4 de junho de 2026

Amazônia: desenvolver para quem?, por Augusto Rocha

Falta no debate público discussão sobre como fazer políticas públicas. O que está no centro das discussões é como desfazer políticas públicas.

Amazônia: desenvolver para quem?

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

Há um certo ceticismo sobre o desenvolvimento da Amazônia para muitos dos que aqui vivemos. O desenvolvimento pelo “bem comum”, para melhoria de todos, parece que saiu de moda nas pautas públicas. Há um consenso quase uníssono de um Estado cada vez menor e que, cada um por si, devemos nos preocupar e nos encarregar por tudo de nossas existências. Até o empreendedorismo, que era visto com algo positivo de alguns, foi transformado em uma espécie de subemprego disfarçado, longe das ações inovadoras concebidas na origem do termo.

Por estas e outras, quando se fala em desenvolver a região, pergunto-me: para quem? Quem será o beneficiário real, se o que se prega é um Estado cada vez menor e um serviço público declinante? Não há debate sobre como serão usados os benefícios para o bem-comum, seja do petróleo, dos minérios ou de outra riqueza local. É como se o Liberalismo pensado pela maioria dos Constituintes de 1998 tivesse sido esquecido. Pouco a pouco, o que se faz é reduzir a saúde pública, reduzir a educação e todos os benefícios do Estado são mencionados como errados.

Falta no debate público uma discussão sobre como fazer políticas públicas. O que está no centro das discussões é como desfazer políticas públicas. As perdas de alguns poucos grupos econômicos sobrepõem princípios que deveriam ser inegociáveis. Será uma ilusão a possibilidade de reduzir as deficiências regionais na Amazônia? Qualquer discussão que não tenha um grupo econômico específico como beneficiado é sempre colocada em segundo plano. Portos? Não se fala. Explorar petróleo? Aí, tudo bem. Minérios? Pode ser? Rodovia BR-319 para uma ou duas capitais? Aí, não pode. Há um conjunto de “consensos” que não podem ser questionados.

A arrecadação tributária e a sua alocação? Isso não se discute, mas, por exemplo, o Amazonas segue a arrecadar mais que a média nacional (18% do PIB x 15% do PIB). Isso não se discute, mas as “renúncias” fiscais ou “gastos tributários”, sempre se fala. Os centros econômicos nacionais estão muito convencidos de que a redução das desigualdades regionais prevista na Constituição Federal de 1998 não deve ser realizada. Todas as ações de políticas públicas para reduzir esta desigualdade são sempre questionadas e pouco avaliadas ou debatidas. Se nem o menor desemprego da série histórica, que caiu a 5,8% foi celebrado, há algo de errado em nossos debates públicos nacionais. É preciso ter olho para ver.

Preservar para o futuro que nunca chega parece ser um bom consenso, pois assim ficam reservas para quando for conveniente explorar ou entregar para algum estrangeiro explorar.  Somente começaremos a sair desta condição a partir do momento em que os Amazônidas conduzirem a sua própria gestão. Enquanto seguir a existir uma tutela das oligarquias mais ricas do país ou de um líder estrangeiro, não conseguiremos reverter esta situação. O empoderamento das sociedades locais da Amazônia é viável. Basta refletir ao contrário: o que um Sudestino acharia se os Nortistas ou Nordestinos definissem o que fazer no seu quintal. Pois aí está a raiz do problema e uma visão do início da solução.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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