10 de junho de 2026

Vidas soterradas, a lúgubre novela se repete, por Álvaro Rodrigues dos Santos

A dor e o sofrimento causados por essas tragédias expressam uma crueldade ainda maior ao entendermos que poderiam ser plenamente evitadas.
Foto André Vieira - TeleSUR

Vidas soterradas, a lúgubre novela se repete

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por Álvaro Rodrigues dos Santos

Como um “carma” já desgraçadamente internalizado pela sociedade brasileira, especialmente por suas autoridades públicas e privadas e por sua mídia, repetem-se anualmente à época das chuvas mais intensas as tragédias familiares com terríveis mortes por soterramentos. A dor e o sofrimento causados por essas tragédias expressam uma crueldade ainda maior ao entendermos que poderiam ser plenamente evitadas.

Há casos de edificações associadas à classe média e à classe rica cometendo erros elementares na ocupação de relevos acidentados, e colhendo por isso conseqüências trágicas, mas predominantemente os desastres mais comuns e fatais estão vinculados a solapamentos de áreas marginais a cursos d’água e deslizamentos em encostas de média a alta declividades ocupadas habitacionalmente pela população pobre de nossas grandes e médias cidades brasileiras.

Para uma mais precisa compreensão do problema e para o correto equacionamento de sua solução, é indispensável considerar separadamente dois aspectos fundamentais, mas bem diversos, dessa questão; o fator técnico e o fator político-social-econômico.

Frente ao ponto de vista estritamente técnico, e aí se ressalta o descompromisso das administrações públicas e privadas envolvidas, que sempre esperta e comodamente se põem a culpar as chuvas, vale afirmar categoricamente que não há uma questão técnica sequer relacionada ao problema que não já tenha sido estudada e perfeitamente equacionada pela Engenharia Geotécnica e pela Geologia de Engenharia brasileiras, com suas soluções resolvidas e disponibilizadas, tanto no âmbito da abordagem preventiva como da corretiva e emergencial. Cartografia Geotécnica (indicando as áreas que não podem ser ocupadas em hipótese alguma e as áreas passíveis de ocupação uma vez obedecido um elenco explicitado de restrições e providências), tipologia de obras de contenção mais adequadas, projetos de ocupação urbana apropriados a áreas topograficamente mais acidentadas, Cartas de Risco, metodologias e tecnologias de Planos de Defesa Civil, e tudo o mais que se refere à questão, são parte do ferramental que o meio técnico brasileiro abundantemente já produziu e disponibilizou à sociedade para o enfrentamento do problema. Nesse aspecto, impõe-se como medida indispensável e imperiosa a responsabilização criminal de administradores públicos relapsos e omissos.

No que concerne às componentes sociais, políticas e econômicas do problema, é essencial ter-se em conta que a população mais pobre, compelida a buscar soluções de moradia compatíveis com seus reduzidos orçamentos, tem sido compulsoriamente obrigada a decidir-se jogando com seis variáveis, isoladas ou concomitantes: grandes distâncias do centro urbano, áreas de risco, áreas insalubres, irregularidade imobiliária, desconforto ambiental, precariedade construtiva. Somem-se a isso loteadores inescrupulosos, total ausência da administração pública, inexistência de infra-estrutura urbana, falta de sistemas de drenagem e contenção e outros tipos de cuidados técnicos, etc. Ficam assim diabolicamente atendidas as condições necessárias e suficientes para a inexorável recorrência de nossas terríveis tragédias geotécnicas.

Ou seja, a questão também remete pesadamente para a necessidade de programas habitacionais mais ousados e resolutivos que consigam oferecer à população de baixa renda moradias próprias na mesma faixa de custos em que ela hoje só encontra nas situações de risco geológico.

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos ([email protected])

•           Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT  – Instituto de Pesquisas Tecnológicas

•           Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da  Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”

•           Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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  1. ze sergio/sorocabanoburaco

    17 de fevereiro de 2022 11:12 pm

    4 dias e mais 250 mortes e não sabemos pela Imprensa qual a aparência do Prefeito de Petrópolis? Nem Vereadores, muito menos Secretários de Urbanização ou Infraestrutura. Outra Santa Maria / RS? Os Culpados serão os mortos? As vítimas? Os Pedreiros que construíram as casas? 92 anos de Cleptocracia.

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