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O grande desafio da educação básica no Brasil, nos dias de hoje, é a melhoria da qualidade nas escolas públicas. Nas últimas décadas do século XX, o país viveu um ciclo de forte expansão da oferta de matrículas publicas de Ensino Fundamental e Médio. Mudanças sociais, políticas e demográficas no Brasil definiram tal necessidade. Até então, a escola brasileira era programada como lugar para minorias.
O crescimento acelerado das matrículas incorporou novos desafios de diversas naturezas: expansão de infraestrutura; gestão pedagógica e administrativa de escolas e redes; incorporação de um enorme contingente de alunos e professores de todos os estratos sociais. A educação pública deixou de ser para poucos e transformou-se em educação para todos.
As escolas brasileiras não estavam preparadas para essas mudanças, colocando em crise todo o sistema educacional do país, o resultado foi a queda acelerada na qualidade, além disso, com o aumento do contingente de professores e do pessoal de apoio, achataram se os salários. Com baixos salários a profissão de professor deixou de ser atrativa, os estudantes que ingressavam nas Universidades, gradativamente foram escolhendo outros cursos mais valorizados, não mais desejavam ser professores, nem mesmo os vocacionados. Assim, houve uma diminuição nos cursos de graduação, também, muitos professores já formados desistiram da profissão, o resultado é que hoje faltam professores de várias disciplinas em todo território nacional, e a tendência é piorar.
Além disso, a falta de: infraestrutura, equipamentos tecnológicos adequados, gestão competente, interdisciplinaridade, recuperação da aprendizagem eficiente, professores preparados, capacitação, carga horária elevada – uma vez que não se pode computar apenas as horas trabalhadas em sala de aula, pois, os professores devem preparar as aulas, corrigir trabalhos, avaliações, etc. Esses são apenas alguns fatores extremamente negativos que são entraves na evolução da qualidade do ensino, também, a falta de interesse, indisciplina e violência, são as principais angústias de gestores e professores.
Por outro lado, existe uma cobrança efetiva do Estado para que as escolas atinjam as metas estabelecidas de evolução na qualidade da aprendizagem. Essas metas foram estabelecidas para cada instituição educacional pública do país através do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). O IDEB mede a qualidade da educação das escolas, através de uma prova e do fluxo (evasão, promoção retenção). Além disso, alguns Estados da Federação possuem um sistema de avaliação próprio, como por exemplo, no Estado de São Paulo o IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do Estado de São Paulo), gerando assim, uma cobrança dupla nas escolas.
Nas escolas, os gestores e professores tentam, na medida do possível, buscarem soluções para a melhoria da qualidade incansavelmente, tentando romper os entraves condicionantes. O grande problema é que o sistema educacional brasileiro é muito complexo, heterogêneo e os problemas são muitos. O Estado de São Paulo, por exemplo, o mais rico da federação, através da Secretaria Estadual da Educação, não tem medido esforços para melhorar a qualidade no seu sistema de ensino, no entanto, não é tão simples diante das inúmeras dificuldades estruturais. Qualquer política pública nesse sentido o resultado é a médio ou longo prazo.
No entanto, sabemos que em curto prazo é possível algumas atitudes que produzem resultados satisfatórios. Entre tantas ações pela busca da qualidade de ensino, uma delas, talvez, uma das mais importantes – a parceria escola x família. Pesquisas e experiências empíricas apontam que no momento em que escola e família estabelecem um acordo na forma como irão educar suas crianças e adolescentes, muitos dos conflitos hoje observados em sala de aula são paulatinamente superados.
Para que uma criança tenha uma educação à altura das necessidades contemporâneas, é necessário que a família realmente participe efetivamente da vida escolar de seus filhos. Pais, mães ou responsáveis devem comparecer à escola não apenas para entrega de avaliações ou quando a situação já estiver fora de controle. O comparecimento e o envolvimento devem ser permanentes e, acima de tudo, construtivos, para que a criança e o jovem possam sentir amparados, acolhidos e amados.
