior parte dos governos em Canberra, conservadores ou trabalhistas, tem insinuado que os primeiros australiano são culpáveis pelo seu sofrimento e pobreza.
 
Quando o governo trabalhista na década de 1980 prometeu “plena reparação” e direitos à terra, o poderoso lobby mineiro avançou com o ataque, gastando milhões a fazer campanha de que “os negros tomariam nossas praias e cerca de arame farpado”. O governo capitulou, muito embora a mentira fosse grotesca; o povo aborígene mal chega a três por cento da população australiana.
 
Hoje, crianças aborígenes estão outra vez a ser roubadas das suas famílias. As palavras burocráticas são “removidas” para “protecção da criança”. Em Julho de 2012 havia 13.299 crianças aborígenes em instituições ou entregues a família brancas. Hoje, o roubo destas crianças é mais intenso do que em qualquer momento durante o último século. Entrevistei numerosos especialistas em cuidados infantis que encaram isto como uma segunda geração roubada. “Muitos dos garotos nunca vêem outra vez as suas mães e comunidades”, disse-me Olga Havnen, autora de um relatório para o governo do Território do Norte. “No Território do Norte, foram gastos $80 milhões na vigilância e remoção de crianças e menos de $500 mil no apoio a estas famílias empobrecidas. Muitas vezes não é dado qualquer aviso às famílias e elas não têm ideia para onde os seus filhos foram levados. A razão apresentada é negligência – o que quer dizer pobreza. Isto é destruir a cultura aborígene e é racista. Se o apartheid da África do Sul tivesse feito isto, teria havido um alvoroço”.
 
Na cidade de Wilcannia, Nova Gales do Sul, a esperança de vida dos aborígenes é de 37 anos – mais baixa do que na República Centro-Africana, talvez o país mais pobre da Terra, actualmente devastado pela guerra civil. Outra distinção de Wilcannia é que o governo cubano realiza ali um programa de alfabetização, ensinando jovens aborígenes a ler e escrever. É nisto que os cubanos são famosos – nos países mais pobres do mundo. A Austrália é um dos mais ricos do mundo.
 
Filmei condições semelhantes há 28 anos atrás, quando fiz meu primeiro filme acerca dos indígenas da Austrália, The Secret Country . Vince Forrester, um ancião aborígene que então entrevistei, aparece no meu novo filme, Utopia. . Ele levou-me a uma casa em Mutitjulu onde viviam 32 pessoas, na maior parte crianças, muitos deles a sofrerem otite média, uma doença infecciosa totalmente evitável que prejudica a audição e a fala. “Setenta por cento das crianças nesta casa está parcialmente surda”, disse ele. Voltando-se directamente para a minha câmara, disse: “Australianos, isto é o que nós chamamos um insulto aos direitos humanos”.
 
A maioria dos australianos raramente é confrontada com o segredo mais sujo da sua nação. Em 2009, o respeitado Relator Especial das Nações Unidas, Professor James Anaya, testemunhou condições semelhantes e descreveu as políticas de “intervenção” do governo como racistas. O então ministro para a Saúde Indígena, Tony Abbott, para “fazer algo útil” e parar de ouvir “a brigada da vítima”. Abbott é agora o primeiro-ministro da Austrália.
 
Na Austrália Ocidental são escavados minérios da terra aborígene e despachados para a China com um lucro de mil milhões de dólares por semana. Neste, o estado mais rico e mais próspero, as prisões enchem-se com aborígenes esmagados, incluindo jovens cujas mães postam-se às portas da prisão, suplicando pela sua libertação. Aqui o encarceramento de australianos negros é oito vezes superior ao dos negros sul-africanos durante a última década do apartheid.
 
Quando Nelson Mandela foi enterrado esta semana, a sua luta contra o apartheid foi devidamente celebrada na Austrália, embora a ironia estivesse ausente. O apartheid foi derrotado em grande medida por uma campanha global da qual o regime sul-africano nunca se recuperou. Um opróbrio semelhante raramente deixou marca na Austrália, principalmente porque a população aborígene é tão pequena e porque os governos australianos têm conseguido dividir e cooptar uma liderança dividida com gestos e promessas vagas. Isso pode estar a mudar. Uma resistência está a crescer, apesar de tudo, nas terras centrais aborígenes, especialmente entre os jovens. Ao contrário dos EUA, Canadá e Nova Zelândia, que fizeram tratados com o seu povo original, a Austrália tem apresentado gestos muitas vezes incluídos nas leis. Contudo, no século XXI o mundo exterior começa a prestar atenção. O espectro da África do Sul de Mandela é uma advertência.
 
