5 de junho de 2026

O avião UTI, os batedores e o respeito à saúde pública

Meu saudoso avô ensinou-me um antigo e verdadeiro ditado popular: “dizes quanto tens que eu te direi quanto vales”. Tal assertiva, trazida para a realidade do setor de saúde em nosso país, assim ficaria: “dizes quanto tens ou o cargo público que ocupas que lhe direi quais são as suas reais chances de sobreviver a um grave acidente ou a uma enfermidade”. Outra verdade absolutamente verdadeira.

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Ou seja, se puderes pagar um bom plano de saúde que inclua resgate aéreo, avião UTI, uma equipe de atenciosos médicos e ainda por cima um pelotão de motociclistas para limpar o trânsito à frente, suas chances de sobrevivência serão muito maiores. Se ocupares um cargo público de alta importância também terás todas as chances possíveis. Uma equipe de bons médicos e entrevistas aos holofotes da mídia, com direito a boletins periódicos sobre seu estado de saúde, não lhe faltarão.


 


Aliás, recentemente, o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, foi realista ao dizer: “o mundo acabaria caso todos passassem a consumir bens e produtos da mesma forma como os ricos”. Ou seja, enquanto milhares morrem diariamente de fome e desnutrição no mundo –vejam o caso de alguns países na África- os mais aquinhoados continuarão consumindo o que bem entenderem, sem dividirem o bolo. É um direito de quem tem. Quem não tem recursos nem para sobreviver que se resigne e morra da melhor forma que puder.


 


É óbvio, nobres autoridades, que nenhum brasileiro pobre quer dispor dos mesmos bens e serviços dos mais ricos. Gostariam, pelo menos, no setor de saúde pública, de um pouco mais de atenção e respeito com qualquer ser humano, seja este rico, celebridade ou não. “A gente só quer ter saúde e ser cidadão” como disse o saudoso Gonzaguinha numa bela canção. Não precisa avião UTI, nem escolta de motociclistas, mas pelo menos que não sejam jogados como abutres num chão de um hospital fétido, impregnado de bactérias por todos os cantos, como se fossem hospitais de campanha (de guerra).


 


Eles só querem respeito no momento em que mais necessitam. Ninguém aguenta mais permanecer horas e horas, em intermináveis filas de hospitais públicos, com a boca arreganhada esperando a morte chegar, por absoluta falta de estrutura hospitalar e de pessoal (médicos e enfermeiros), que por sua vez labutam por indignos e miseráveis salários, num país onde o dinheiro público destina-se muitas vezes ao bolso dos “mais espertos”.


Sugiro, pois, da mesma forma do direito indiscutível das cotas raciais para o ingresso de negros nas universidades -os índios têm o mesmo direito- que os brasileiros miseráveis, que não têm como pagar a exorbitância dos planos privados de saúde, também tenham o direito a hospitais públicos, clínicas e unidades de emergência de primeiro mundo. A implantação progressiva das UPAs, em todo Estado do Rio de Janeiro, como um exemplo positivo, comprova que quando há vontade política é possível atender com a mínima dignidade os menos aquinhoados.


Pobres não querem avião UTI, nem escolta de motociclistas, só querem respeito à vida. País rico é país onde a saúde pública de qualidade é um direito humano.


                                Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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