Cabe à escola planejar e incentivar essa relação, a escola deve estar aberta para que os pais estejam em completa sintonia em suas atitudes, já que seus objetivos são os mesmos que o da escola, educar. Devem, portanto, compartilhar de um mesmo ideal, pois só assim, estarão formando e educando, melhorando a qualidade, superando conflitos e dificuldades que tanto vêm angustiando professores, pais e os próprios alunos.
Hoje, a relação da escola com a família é de conflito, a família não confia na escola e vice-versa. Os pais culpam a escola e esta culpa a família pelos seus percalços. Aliás, a questão da falta de confiança em instituições públicas não é exclusividade da escola, é geral. É uma característica da pós-modernidade, com a crise da razão ninguém confia mais em nada, isso é típico do nosso tempo. Hoje, tudo é colocado em dúvida, esse é o grande paradigma da sociedade contemporânea.
Sem entender e a falta de uma visão crítica dessa realidade, dificulta as ações que resultem em avanços. Por exemplo, houve significativas mudanças seja na estrutura e funções da família, seja na dinâmica interna da vida familiar. Essas mudanças, porém, têm implicações, também, na provisão de cuidados. Muitos educadores possuem dificuldades para entender e assimilar essas mudanças, sendo mais um entrave.
Entre os fatores que têm resultado no surgimento de novas formas familiares podemos destacar: a liberdade sexual, a redução do número de filhos, o retardo no matrimônio, o atraso da maternidade, o aumento da porcentagem de divórcios e a configuração de várias uniões conjugais. Isso provoca impactos relevantes na estrutura dos núcleos familiares, produzindo significativas mudanças e novas formas de organização familiar e com reflexo na escola.
Juntamente com o modelo de família nuclear que ainda representa o arranjo residencial predominante, observa-se o surgimento das seguintes tendências de organização da família: pluralização das formas familiares, aumento das famílias monoparentais, famílias tentaculares, aumento das famílias com único elemento, surgimento das famílias reconstituídas, união de homossexuais com direito à adoção, a figura feminina como arrima de família ou única responsável pelos cuidados com os filhos porque está separada, etc.
Tudo isso, gera uma crise de valores, são mudanças estruturais significativas que gera crises sociais, institucionais e individuais. O modelo de família que permeia os valores vigentes, ainda é o modelo de família burguesa – casamento, filhos e uma união estável até que a morte os separe.
O modelo de família burguesa instituído há décadas atrás, persiste em permear as relações na contemporaneidade. Esse é um grande erro. Precisamos romper com esses referenciais que não atendem as necessidades atuais. Seja qual for à estruturação familiar que se apresente, cabe a esse núcleo a responsabilidade de educar suas crianças, independente de sua configuração. Neste novo contexto, família ideal seria aquela que estabelece laços afetivos e de responsabilidade entre todos e, sobretudo, que cumpra a suas responsabilidades sociais.
Muitas vezes, a escola tem assumido uma responsabilidade que antes era exclusivamente da família, seja pelas mudanças já citadas no núcleo familiar, baixa escolaridade dos pais, renda, desemprego, drogas, alcoolismo, pais presos, além de outros problemas sociais que dificultam o cumprimento da função familiar. A escola, que também é responsável pelo processo de socialização e educação das crianças deve estar preparada, reinterpretando e assumindo essa nova função.
Na escola, quanto maior o êxito na mobilização das famílias, já que na configuração de sociedade em voga é impossível atingir a totalidade, trazendo-as para dentro dos muros escolares e vice-versa, os resultados podem ser imediatos. Aqueles pais que acompanham efetivamente a educação de suas proles, que são realmente parceiros da escola, seus filhos são aqueles que fazem a diferença, são os alunos das escolas públicas que tem ingressado em cursos superiores nas melhores universidades do país, federais e estaduais, pena que não é regra, é exceção.
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