19/Dezembro/2013
 
O trailer de Utopia, o novo filme de John Pilger, pode ser assistido aqui.
 
 
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/.
 

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18 Comentários
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  1. Mário Latino

    2 de janeiro de 2014 11:50 am

    Há um filme que conta parte

    Há um filme que conta parte dessa vergonhosa história. Não lembro neste momento o nome e trata de 3 garotas que fogem desse programa de separação de suas famílias. No percurso caminham alguns milhares de kms e só duas conseguem voltar para sua aldéia. O reencontro entre elas só acontece décadas depois.

    1. Almeida

      2 de janeiro de 2014 1:48 pm

      Geração Roubada – Rabbit-Proof Fence [2002] – Trailer.

      [video:http://www.youtube.com/watch?v=mtXOkry_jCw%5D

  2. Assis Ribeiro

    2 de janeiro de 2014 1:00 pm

    Muitos reclamam quando forças

    Muitos reclamam quando forças armadas invadem outros países e submetem seus povos,

    Poucos reclamam quando são os seus pares que invadem terras dos primitivos e submetem os seus povos.

  3. Carlos FM

    2 de janeiro de 2014 1:09 pm

    Militão e A. A.

    Senhoras e senhores,  façamos silêncio para ouvir as palavras iluminadas do Dr. Militão, apóstolo da “democracia racial”, e de A. A., o amigo dos africâneres.

    1. Gardenal

      2 de janeiro de 2014 4:00 pm

      Quando a gente percebe que,

      Quando a gente percebe que, atendendo à espectativa da “massa cheirosa”, o FHC colocou “em seu lugar” o Batman, vetando sua candidatura à presidência e, sem meias palavras ou contemporenizações, disse, preto, no banco, digo, preto no branco, que ele não tem qualificação para o cargo, o que é isso?

      1. Ricardo CP

        2 de janeiro de 2014 10:51 pm

        FHC e Globo NUNCA decepcionam

        FHC e Organizaçoes Globo NUNCA decepcionam. 

  4. Fernando Lopes

    2 de janeiro de 2014 1:22 pm

    Apartheid na Austrália

    Existe também outro filme, com trilha sonora de Peter Gabriel. Trata justamente da história (baseada em fatos reais ) de uma mulher que atravessa o deserto australiano para buscar seu filho que havia sido roubado pelos brancos.

    Eu não sabia com detalhes sobre a situação da população aborígene australiana mas sempre desconfiei deste país tão “certinho”, tão “perfeito” , tão “avançado” que nunca se negou a oferecer e enviar tropas para lutar ao lado dos americanos nas várias invasões que o EUA promoveram ao longo do século XX. Os Australianos, aliados dos americanos, e na verdade meros clones desses ( a cultura australiana é mera cópia da americana) , são aliados e capachos dos americanos desde a segunda guerra (e antes disso eram capachos da Inglaterra). 

    E outra particularidade que não escapa a observação: Sempre é um país de colonização inglêsa ( ou norte-européia) que adota leis de segregação!!  índia, África do Sul, Austrália todos remanecentes do Império Britânico.  Este é o foco da cultura anglo saxônica: Preconceito, exclusão e violência !

    1. Almeida

      2 de janeiro de 2014 2:35 pm

      O filme chama-se, no Brasil, Geração Roubada.

      Trata-se da história real de meninas que cruzaram a Austrália, para reencontrarem a família.

       

      Em inglês o título é Rabbit-Proof Fence.

      [video:http://www.youtube.com/watch?v=n7ZOnKcK6lg%5D

      A trilha sonora de Peter Gabriel, The Return.

      [video:http://www.youtube.com/watch?v=WrKbG-r9-zY%5D

    2. Rafael Costa da Silva

      2 de janeiro de 2014 2:39 pm

      Tens razão a Austrália não é

      Tens razão a Austrália não é boazinha, bom é o Brasil e seus 50 mil homicídios por ano. (fora assaltos, sequestros e o trânsito mais violento do mundo).

       

      1. Almeida

        2 de janeiro de 2014 3:06 pm

        Falta pouco.

        Pra você justificar e declarar, que a baixa criminalidade e violência no trânsito na Austrália se devem às políticas, criticadas aqui nesta postagem, de apartheid, eugenia e genocídio promovidas por seus governantes.

