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‘A solução para o trânsito é trabalhar em casa’, diz sociólogo Domenico De Masi
REGIANE TEIXEIRA
O passo lento e a fala mansa de Domenico De Masi, 75, destoam do trânsito e da correria de São Paulo.
O sociólogo italiano segue à risca a teoria do livro que o tornou conhecido: “O Ócio Criativo” (editora Sextante, R$ 29,90). O conceito prega que dá para ter boas ideias durante momentos de lazer.
Ouvir uma música, ir ao cinema ou olhar pela janela podem, ao mesmo tempo, ser uma distração e fazer parte do trabalho.
Na capital paulista pela décima vez, ele ministra neste domingo (27) palestra numa faculdade privada de arquitetura. “Cada cidade do país tem suas características. São Paulo é uma mistura de todas, é a Nova York brasileira.”
Quando questionado sobre os engarrafamentos da cidade, o italiano gesticula com as mãos como se dissesse: ficar parado no carro é algo que realmente o tira do sério.
Durante a entrevista, feita em português com respostas em italiano, Domenico improvisa para se fazer entender. Ri e desenha suas teorias para exemplificar que trabalhar tem que ser sempre uma mistura de aprender e se divertir.
sãopaulo – São Paulo tem uma criatividade diferente de outras cidades?
Domenico De Masi – O Brasil é como a Itália. Aqui existe uma criatividade estética, uma humanística e uma científica. No Brasil, há especialmente a humanística, no cinema, no teatro, na televisão, na poesia e na música.
Tem dicas para quem quiser usar melhor o tempo ocioso no trânsito?
Não. A única solução para o trânsito é o trabalho à distância. Com a internet, é possível trabalhar de casa.
Ficar ligado até em casa nos smartphones e no computador não pode aumentar o tempo de trabalho?
Temos máquinas para conservar o tempo e registrar as coisas. Isso nos ajuda a ter tempo livre, mas não o temos por falta de organização. Quem faz esforço braçal trabalha menos graças à tecnologia.
O senhor trabalha todo dia?
Sim e não, porque faço um trabalho criativo. Dou aula em uma universidade em Roma três vezes por semana. Será que estamos trabalhando nesse momento?
Como curte o tempo livre em SP?
É só chegar e sair na rua. Visito museus, dou palestras, encontro amigos, vou a concertos. Aqui há uma mistura de raças e uma cordialidade que não existe em outros lugares. São Paulo é o mundo.
Pensa em se aposentar um dia?
Eu não trabalho! Sou como o meu amigo Oscar Niemeyer (1907-2012), que trabalhou até os 105 anos, mas porque desenhava, se divertia.
antonio francisco
30 de outubro de 2013 9:18 pmDomenico, domingo é mesmo dia de preguiça. Ou era.
Eu penso que melhor seria o trabalhador morar perto do trabalho, ou não tão longe. Poder ir até lá a pé, maravilha!
Enfim, De Masi pelo menos tem se esforçado bastante na defesa de suas ideias, o que não deixa de ser bom.
A foto está em
http://hwcorp.wordpress.com/2013/03/19/brasil-e-o-melhor-dos-mundos-existentes-diz-sociologo-domenico-de-masi/
http://pensamentosfugazes.blogspot.com.br/2009/10/domenico-de-masi.html
Luiz Eduardo Brandão
30 de outubro de 2013 9:30 pmCruzes…
… que coleção de platitudes!
A besteira que achei mais divertida foi esta: “A única solução para o trânsito é o trabalho à distância. Com a internet, é possível trabalhar de casa.” Fiquei pensando no meu médico tirando minha pressão; na minha dentista fazendo a limpeza das placas, eu deitado confortavelmente na minha cama (adoraria!); do encanador trocando a segunda vez este ano o reparo da descarga; do tapeceiro refazendo o estofo dos sofás, que nossos gatos detonaram; nós mantendo a forma em casa malhando com equipamentos virtuais… Tudo via computador ou smartphone. E isso se se considerar que toda a multidão de trabalhadores do comércio, indústria e serviços tem necessariamente de se deslocar de casa para o local de trabalho, enfrentando horas de transporte, não só por causa dos engarrafamentos a que os carros particulares majoritariamente contribuem, mas também pela péssima organização do transporte público. Sobre esta ele não dá um pio?
