5 de junho de 2026

Mozart Neves e o ENEM

Do Estadão

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Várias provas por ano seria solução

Modelo semelhante ao dos Estados Unidos poderia ser aplicado, dizem especialistas

10 de novembro de 2010 | 0h 00

Luciana Alvarez – O Estado de S.Paulo

Para não correr o risco de passar por novos problemas em uma próxima edição e acabar caindo em total descrédito, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) poderia ser descentralizado, feito em várias edições por ano – como ocorre nos Estados Unidos – ou ser aplicado em menos lugares, sugerem especialistas em educação.

O professor Mozart Ramos Neves, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defende o Enem como um importante instrumento para melhorar o ensino médio e a forma de ingresso nas faculdades. “Não se pode misturar a dificuldade no processo de logística com a validade da forma de avaliação”, afirmou o educador. “A gente não pode voltar atrás, para o modelo arcaico dos vestibulares.”

SeguSegundo Neves, o caminho para o Enem é a descentralização da prova, ou seja, cada região ou Estado passaria a aplicar a prova de forma independente, podendo ser em datas diferentes. “Não dá para fazer isso hoje, porque faltam questões testadas na Teoria de Resposta ao Item (TRI). Mas, quando tivermos um banco de dados maior, poderemos fazer essa transição”, disse. “Seria uma evolução da prova.”

A TRI garante que todas as provas aplicadas, apesar de serem diferentes, tenham o mesmo nível de dificuldade.

Modelo americano. Eduardo Andrade, professor de economia e educação do instituto de ensino Insper, concorda que a redução do tamanho do Enem diminuiria as dificuldades. “Uma prova com essa dimensão, aplicada em um único dia em todo o País, com uma organização militar, é um processo muito complicado. Fica difícil que nada dê errado”, avalia.

Andrade recomenda que o País tente replicar o modelo americano, que aplica uma prova que serve para seleção em faculdades diversas vezes ao ano. “O aluno se inscreve para prestar na data e instituição que quiser. E todos os exames são comparáveis”, explica. “O cuidado tem de ser na escolha das instituições que teriam autorização para aplicar o Enem. Mas essas várias edições minorariam a complexidade do quadro atual.”

Ex-coordenador do vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o professor Leandro Tessler também acredita na possibilidade de um exame nacional feito sem percalços. “Nos Estados Unidos se faz isso há tempos; são exames aplicados a milhões, todos os anos”, lembra.

Tessler cita a limitação aos locais de aplicação de prova como uma solução. “Quanto maior, mais difícil controlar todo o processo”, afirma. O professor diz ainda que um dos fatores que atrapalham o Brasil é a intervenção do Judiciário. “A Justiça passa a intervir em uma questão acadêmica. Você vê que juízes e ministério não falam a mesma língua. Mas isso faz parte da nossa cultura.”

RELEVÂNCIA

“Lamento, como cidadão e educador, os problemas logísticos do Enem. Mas transformá-lo em seleção para faculdades foi muito importante para induzir uma mudança de enfoque do ensino médio.”
Mozart Neves, membro do Conselho Nacional de Educação 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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