
Nos arredores de Xangai, uma revolução silenciosa avança na área da saúde. A cidade de Wuxi abriga um dos principais pólos de biotecnologia da China, onde laboratórios e fábricas farmacêuticas prometem transformar a forma como medicamentos são desenvolvidos e produzidos no mundo. A promessa: fazer tudo de maneira mais rápida, barata e eficiente do que em qualquer outro lugar do planeta.
A estratégia chinesa não passa necessariamente por avanços científicos de ponta. Em vez de competir diretamente com os Estados Unidos na criação de novas terapias, o país aposta na velocidade e no baixo custo da produção. Com isso, busca ocupar um espaço crucial no mercado internacional: o fornecimento de medicamentos essenciais a preços mais acessíveis.
De acordo com o Jacob Dreyer, editor do The New York Times, o modelo industrial chinês é sofisticado e pragmático, pois em vez de “reinventar a roda”, o tigre prefere “fazê-la girar mais rápido”.
Um exemplo claro dessa abordagem é a Wuxi AppTec, gigante do setor que oferece soluções integradas para pesquisa, desenvolvimento e produção farmacêutica. A empresa atende tanto companhias chinesas quanto grandes nomes internacionais como Pfizer, AstraZeneca e GlaxoSmithKline — e está por trás de cerca de 25% dos medicamentos consumidos nos EUA, segundo estimativas do setor.
O sucesso do modelo chinês está apoiado em fatores como:
- Testes clínicos com recrutamento de voluntários até três vezes mais rápido que nos EUA;
- Aprovações regulatórias aceleradas;
- Custos operacionais até 30% menores;
- Amplo investimento governamental em infraestrutura e ciência.
Essa combinação permitiu à China acelerar significativamente o desenvolvimento de medicamentos genéricos e até mesmo terapias mais complexas, como vacinas baseadas em mRNA. Um exemplo é a Likang Life Sciences, que desenvolveu uma vacina personalizada contra o câncer por um valor estimado em US$ 21 mil — uma fração do preço cobrado por empresas ocidentais.
Colaboração?
Diante do avanço chinês, o governo dos Estados Unidos começou a se mobilizar. Uma comissão bipartidária do Congresso recomendou investir pelo menos US$ 15 bilhões nos próximos cinco anos em biotecnologia. Paralelamente, projetos de lei como a “Lei de Biossegurança” propõem restringir o uso de serviços de empresas chinesas por órgãos federais americanos.
Apesar das preocupações de segurança e geopolítica, analistas questionam se a exclusão total de medicamentos chineses é viável — especialmente diante dos custos cada vez mais altos da saúde nos EUA. Estimativas apontam que 8 em cada 10 americanos consideram os preços dos medicamentos excessivos.
Para Dreyer, ignorar os avanços chineses pode significar abrir mão de soluções potencialmente mais baratas e acessíveis. “Os americanos realmente vão recusar uma vacina contra o câncer mais barata, se ela for feita na China?”, questiona.
Investimentos locais
A aposta chinesa na biotecnologia tem razões internas urgentes. Com uma população envelhecida — a expectativa é que mais de 400 milhões de pessoas tenham mais de 65 anos até 2035 — e taxas alarmantes de doenças como câncer, diabetes e problemas cardíacos, o país precisa de soluções eficazes e acessíveis.
Em resposta, o governo vem investindo pesado no setor desde a epidemia de SARS em 2003, especialmente após 2015, quando as ciências da vida foram classificadas como setor estratégico no plano “Made in China 2025”. Universidades e centros de pesquisa passaram a formar milhares de cientistas a cada ano — muitos com experiência internacional, especialmente nos Estados Unidos.
Essa nova geração já começa a dar frutos. Apesar de desafios como limitações no sistema de saúde pública, a falta de cobertura ampla do seguro Yibao e a desconfiança sobre padrões de qualidade, a China caminha para se tornar uma potência também na inovação biomédica.
Competição
Além de fortalecer sua economia, o avanço chinês na biotecnologia também serve como instrumento de influência global. Durante a pandemia de Covid-19, empresas chinesas como Sinovac e CanSino exportaram vacinas para dezenas de países. O mesmo deve ocorrer com outros tratamentos e tecnologias médicas.
Para o Ocidente, o dilema está lançado: adotar uma postura protecionista, arriscando-se a encarecer ainda mais os tratamentos, ou buscar formas de cooperação com a China, garantindo acesso a medicamentos eficazes por preços mais baixos?
“A indústria chinesa de biotecnologia está longe de ser perfeita, mas o progresso é inegável. Se seus produtos são bons o suficiente para 1,4 bilhão de chineses, talvez também sejam para o resto do mundo — desde que submetidos a regulações sérias e transparentes”, conclui o editor, que viveu 17 anos na China e visitou o complexo industrial farmacêutico recentemente.
*Com informações do The New York Times.

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twa
3 de setembro de 2025 4:17 pmQuando os transgênicos são de uma empresa Americana ou Europeia e ruim, mas o que vem da China é louvado ?