Para esse sujeito, parece que o mundo — ou São Paulo, em todo caso — se resume a certos estratos bem específicos das camadas liberais da alta classe média. Aliás, ele devia dar o exemplo dando suas palestras de casa.
jc.pompeu
30 de outubro de 2013 9:50 pmDorival Caymmi that’s live!
por supuesto
manter uma boa distância [segura] do trabalho…
somente no ócio criativo suave nave suave…
sem hora pra sair sem hora pra chegar…
Jorge Moraes
30 de outubro de 2013 9:58 pmO “Domenico” é demais…
e de menos. O Domenico, como tantos outros palestrantes mundo afora (haverá um sindicato dos palestrantes?), é sabido, sabichão.
Como os outros palestrantes, que palestram, palestram e palestram.
E colaboram, colaboram e colaboram para permitir a passagem eterna do bloco do capital, esse sim ocioso e até – em parte reconheço – criativo.
Aos trabalhadores (não por acaso chamados de colaboradores), resta a agonia, a agonia, a agonia.
Domenico, sujeito até simpático, vai caçar sapo, vai!
Tem um brejo bom aqui perto de casa …
Tio Almir da Bahia
31 de outubro de 2013 12:04 amapoi-ado….
Concordo com sua argumentação, mas que os cabras desta espécie são articulados, isto eles são… Veja este similar nacional: o cara é fantástico…Mario Sérgioi Cortela…
http://www.youtube.com/watch?v=nDiBI2RKfr8
Jorge Moraes
31 de outubro de 2013 3:50 amRéplica simpática …
Receber apoio já é bom, de alguém que se entitula “Tio Almir da Bahia”, melhor ainda!
Concordo que os palestrantes – ou alguns deles – são de fato articulados.
O Cortella certamente é um desses.
Mas isso não os torna portadores de verdades irrefutáveis e mesmo de sugestões factíveis. No caso do Domenico, aí a coisa se agrava.
Caçarão sapos, a depender de mim.
Só que não dependem, caro Almir.
Saudações!
Humberto Cavalcanti
30 de outubro de 2013 11:29 pmPicareta
Meu pai dizia: “Ai dos sabidos se não fossem os bestas” . Dar repetido espaço a esse sabido De Masi, aqui, no Roda Viva, nas Vejas da vida e assemelhados… ai, ai, ai.
Estamos bem mal também na blogosfera que se pretende alternativa.
Tio Almir da Bahia
30 de outubro de 2013 11:56 pmcomo diz o velho deitado….
Só se atira pedras em árvore que dá muitos e cobiçados frutos….
Wilson Ferreira
31 de outubro de 2013 1:32 amTrabalho à distância, ensino
Trabalho à distância, ensino à distância… enquanto a esfera pública transforma-se em terra de ninguém, dominada por privatizações que oferecem serviços… à distância. As redes digitais parecem ser ótimas: todos aprecem ser iguais, não há distinções de classes, raças, países… todos são avatares (até com toda a carga mística dessa palavra).
De Masi surfa na esteira de noções como “inteligência coletiva” de Pierre Levy e todo o ideário de uma suposta sociedade pós-industrial onde o software se sobrepõe ao hardware. Acontece que a tecnologia e o hardware tem dono. Por isso, a sociedade se divide em classes e, por isso, possui uma esfera pública de confronto de interesses, da qual De Masi quer todos se retirem para o interior de seus domicílios como consumidores de serviços, e não mais como cidadãos.
Talvez o italiano De Masi devesse ler as teses de outro italiano, Umberto Eco, sobre a possibilidade de uma nova Idade Média de cidadãos cercados por muros, alheios à vida urbana em suas conexões digitais.