Xadrez de Deltan, o boi de piranha da hipocrisia nacional

Deltan está reduzido à sua verdadeira dimensão: um jovem procurador choramingando pelas cantos do Twitter e clamando por apoio

Movimento 1 – o apogeu da Lava Jato

Primeiro, houve o impacto da dimensão da corrupção instalada na Petrobras. Em cima desse impacto, o efeito manada com claras intenções políticas. Todos os abusos foram permitidos, de invasão de escritórios de advocacia à tortura moral para arrancar delações; narrativas sem evidências, sem provas, sem verossimilhança aceitas e transformadas em armas políticas. E um partidarismo amplo, acelerando as investigações contra o PT e poupando o PSDB.

Tinha-se um Supremo Tribunal Federal (STF) totalmente submisso à onda. Votos dissidentes só eram apresentados quando havia maioria consolidada em favor das investigações. Os dissidentes tentavam salvar sua biografia graças ao voto majoritário, dos que não se importavam nem com a Constituição nem com a imagem de defensores da lei.

Movimento 2 – o ocaso da Lava Jato

A Lava Jato começou a decair quando o STF, corretamente, passou a encaminhar a outros estados processos que não se referiam diretamente à Petrobras. O enorme esforço da Lava Jato Curitiba – e do juiz Sérgio Moro – para assumir todos os processos era uma questão de preservação de poder.

À medida que os casos iniciais iam se encerrando, a estrela da Lava Jato foi se apagando, obrigando-a a avançar, com enorme relutância, sobre partidos aliados.

Quando o STF se deu conta de que delações, inquéritos e processos  eram cartas marcadas, e direcionadas, resolveu diluir o poder da Lava Jato Curitiba permitindo à Polícia Federal negociar delações. Apenas não lhe deu o poder de definir penas. A votação, no plenário, foi de 10 x 1 em favor da PF.

Consequência: espalhou gasolina para outros poderes. O grande problema das delações não era a definição de penas – embora os acordos de leniência fossem obscuros, espalhando suspeitas sobre as relações da força com advogados de delação -, mas a exploração política.

O episódio da delação de Antonio Palocci é a demonstração do erro crasso do STF e conta pontos para a Lava Jato Curitiba, que não aceitou o acordo, dada a fragilidade das denúncias. No Vaza Jato, aliás, uma procuradora séria se espanta com a fragilidade da delação de Pallocci.

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Agora, um delegado  da PF desmonta a delação, mostrando que foi montada, em grande parte, em cima de pesquisas no Google.

Como sempre ocorreu em toda Lava Jato, algumas verdades aparecem, mas só apenas depois que o mal está feito. E o mal foi o uso político da delação na véspera das eleições de 2018.

Aliás, é mais provável que a retificação da PF tenha por objetivo livrar o banco BTG, de André Esteves, do que tratar Lula com isenção.

Movimento 3 – os movimentos erráticos do Supremo

Ontem, o principal agente da Lava Jato no Supremo, Ministro Luiz Edson Fachin, cometeu a primeira e curiosa alta-crítica (com L mesmo, uma modalidade de autocrítica em que se critica o crime que se cometeu como se fosse de responsabilidade de terceiros).

Disse que a inabilitação de Lula para as eleições foi o pior erro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que ele, Fachin, foi voto vencido.

A decisão que tirou Lula do jogo foi a votação para a prisão de 2a instância. O voto decisivo foi da Ministra Rosa Weber, lendo um voto extenso que, por todos os indícios, tinha sido preparado pelo próprio Fachin – que votou também pela prisão em 2a instância com o objetivo precípuo de impedir a saída de Lula da prisão.

Além das declarações de Fachin, há um movimento dos Ministros de maior visibilidade, cada qual se valendo da sua própria dimensão política.

Por exemplo, Gilmar aproxima-se de grupos democráticos de advogados e até do MST (Movimento dos Sem Terra) e, ao mesmo tempo, fortalece o inquérito das fake news e, na outra ponta, alisa Bolsonaro domado, autorizando a volta de Fabrício Queiroz para a casa. Enquanto isto,  Luís Roberto Barroso se torna mediador de debates de youtubers terraplanistas. Cada qual com um desafio à altura da sua dimensão política.

Próximo presidente do STF, Luiz Fux impede que o Conselho Nacional do Ministério Público julgue Deltan Dallagnol, mantendo a tradição horrorosa do Supremo, da imposição de decisões monocráticas.

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O STF cresceu, quando se interpôs à ofensiva do ódio de Bolsonaro. Aparentemente contida a besta, volta às indecisões anteriores.

