4 de junho de 2026

Os rios e a Concessão da natureza, por Augusto Cesar Rocha

Não há saída para a infraestrutura de transportes da Amazônia que não envolva os rios, rodovias e grande vigilância ambiental.
Marcelo Camargo - Agência Brasil

Os rios e a Concessão da natureza

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

Contrariando o que afirmam os mapas oficiais, não temos exatamente hidrovias na Amazônia. Existem rios que nos mapas são chamados de hidrovias, pois eles estão basicamente como a natureza os fez e constantemente os transforma, por serem rios “jovens”, sendo influenciados pelas Terras Caídas, mudanças de curso e de fluxo, ao sabor das diretrizes naturais. O fenômeno da seca de 2023 está demonstrando como este modelo é insatisfatório para os grandes projetos econômicos do Norte.

O Brasil, como um país primariamente rodoviário, encontrou uma solução para a falta de recursos para o custeio das rodovias nos anos 1999-2004, em especial no Estado de São Paulo, com as concessões das rodovias, pois possuíam grande tráfego e poder econômico para pagamento dos pedágios, chegando, segundo a ABCR, a 67,2% das rodovias concedidas, enquanto o modelo, no mesmo período, chegou a 19% nos demais Estados.

Transferir o custo do Estado para a sociedade, segue sendo uma estratégia ótima para os mais abastados e péssima para os demais, pois se transfere a obrigação do Estado para a sociedade, com alguns poucos lucrando e a maioria pagando de outra forma o que já era pago.

A Política Nacional de Recursos Hídricos virou marco legal na Lei 9.443, em janeiro de 1997. Nela, estão previstas formas de arrecadar, mas obriga, por exemplo que “os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos serão aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados”. Ou seja, há um certo espaço para a Concessão de hidrovias e, neste esforço, a ANTAQ e a Infra S.A. estão fazendo estudos para a concessão da Hidrovia do Madeira, que é um dos elementos mais importantes para a exportação da soja nacional.

Complementarmente, há, aparentemente, uma certa lacuna no Comitê da Bacia Hidrográfica que envolve o sistema do Arco Norte, na conexão de Porto Velho e Manaus até o Oceano Atlântico. A integração Rondônia-Amazonas-Pará forma uma Bacia Interestadual e por ela transitam contêineres de e para a Zona Franca de Manaus, Soja do Centro-oeste para o exterior, combustíveis e muitas outras commodities. Há ainda Zonas de Praticagem (ZP-1 e ZP-2) e todo um complexo de únicas alternativas para o transporte para o interior profundo da Amazônia, tudo isso com uma alocação muito desigual e, ao que parece, distribuição inapropriada de custos e de benefícios.

Dotar esta região de hidrovias poderá passar por investimentos públicos ou a repetição do modelo de Concessões. Fazer isso sem agravar os já pesados Custo-Amazônia, que aumentam o pesado Custo-Brasil, oportunizando novos negócios e sem esmagar ainda mais as populações da região Amazônica é um desafio. Todavia, talvez esteja por aí a solução para os gargalos enfrentados pela seca. Construir uma vantagem ampla para a sociedade e para os negócios, sem destruir o meio ambiente é algo que precisa ser considerado.

Um Plano Amazonas de Logística e Transportes precisará considerar esta construção sistêmica. Não há saída para a infraestrutura de transportes da Amazônia que não envolva os rios, rodovias e grande vigilância ambiental. Dissociar qualquer destes elos levará a uma tragédia econômica e ambiental. Precisaremos, como sociedade, reaprender a dialogar, para construir uma solução adequada ao país e para o planeta, pois tocar no delicado equilíbrio da Amazônia é um grande risco.

As discussões da Concessão da Hidrovia do Madeira não poderão desconsiderar o Tabocal e a integração da Foz do Madeira ao Rio Amazonas, afinal não podemos apenas transferir problemas, pois já se sabe, desde o século passado, que os transportes são sistemas e não partes isoladas de um todo. Em 2023, as hidrovias nacionais já superaram seu recorde histórico de transporte. A maior oportunidade econômica das infraestruturas do Brasil está nas hidrovias.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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