        1. Rafael Costa da Silva

          2 de janeiro de 2014 4:19 pm

          Não é nada disso. Nada

          Não é nada disso. Nada justifica a segregação a não ser a pura ignorância. 

          É que eu acho que 50 mil homicídios por ano é o MAIOR CRIME CONTRA OS DIREITOS HUMANOS NO MUNDO atualmente.

          O Apartheid australiano é grave, mas a situação de um país em que um menor tacou fogo numa dentista porque ela só tinha R$ 30,00 na conta é muito pior e ainda por cima esse “menor” será tratado como “reeducando” e será solto como réu primário daqui a pouco tempo.

          1. luis rogerio gomes zanuto

            2 de janeiro de 2014 6:21 pm

            Uma coisa e outra

            Rafael, por favor. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

            Se preferir, não misture alhos com bugalhos.

            Uma desgraça brasileira não impede de eu, ser humano, de perceber uma desgraça australiana.

            Os males devem ser denunciados, sejam aqui ou acolá.

            E tenho dito. rsrs

      2. J Fernando

        2 de janeiro de 2014 3:57 pm

        Escravidão não deu certo

        Quem sabe, seguindo a política australiana de apartheid e genocídio, conseguiremos um Brasil com índices de criminalidade menores, não é mesmo?

        1. unrealx3

          3 de janeiro de 2014 3:16 am

          QUE TAL VOCÊ SER O PRIMEIRO ENTÃO

          Bom, já que tu acha que essa é a saida, por que você não se voluntaria pra ser a primeira baixa desse genocídio? Não esta certo lá, como não esta certo aqui. E por fim, o problema nestas duas nações são exatamente pessoas como vocÊ.

      3. VLO

        2 de janeiro de 2014 5:35 pm

        Não seja tolo. Acabe com esse

        Não seja tolo. Acabe com esse pensamento vira-latas. Ele não diz que o Brasil é melhor que a Austrália, apenas diz que esta não é tão boazinha quanto parece.

      4. Januario Palma

        3 de janeiro de 2014 12:32 am

        E por isso você acha que a

        E por isso você acha que a Austrália tem todo direito de ser? kkkkk indigência mental….

      5. AMBRÓSIO

        6 de maio de 2023 11:20 pm

        Meu caro e você está querendo dizer que os negros brasileiros são realmente os culpados por isso ?
        Creio que no famigerado Governo Bolsonaro, o Brasil realmente mostrou a sua cara, até então dissimulada nos bastidores desse país. Vimos claramente que o nosso país está sim, sendo gerenciado por bandidos de todas as espécies e níveis. Todos brancos.

        Não será reproduzindo a segregação racial e o apartheid sul africano ou australiano que iremos de fato mudar a caótica e corrupta situação do Brasil. Mais sim com mudanças e modernizações, a começar com reformas profundas dos vagabundos, oportunistas e traiçoeiros militares. Cheios de privilégios e boa vida que deveriam estar policiando e protegendo as fronteiras do país, monitorando as nossas águas e o nosso espaço aéreo. Tem que acabar com todas as áreas militares existentes dentro das cidades e colocar essa cambada de vagabundos na amazônia e nos sertões brasileiros.

        Mudanças e reformas também urgentes no judiciário, no código penal e nas leis penais frouxas e feitas para beneficiar as quadrilhas, os marginais e salafrários que gerenciam, roubam e corrompem esse país. Deveria haver um paredão de fuzilamento legalizado para essa gente, mais uma cadeia menos frouxa já mudaria muita coisa.

        Mudanças radicais na nossa polícia idem, unificada, mais científica e investigativa e bem paga. Com punição redobrada para policiais corruptos e envolvidos na bandidagem.

        Pente finíssimo sendo passado nas igrejas evangélicas de fachada, mancomunadas com todo tido de banditismo, que corrompe e engana sobretudo a nossa juventude.

        E é claro, melhoria e qualidade das nossas escolas públicas e melhor remuneração do magistério.

        Aí sim, com certeza começaremos a ver a luz no final do túnel.

  5. Durvaldisko

    2 de janeiro de 2014 8:51 pm

    Lembremos que os militares

    Lembremos que os militares comportaram-se como força de ocupação em território nacional,durante o período da ditadura, tratando o povo  como inimigo.Claro, condescendentes com os colaboracionistas,como é praxe  nessas circunstâncias.

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