Movimento 4 – a ofensiva sobre os procuradores

A decisão de Fux interrompeu o que parecia ser a primeira iniciativa do CNMP superando o corporativismo dos julgamentos. Parecia que, pela primeira vez, haveria uma censura pública aos abusos cometidos pela Lava Jato Curitiba, a manipulação das delações, o exibicionismo, os ganhos financeiros com o trabalho, as vinculações políticas.

Mas, ao mesmo tempo, trata-se de uma situação complexa.

Deslumbrado, inexperiente, Dallagnol foi ocupando os espaços que lhe eram oferecidos. Recebeu aval  do Procurador Geral Rodrigo Janot, que nada fez para definir limites, mesmo sabendo do risco de imagem para todo o MPF. Teve o apoio maciço de seus colegas e da Associação Nacional do Ministério Público (ANPR), julgando que tinham sido erigidos a 5o poder da República. Tolos! Contou com o apoio caloroso do Ministro Luís Roberto Barroso, encantado com o marketing juvenil anti-corrupção. Foi cortejado por jornalistas para quem, tê-lo como fonte contava pontos profissionais. Aceitou-se acriticamente o ridículo de seu salvacionismo, suas orações em templos religiosos e, claro, suas palavras altamente remuneradas em templos financeiros. Sem eles, Dallagnol seria apenas um rapaz latino-americano, incrustado em Curitiba, não indo muito além das suas chinelas.

Lembro-me de uma conversa com a economista de um desses bancos, espantada com as exigências de cachê de Dallagnol.

Hoje em dia, Deltan Dallagnol está reduzido à sua verdadeira dimensão: um jovem procurador choramingando pelas cantos do Twitter e clamando por apoio. A cada dia que passa, mais Sérgio Moro vai sendo trazido de volta ao seu próprio tamanho. E se tornam – especialmente Dallagnol – o boi de piranha preferencial para medidas de contenção do poder dos procuradores em geral em um momento em que a Lava Jato acabou.

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Quando procuradores lavajatistas deslumbrados invadiram o Twitter, houve um movimento para o CNMP censurar os ativistas.

Quase todas as sanções se voltaram contra procuradores independentes.

Agora se pretende avançar sobre as prerrogativas dos procuradores, tendo como pressuposto a necessidade imperiosa de usar Dallagno, como exemplo, inclusive a possibilidade de afastamento dele da operação.

Não se leva em conta que, aberta a exceção, os alvos preferenciais serão os procuradores que não se ligam a panelas, aqueles que exercem seu trabalho individual sem se curvar a influências políticas, financeiras ou de grupo e sem faturar financeiramente com seu trabalho.

Esse é o ponto que deveria acordar os que batalham por um MPF independente: a aplicação das penas estará nas mãos “deles”.

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28 comentários

  1. Acho que vc errou, meu caro Nassif. O procurador é que nem os caras do psdb: blindadíssimo. O tal sistema judicial se protege (qdo os envolvidos são de direita…).
    Ninguém toca no feijão deles.
    São inimputáveis. Sequer podem ser investigados. Serem julgados, então, é utopia.
    Triste país para a maioria de seus habitantes.

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    • Exatamente. É bem mais que corporativismo, trata-se de um Estamento. Pode até ter cisões internas, mas o pacto da cavalaria nao pode ser quebrado. Lembrando: o Executivo e o Legislativo têm seu poder legitimado na Soberania popular. No caso do Judiciário, não há fundamento algum para seu poder, a nao ser uma racionalidade sempre suposta, dependente de reconhecimento externo. É exatamente quando falta este componente externo que a aparência de coesão interna se torna mais importante.

      Outra coisa: quem na esquerda teima em se iludir, é bom que se lembre que foi o tal “decaaano” que gravou videozinho em shopping center bradando que a Constituição continha o dispositivo do impeachment, como se nao precisasse de fundamento algum pra derrubar quem nao gosta da Presidencia da Republica.

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      • Lucinei

        Mais uma vez um excelente comentário. Preciso e conciso, indo direto ao âmago da questão, sem perder-se em coisas secundárias que distraem os leitores do que realmente interessa.

        Se possível fosse, apertaria o “sininho”, para receber notificações de seus comentários neste jornal GGN.

        Reforçando seu comentário: que a “esquerda” não se iluda com o “decano”.

        Já vi um vídeo dele interagindo com naturalidade com seus vizinhos “bolsonaristas” numa rua do bairro onde mora.

        O Luís já fez comentários sobre sua atuação judicial, ressaltando um desempenho louvável em geral, exceção feita quando o assunto refere-se ao PT.

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  2. Certa feita, aqui mesmo no GGN comparei Sérgio Moro ao Cabo Bruno https://jornalggn.com.br/justica/vidas-paralelas-sergio-moro-e-cabo-bruno/. Essa comparação ainda me parece pertinente.
    O caso de Deltan Dellagnol não é muito diferente.
    Todavia, creio que o anacoreta evanjegue do MPF se parece mais com Sara Winter. Como ela, Deltan também é extremamente cruel com seus inimigos e acredita que não precisa respeitar os limites da Lei. Mas quando é colhido cometendo um abuso ele chora e apela para a generosidade dos juízes. Ambos são possuídos por uma intolerância manifesta inspirada pela crença de que Deus lhes deu a missão de purificar o mundo.
    Perseguida pela Justiça brasileira Sara Winter pediu asilo na Embaixada dos EUA. Ninguém deve ficar surpreso se Deltan Dellagnol fizer o mesmo se em algum momento correr o risco de ser preso por causa dos atos ilegais que ele cometeu na condução da Lava Jato.
    Os dois já se colocaram acima do STF e atacaram na mídia decisões judiciais contrárias aos seus interesses. Ambos conseguiram o que desejavam. Sara Winter ganhou uma imerecida prisão domiciliar. Deltan Dellagnol ganhou o direito de não ser julgado pelo CNJ.
    A única diferença entre ambos é econômico. Não seria o caso do MPF conceder a Sara Winter um salário pelo “relevante trabalho de destruição do sistema jurídico” que ela tem feito? É injusto que apenas Deltan Dellagnol tenha o privilégio de ser bem remunerado para fazer o que seu duplo feminino tem feito sem qualquer remuneração do órgão federal que acolheu e protege o anacoreta evanjegue.

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  3. É de se perguntar se tudo pelo qual este país e outros têm passado não é fruto de uma guerra híbrida, montada por gente muito poderosa, que age na sombra e que tem entre tantas outras armas um exército de fanáticos ressentidos, alguns com porte de armas, sempre disposto a apoiar na difamação e desmoralização de todos que ousarem desafiar seus interesses. Compram consciências com dinheiro, usam da chantagem, ameaçam a integridade física, assassinam se preciso for, de tal modo que todos acabam se intimidando.

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    • Que bom que vc voltou do seu Estado de coma induzido em plena panemia.
      Colega, lembro que essa sua pergunta já foi respondida, aos incautos, em 2016 ..e aos mais atentos e observadores, antes mesmo de 2013.

      • Romanelii, agradeço pelo carinho e preocupação, mas não foi dirigida a você que, certamente, está muito bem informado e há muito tempo. Pena que, diferentemente de você, a grande maioria não está e, por isso, certamente vivemos tudo isso que não terminará tão cedo. Dias piores virão, você sabe, antes mesmo de 2013.

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        • E a grande maioria sempre cairá na mesma armadilha. Anos passarão, novos Moros, Deltans, Bozos, etc. , qualquer um sempre poderá usar o mesmo modus operandis porque o problema não são os personagens. Assim tivemos a marcha da família nos anos 60 e temos as manifestações contra STF/legislativo… e assim eu tenho pessoas na família que votaram em Collor, se ferraram por causa disso mas, porque nunca realmente entenderam porque um Collor surge, votaram no Bozo. E aqui estamos, sempre culpando pessoas e sem focar no âmago da questão.

  4. Já está provado que a Lava Jato é um movimento de instabilidade economia e política. Basicamente, estamos piores hoje que em 2014, independentemente do coronavírus. É o nosso 1×7 das instituições republicanas.

    Porém, queria ressaltar um outro lado desse movimento, a crise estética que acompanhou a operação.

    Serginho da conje, Delta, Robito, Tâmis e cia (com trocadilhos) limitada desnudaram a ausência da história da arte na formação da classe média. Os diálogos da Vaza Jato são a definição de “bocós”, de “bolachas”, “salames” ou apenas “panacas”.

    Após a prisão do Lula, o Deta e o Serginho costumavam dizer que prenderam os “poderoso”. Os “poderosos” não dormirão mais tranquilos, diziam.

    Além do vocabulário demagógico é ridículo, o corporativismo, a sentença copy and paste, a delação da odebrecht, a delação do palofi e a famosa passada de pano do STF mostraram para todos que Serginho, Delta e cia. são os intocáveis, os tais “poderosos” que diziam combater.

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  5. Nassif: vou pular essa do “não te disse” de todas essas cosicas sobre o GogoboyAvivado (fatos notórios). Mas que eu te disse, disse…

    PS: você achava que os do Çupremu iriam “despertar”? Quando o Cabo e o Sargento (que fazem plantão à porta) foram almoçar, tudo bem, ficaram eté eriçados. Mas quando os milicos voltaram, borram-se todo…

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  6. Boi de piranha ou não, esse elemento já devia ter sido afastado de suas funções, a bem do serviço público, até o fim das investigações. É uma pessoa perniciosa, falsa, entreguista.

  7. NASSIF,o q começou errado vai terminar errado,é lei universal da vida,é só ver q os q apoiaram isto tudo,agora estão virando o alvo,kkkk,quero q pegue é fogo,aturam,fingem q não vêem abusos,assoviam,como no caso dos militares q n podem se meter na política,tá lá na lei/Constituição mas não seguem as leis,q só são para os outros ou quando convém,são todos FORA-DA-LEI,COMPROVADO E CARIMBADO(Deixem ir abaixo,kkkkk)

  8. Não é impressionante de que tudo parta da corrupção? Nem tanto impressionante como previsível, basta rever a história do país. A corrupção é uma senha, a munição usada para ter uma justificativa perante a sociedade e, assim, prosseguir no linchamento. E a sociedade pouco dá importância aos fatos, aos erros grosseiros na narrativa. Basta que a sociedade se identifique com os “heróis” e tudo será justificável para destruir o inimigo, com torcida organizada e tudo. E o judiciário unido de direita sabe disso e se mantém firme na posição da mão invisível que conduz os bonecos no teatro de fantoches para a platéia ensandecida e ignorante. Eles cagam e andam para as leis, mas sabe da importância da sua coesão na manutenção deste poder.
    Sabem que a corrupção é um filão inesgotável, é muito útil manter corruptos presos às suas cordas para puxa-las quando convier. E a esquerda, inviabilizada por um discurso anticorrupção, não sabe lidar com isso, muito menos combater. Enquanto uns se dividem e perdem força, outros, que até se odeiam, nem cogitam em se desunir. Ódio em combate a corrupção: eis a estratégia invencível dos nossos tempos.

  9. O q é a Lava-jato?Um Deus onipotente?Acima de tudo e de todos?Tb fora feito um endeusamento 25 HS por dia,só podia dar nisso!
    Obs: Nassif,tá um saco navegar no ggn,tem mais propaganda q artigos,muito poluído visualmente,isso incomoda demais e não atrai novos leitores !!

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    • Meu caro:
      Peça a alguém ou instale voce mesmo
      um AdBlock. Seus problemas desaparecerão na mesma hora.
      Creia e faça. Simples assim.
      Por nada…

  10. Minha opinião não mudou.
    Deveriam ser todos demitidos, processados, presos e condenados ao fuzilamento.
    Uma lei de 1969 permite pena de morte por fuzilamento.
    É dirigida mais a militares mas pode ser “acomodada” para civis que praticam crimes lesa pátria como estes bandidos fizeram.
    Porém, ainda tenho uma dúvida: que fim vão dar a propina de R$ 2,5 bilhões “doada” pelos EUA.
    Vão embolsar aos poucos enquanto as pessoas esquecem?
    Para mim ficou muito claro que o STF brecou porque queria a parte dele e a quadrilha de curitiba queria embolsar tudo.

  11. Só que não né meus Caros….de onde nada se espera aí é que não vem nada mesmo….O Celso de Melo vai dar “Aquele Voto” no caso da suspeição do Moro, um voto que o Saulo Ramos diria ….voto de merda !

  12. Deve-se delimitar as responsabilidades dos orgaos de justiça MPF, PGR, PF e tribunais federais onde determinam as jurisdições e foros de competencia. A formação das forças tarefas tipo lava jato não seriam criadas em Curitiba pois não justifica atrelar a ” Petrobras” ao “Parana”.
    No caso da Lava jato existe a cumplicidade com o TRF-4, pois alem de interferir na sentença de 1a instancia , não verificou a jurisdição. Este orgão deveria ser o 1º a reconhecer que o foro não era compativel, mas ao contrario convalidou todos como cumplicidade.

  13. 1-Deve-se delimitar as responsabilidades dos orgaos de justiça MPF, PGR, PF e tribunais federais onde determinam as jurisdições e foros de competencia. A formação das forças tarefas tipo lava jato não seriam criadas em Curitiba pois não justifica atrelar a ” Petrobras” ao “Parana”.
    No caso da Lava jato existe a cumplicidade com o TRF-4, pois alem de interferir na sentença de 1a instancia , não verificou a jurisdição. Este orgão deveria ser o 1º a reconhecer que o foro não era compativel, mas ao contrario convalidou todos como cumplicidade.

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