O Rio de Janeiro está envolto, há longos anos, numa violenta e sangrenta guerra urbana, de caráter permanente, que ameaça perigosamente a vida de policiais e cidadãos ordeiros. Isso é fato real onde os últimos acontecimentos, na área policial, são a prova cabal de tal constatação. A violenta morte de um cadete da PM e a covarde e brutal morte de 07 jovens, entre 16 e 19 anos -nenhum tinha antecedentes criminais- numa chocante chacina, do último final de semana, na Baixada Fluminense, Região Metropolitana do Rio, associada à morte do soldado da PM Diego Bruno Barbosa Henriques (25 anos), abatido com um tiro no rosto, na noite desta quinta-feira (13/09), quando em missão de patrulhamento a pé na Favela da Rocinha, comunidade em fase de processo de pacificação, surpreendido por bandidos ao dobrar uma viela, demonstram inequivocamente o grau de ousadia, crueldade e letalidade da doutrina narcoterrorista que assola o Rio de Janeiro, calcada no pretenso poder da arma de guerra, no comércio de drogas ilícitas, na afronta ao poder público, na implantação do medo e do terror e nas letras musicais de apologia ao tráfico, nos chamados “funks do proibidão”, canções de desafio ao aparelho policial.
O policial militar Diego não havia sequer completado um ano de ingresso na corporação e há um mês tinha concluído o Curso de Formação de Soldado. Tombou mortalmente no cumprimento do dever. É o segundo integrante da Polícia Militar morto em missão de defesa da sociedade no interior da Rocinha -até então o quartel general das finanças do tráfico no Rio- desde o início da ocupação policial da localidade, em novembro de 2011. Além dos dois policiais mais oito assassinatos ali ocorreram, inclusive de um líder comunitário, durante o difícil e complexo processo de pacificação de um ponto estratégico na disputa do comércio de drogas no Rio, até tempos atrás comandado pelo perigoso traficante Nem, hoje trancafiado num presídio de segurança máxima fora do Estado.
Na noite de 23 de julho último, a policial militar Fabiana Aparecida de Souza (30 anos), numa ação de emboscada no interior da Favela Nova Brasília (Complexo do Alemão), lutando bravamente contra um grupo de traficantes fortemente armados, também foi assassinada. Foi o primeiro caso de policial morta em favela com UPP já implantada, o que mais uma vez deixa claro que a guerra do Rio está muito longe de ter fim. Bandidos continuam a levar o terror onde lhes é possível, a exemplo de outras localidades violentas, como a Chatuba, em Mesquita, Chapadão, entre Costa Barros e Pavuna, e Favelas do Rola e Antares, em Santa Cruz. Comunidades que ainda vivem sob o império do terror e do medo, ainda que alvos constantes da dura repressão policial contra a criminalidade violenta ali reinantes.
A polícia do Rio, atuando num país calcado numa benevolente lei penal, que beneficia criminosos, com carência de efetivo maior para suprir todas as demandas de uma ambiência de uma violenta guerra urbana, onde a população civil sofre fortemente seus efeitos, têm procurado cumprir a sua difícil e complexa missão e tenta corrigir os desvios de conduta e o uso desproporcial da força legal. É muito bem vinda, inclusive, a recente notícia de que a Polícia Militar implanta agora o Programa de Controle de Uso da Força e de Armas de Fogo, além do combate à preocupante questão da corrupção policial, cultura fortemente arraigada nas instituições policiais no país.
A resposta aos recentes e desafiadores episódios de violência, perpetrados por perigosos marginais da lei, têm que ser prontamente dada pelo poder legal do estado, porém nos estritos limites da lei. A energia deve ser a necessãria e a na medida necessária. A missão policial se pauta pelos princípios basilares da técnica, do equilíbrio, do uso seletivo da força e no respeito às minorias e a qualquer cidadão, independente de raça, credo, cor, sexo, sexualidade e condiçaõ social ou cultural. O preço da liberdade e da paz social é a eterna vigilância. Por enquanto qualquer um de nós, em meio a violenta guerra urbana, pode ser a próxima vítima.
Milton Corrêa da Costa é tenente coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro
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