10 de junho de 2026

Mindfulness ajuda a reduzir dor crônica em mulheres com disfunção na mandíbula

Pesquisa indica que a meditação de atenção plena diminui a sensibilidade à dor e melhora a regulação emocional
Crédito: TV Brasil

Viver com dor crônica é um desafio que ultrapassa o corpo físico — afeta a mente, o humor e o equilíbrio emocional. Essa é a realidade de quem sofre com disfunção temporomandibular (DTM), condição que compromete a articulação responsável por abrir e fechar a boca e os músculos da mastigação. A dor constante na mandíbula, nas têmporas, no rosto ou ao redor do ouvido, somada à dificuldade de mastigar e a dores de cabeça recorrentes, costuma impactar fortemente a qualidade de vida e a saúde mental.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Agora, uma pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP), com financiamento da FAPESP, mostrou que a prática regular de mindfulness — técnica de meditação voltada à atenção plena — pode reduzir a sensibilidade dolorosa e melhorar o controle emocional dessas pessoas. Os resultados foram publicados no Journal of Oral Rehabilitation.

O estudo foi conduzido pela equipe da professora Edilaine Gherardi-Donato, coordenadora do Centro de Mindfulness e Terapias Integrativas da USP, criado em 2016. O objetivo era avaliar se o mindfulness poderia aliviar a dor crônica associada à DTM, considerando tanto fatores neurofisiológicos quanto psicológicos — como estresse, ansiedade e o fenômeno da “catastrofização da dor”, quando o indivíduo se concentra excessivamente no sofrimento e o percebe como algo incontrolável.

“Olhamos casos de DTM dolorosa crônica, ou seja, de pessoas que já vinham convivendo com a dor há bastante tempo e apresentavam o quadro característico de cronicidade. Essas mulheres ficam mais predispostas a sentir dor também em diferentes regiões do corpo, por envolvimento de mecanismos de sensibilização periférica e central, porque o sistema nervoso está constantemente em alerta”, explica Gherardi-Donato.

A DTM é de duas a três vezes mais comum em mulheres do que em homens. Quando persiste por mais de seis meses, pode evoluir para um quadro crônico, afetando o sono, o humor e provocando hiperalgesia — resposta exagerada do corpo a estímulos dolorosos.

Nesses casos, o cérebro entra em estado de alerta constante, o que amplia a percepção da dor e exige uma abordagem multidimensional, segundo a pesquisadora.

O ensaio clínico randomizado acompanhou 53 mulheres entre 18 e 61 anos, todas diagnosticadas com DTM crônica, recrutadas em parceria com a Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp-USP).

Metade das participantes participou de um programa de mindfulness de oito semanas, com encontros presenciais semanais de duas horas e uma imersão de quatro horas na natureza. Elas também receberam áudios com as práticas e foram orientadas a praticar em casa diariamente. O grupo-controle não recebeu nenhuma intervenção durante o mesmo período.

As sessões começaram com exercícios curtos de cinco minutos e evoluíram gradualmente até 30 minutos diários. As práticas incluíram meditações sentadas, deitadas, em movimento e caminhando, além de atividades informais que traziam atenção plena a gestos do dia a dia — como escovar os dentes, comer ou lavar a louça.

“Não dá para exigir que alguém que nunca praticou mindfulness consiga, de imediato, meditar por meia hora. A progressão é fundamental para que a pessoa aprenda o que é estar presente no corpo e nas emoções, sem julgamento. A prática deve ser confortável, fácil, simples e natural”, explica a pesquisadora.

Equilíbrio emocional

Após as oito semanas, as mulheres que participaram do programa apresentaram aumento do limiar de dor à pressão — ou seja, suportavam estímulos maiores antes de sentir dor — e redução dos pontos dolorosos pelo corpo. Também houve diminuição do estresse e da catastrofização da dor.

“Essas mulheres relataram diminuição da dor e estavam menos sensíveis a estímulos dolorosos leves que estavam presentes antes da intervenção e eram incômodos. Houve redução dos pontos de dor orofaciais e de dor à pressão nas regiões faciais e corporais”, relata Gherardi-Donato.

Outro avanço foi o aumento da consciência corporal e da regulação emocional. Segundo a pesquisadora, quem vive com dor crônica tende a ruminar pensamentos e temer que a dor nunca vá embora, o que agrava o estresse e os riscos de ansiedade e depressão.

Embora não tenham sido observadas mudanças significativas nos níveis de ansiedade e depressão, a redução da sensibilidade à dor e do estresse representa, segundo a equipe, um avanço importante no manejo da dor crônica.

SUS

O mindfulness é uma técnica de baixo custo, fácil de aplicar e que já integra a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS, desde 2017 (Portaria nº 849). Mais do que aliviar a dor física, o programa promove autoconhecimento, autocuidado e atenção consciente ao momento presente.

“Não se trata apenas de sentar e meditar, mas de contemplar compassivamente o amplo conjunto das nossas experiências, fazer escolhas mais conscientes, de viver com mais consciência no dia a dia, momento a momento”, conclui a pesquisadora.

*Com informações da Agência Fapesp.

LEIA TAMBÉM:

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados