Colunista entrou na contramão da rua, Francischini na contramão da História

Jornal GGN – Em 22 de janeiro de 2015, antes de terminar o primeiro mês do mandato de Beto Richa, Celso Nascimento, colunista do jornal Gazeta do Povo, publicava artigo em que relatava o apelo feito por um coronel da PM de que deveriam alertar o governador sobre o erro de nomear Francischini. Alertava o coronel que o nominado estava implantando a ‘cultura da violência’ no estado. O colunista ouviu o apelo mas não entendeu o real alcance do alerta profético recebido. Isso até ser vítima desta PM que agia com as unhas de Francischini. Leia o artigo a seguir.

Sugestão de Almeida

Um texto profético:

da Gazeta do Povo

Leia depoimento do colunista da Gazeta do Povo Celso Nascimento sobre as acusações feitas pelo secretário de Segurança Pública do Paraná, Fernando Francischini

Um secretário na contramão, por Celso Nascimento

Dia 15 de janeiro, precisamente às 14h34, toca o meu celular. Do outro lado da linha, o coronel Elizeo Furquim, presidente da Associação de Defesa dos Policiais Militares Ativos e Inativos (Amai), surpreendeu-me com o que disse: “Nascimento: precisamos urgentemente da sua pena! Você, como jornalista, pode nos ajudar: o governador ainda vai se arrepender de ter colocado esse Francischini na secretaria; ele está implantando a ‘cultura da violência’ nas polícias do Paraná. Vai dar porcaria. Precisamos alertar o governador”.

Não tive consciência, naquele momento, de que tinha ouvido uma declaração profética: apenas sete horas depois, a partir das 21h30 do mesmo dia 15, experimentei pessoalmente a violência policial de que falara Furquim. Na escuridão de ruas mal iluminadas e mal sinalizadas do Prado Velho, bairro para mim praticamente desconhecido, cometi uma infração de trânsito: entrei numa contramão! Dei-me conta imediatamente do erro ao ver o fluxo contrário de veículos e, após trafegar poucos metros, já procurava uma guia rebaixada que me permitisse fazer o retorno à mão certa.

Neste momento, uma viatura do BPTran, com sirenes ligadas, encosta no meu carro. Dela saltam dois soldados apontando pistolas para mim e berrando: “Desce do carro!!! Desce do carro!!!” Embora sem entender a razão de tanto autoritarismo, cumpri obedientemente (nem teria como ser diferente, né?) a primeira ordem e recebi outras em seguida: “Mãos na cabeça!!! Encoste no carro!!! E a senhora saia daí e se afaste! Se afaste!!! (Referiam-se à minha mulher, professora Regina Freire Maia, que ocupava o banco do passageiro).”

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Fui, então, submetido a uma vexatória revista corporal. Protestei educadamente. Meus resmungos, já que não conseguia completar uma frase, eram interrompidos com ordens do tipo “cala a boca”, “fique quieto porque podemos prender você por desacato”. Pediram-me os documentos. Prontamente lhes entreguei a Carteira de Habilitação e documentos do carro. Enquanto um dos soldados mantinha a pistola apontada para a minha cabeça, o outro buscava informações pelo rádio acerca da regularidade documental. Não poderia obter outro tipo de respostas: CNH normal, válida até 2018, motorista sem pontuação; veículo em situação regular, IPVA e licenciamento pagos e absolutamente em dia. Estas informações não bastavam: o soldado queria mais – pedia, também pelo rádio, informações sobre antecedentes criminais; passagens policiais, mandados de prisão pendentes etc. Ouviu a voz do interlocutor: “nada consta, nada consta, nada consta”.

Ou seja: naquele momento os policiais poderiam ter-se dado conta de que estavam diante de um cidadão de bem e que não representava qualquer perigo – mesmo porque, com meus quase 70 anos de idade, 1,65m e 57 quilos, certamente não tenho condições sequer físicas para enfrentar jovens policiais fortemente armados e vestindo coletes à prova de bala. Estava diante deles tão somente uma pessoa normal que havia cometido involuntariamente uma infração de trânsito, logo reconhecida e prestes a ser corrigida. Bastava-lhes notificar-me da multa e liberar-me. Isto seria o normal.

Mas para eles, não. Um dos policiais decidiu atravessar a rua e, na calçada oposta, usou o celular para falar com alguém. Não sei com quem nem sobre o quê conversaram durante cerca de cinco minutos. Ao voltar, nova ordem berrada: “Vamos vistoriar esse carro!!!” O PM provavelmente esperava encontrar armas e drogas dentro dele: revirou o porta-malas, levantou tapetes, remexeu objetos no porta-luvas, espiou todos os cantos do interior do carro. E nada!!!

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Enquanto ele se decepcionava com o resultado frustrado de sua vistoria, eu cuidava para não ser vítima de uma “plantação” que lhes permitisse criar um falso flagrante para levar-me preso. Tudo pronto? Feito isto eu já poderia receber a notificação e ser liberado? Não, ledo engano. Fui empurrado para dentro da viatura policial para ser levado na esquina de trás, onde os dois policiais haviam iniciado antes o atendimento de um acidente. Minha mulher fez menção de assumir a direção do nosso carro para seguir a viatura. Foi impedida e obrigada a ir a pé enquanto o PM mais agitado (o outro era o encarregado de manter-me na mira da sua pistola) pegou o meu carro, – aliás, um bem privado que a ninguém é dado utilizar sem autorização.

A promessa era de que lá no novo local preencheriam a notificação. Normalmente, cinco minutos, se tanto, seriam necessários. Não foi o que aconteceu: os policiais retomaram o atendimento ao acidente enquanto me retinham ao lado da viatura deles. Neste momento, arrisquei-me a ligar para o coronel Furquim para contar-lhe o quão profética tinha sido a afirmação que me fizera à tarde. Nada lhe pedi, mesmo porque nem eu queria e nem cometeria o desrespeito de pedir a um líder militar com grandes serviços prestados à Corporação que mandasse suspender a notificação de multa; muito menos que repreendesse os policiais. Mas também por estar estarrecido com o que acontecia, o coronel pediu que eu passasse a ligação a um dos policiais, a quem simplesmente argumentou sobre a desnecessidade do constrangimento a que estavam submetendo um casal que não podia ser confundido com uma dupla de bandidos perigosos. E só. Isto é “carteiraço”? Diga-se de passagem: a sugestão de Furquim aos policiais não foi levada em consideração. Esperamos ainda mais meia hora para que me apresentassem o auto de infração e nos liberassem.

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Pergunto: haveria necessidade para tanta violência, abuso de autoridade e desrespeito? Desobedeci ordens? Dirigi palavrões ou protestos? Pedi privilégios? Eu pretendia, por acaso, tratamento diferente daquele que uma polícia sensata, que se comporta com tranquilidade em situações que não ofereçam quaisquer riscos à sociedade, deve naturalmente dispensar a todos os cidadãos, independentemente de sua condição, ricos ou pobres, instruídos ou não?

Infelizmente, agora sob orientação do suposto secretário da Segurança – aquele mesmo que construiu o mito de que teria prendido sozinho o mega-traficante Abadía – a Polícia Militar parece se voltar para as trevas. Seria ele herdeiro dos tempos cruéis do “prendo e arrebento”? Está nas mãos do governador do estado fazer-se acompanhar de quem escolher.

No domingo, dia 18, saiu a coluna que assino na Gazeta do Povo, com o título “Cultura da violência na PM”. Ela foi resultado do convite que recebi do coronel Elizeo Furquim para que ouvisse opiniões de oficiais que se reuniriam na sede da Amai sexta-feira (16) coincidentemente dia seguinte ao episódio de truculência de que fui vítima. Na coluna, resumi fielmente, jornalisticamente, sem emoções ou motivações pessoais, o que me disseram os oficiais na Amai – e nada faria diferente mesmo que não tivesse sofrido os efeitos da “cultura da violência” que se dissemina nos quarteis insistentemente referida na reunião e que ajudei a denunciar.

Meu texto foi suficiente para que o suposto secretário de Segurança armasse, maliciosamente, boletins de ocorrência e depoimentos tomados às pressas de um dos policiais que agiram no meu caso para espalhar falsidades pelas redes sociais. Eu entrei na contramão da rua. O secretário entrou na contramão da História.

Veja também: Secretário ataca colunista em rede social

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18 comentários

  1.   Alguém, QUALQUER pessoa,

      Alguém, QUALQUER pessoa, irá discordar se eu disser que aí está o tipo de gente com quem se cerca o PSDB?

      Após panelaços e contramãos, suspeito que a direita logo empurra o PT de volta à esquerda. Simplesmente não dá mais para contemporizar – da minha parte, repito o que venho dizendo desde a “festa na Folha” e a omelete na Ana Maria Braga: quando um não quer, o outro espanca.

    • Concordo, e falo isso para a burguesia de

      Higienópolis e Jardins (Sampa): vocês enlouqueceram no rastro dos fhc, serra, aécio, folhas, globos, vejas, e o resultado será que em vez de La Fayette e Mirabeau vocês terão que lidar com Robespierre e Saint-Just. E será bem feito.

      • Lionel

        sempre penso que a célebre frase “que comam brioches” está cada dia mais próxima de ser proferida por essas elites, acho que enloqueceram sim..perderam o bonde da História e não entendem que o País hoje é outro e as consequencias dessas atiudes podem ser impresivíveis..

        • Para quem não está no poder,
          Para quem não está no poder, imprevisível basta!

          As esquerdas é que tem que se.movimentar. Estou chovendo no molhado mas, como disse o AS, não há vácuo no poder.
          A culpa é do PT mesmo!

  2. Artigo 1521, inciso III, do Código Civil de 1916

    O inciso do código civil de 1916 preve a responsabilidade de quem mal escolhe e quem mal controla:

    Art. 1.521. São também responsáveis pela reparação civil:

    …..

    III – o patrão, amo ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou por ocasião dele (art. 1.522);

    isto é chamado Culpa in elegendo e Culpa in vigilando.

    Logo, por ter sido advertido o governador por pessoa competente é possível enquadra-lo neste item.

  3. São mulheres e homens

    São mulheres e homens trabalhadores dela que dão existência à mídia e nós que a consumimos  ao ler e ouvir. Ela pode até ser sustentada por grupos econômicos e pelos governos, mas quem dá existência somos nós. E nós estamos cansados dessa mídia que sustenta com sua omissão e seu apoio governos da Direita que flertam com o fascismo. Chega dessa escalada Fascita da mídia e dos governos de Direita!

  4. Os policiais do Paraná,

    Celso Nascimento também desconhece, mas a ‘cultura da violência’ nas polícias do Paraná foi importada da Policia Paulista. Os policiais do Paraná, não sabe oque é policia cidadã sofre da mesma logica que a policia paulista, com uma formação capenga e terceirizada. O que vem sendo feito no campo da criminalidade, da violência e da segurança pública constitui um exemplo emblemático disso. Nos últimos tempos a policia do Paraná, vem se pauperizado, em consequência da gestão Beto Richa, que fez corte de gasto do setor Publico como educação e segurança publica.

  5. Um covarde

    Esse Francischini é uma das maiores chagas produzidas pela nossa política atual.

    Embora seja filiado ao “Solidariedade” (???), ele é um tucano de DNA.

    Basta ver também seu filho eleito deputado estadual: sem qualquer conteúdo, exceto o ódio visceral ao PT e à Dilma (que inclusive fez referências jocosas aos professores do Paraná meses atrás).

    Esse expediente do Francischini (com todo o mérito hoje referido como “facisctini”) de produzir factóides e ataques pela web já é conhecido, Tarso Genro que o diga.

    Seria uma ótima o blog levantar a “capivara” deste deplorável político:

    http://www.conversaafiada.com.br/pig/2012/06/16/francischini-o-valentao-do-pig-e-sua -gloriosa-passagem-pelo-es/

    http://blogdocarlosmaia.blogspot.com.br/2012/05/deputado-valentao-do-parana-o-tucano.html

    http://blogdotarso.com/2012/05/26deputado-francischini-ameaca-o-blog-do-tarso/

     

     

     

    • O vazador

      Esse sujeito é policial federal e deputado. Consta que era ele, quando parlamentar, que usava influência na PF para vazar à imprensa amiga detalhes “sigilosos” da Lava Jato que comprometiam gente ligada ao governo. Com provas ou sem, tanto fazia.

  6. Policias Militares devem ser

    Policias Militares devem ser extintas. Noto que ao inves de melhorar, estão cada vez mais truculentas. Nem na ditadura era assim. O ponto chave, é a completa reformulação das academias militares.

    • A Extinção da polícia Militar ajuda, mas não resolve!

      A Extinção da polícia Militar ajuda, mas não resolve, a polícia ostensiva independente do nome será preciso ter. A Polícia Militar é boa para qualquer Governador, pois são regidos por códigos diferentes, baseados na disciplina e hieràrquia, não podem fazer greve, devem obdecer ordens. Que governador não quer isso?

      Sobre sua comparação da didatura, acho que você está sendo prescipitado, cenas como essa também aparece na Europa de vez enquando, e não são policiais militares.

      • Concordo com Vossa Senhoria,

        Concordo com Vossa Senhoria, sobre a necessidade de um policiamento ostensivo. Quando cito a extinção das PsMs, quero referir-me a militarização. Esta é que deve ser extinta. Quanto aos tempos da ditadura, refiro-me igualmente a militarização. Uma coisa é certa, não há como conciliar policiamento urbano com militarização. As academias das PMs, são verdadeiras fábricas de loucos. 

  7. Idiotas e maus

    Quando li que o tal Francischini, Secretario de Segurança, anda armado, ja deu para saber que o tipo poderia ser perigoso. Quando li as coisas que dizia, tive certeza. Muito mais que um conservador, é um reaça de marca maior e com um cargo politico em que isso o torno mais perigoso ainda. O resultado foi o que vimos e sob aplausos do governador do Parana. Processo neles.

  8. “E QUEM NOS PROTEGE DA POLÍCIA?”

    Sempre que passo ao lado do prédio da Melhoramentos, aqui na Vila Romana (SP), vejo essas palavras pichadas na parede do prédio. Como tem um farol, quando paro fico lendo essa frase! O que é pior: bandido ou polícia? Um quer sua grana. O outro quer mais …

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