5 de junho de 2026

Parques e áreas verdes como commodities ambientais, por Igor Vitorino da Silva

Sob argumentos de ineficiência administrativa, abandono e depredação social, renuncia-se ao uso comum e coletivo desses espaços
Parque Jardim de Alah, tombado, no Rio de Janeiro, foi alvo de tentativa de obras privadas - Foto: Divulgação

Parques e áreas verdes como commodities ambientais: protestos e movimentos sociais no Brasil

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por Igor Vitorino da Silva

O Brasil vive a onda da privatização verde. Em todo o país, prefeitos, governadores e gestores públicos têm sido seduzidos pela ideia da concessão pública de parques e áreas verdes como possibilidade de ganhos fiscais com as potencialidades do turismo, do lazer e de variados usos ambientais. Assim, muitas vezes atropelando o debate público e desqualificando contraposições de ONGs, instituições e funcionários públicos, seguem na transferência dos bens públicos para o controle e uso privados, transformando-os em bases da acumulação rentista e neoextrativista brasileira.  

Sob o discurso da modernização e dos investimentos, da gestão eficiente e aumento da arrecadação, com apelos ao desenvolvimento do ecoturismo e do setor imobiliário, governos e iniciativa privada celebram entusiasmadamente o processo de concessão de parques e áreas verdes públicas. Seguem ignorando os argumentos em defesa do acesso gratuito, da qualidade dos serviços e do controle público.

Da mesma forma, minimizam as vozes que denunciam a perda da identidade local desses espaços, na medida em que as áreas verdes e parques concedidos deixam de ser espaços de preservação, conservação, educação ambiental e lazer para constituírem território de extração de investimento e de capital. As concessionárias da iniciativa privada precisam, antes e acima de tudo, gerar lucros para seus investidores, atropelando, com apoio dos governos e da mídia, o interesse público e a sustentabilidade ambiental.

Sob argumentos de ineficiência administrativa, abandono e depredação social, renuncia-se ao uso comum e coletivo desses espaços, por parte de toda a sociedade, para o uso restrito e seletivo do ganho capitalista. Em São Paulo, a voz de Ana Beatriz Nestlehner protestando contra a concessão do Parque da Água Branca (na Zona Oeste de São Paulo) à iniciativa privada realça o processo político acima descrito: “Não existem estudos consistentes de impactos sociais e econômicos. A população não foi incluída nesse processo de concessão. E um bem público tem que servir à sua função pública, que é garantir os direitos constitucionais da população e o bem-estar da população” (G1 SP, 19/03/2022, 13h10).

Em Salvador, os movimentos de resistência (@seremosresistencia, @movimentosalvaverde) ao processo de concessão de parques e áreas verdes vêm travando uma batalha desigual contra a coalização política entre mercado e governos, tentando sensibilizar parlamentares, cidadãos e sujeitos proeminentes na opinião pública soteropolitana. Nesse sentido, tiveram o apoio de Anitta, Regina Casé e Daniela Mercury, que se posicionaram nas redes sociais. Regina Casé, dessa forma, comentou: “A gente não pode deixar derrubar nenhuma área verde, temos que cuidar de todas as áreas verdes que existem em Salvador” (G1BA, 16/05/2025). Também Daniela Mercury desabafou: “Por que vender áreas de proteção ambiental em plena crise climática? Salvador já está sofrendo com temperaturas muito altas, a gente não pode perder a pouca vegetação que tem.”

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