Xadrez do golpe contra 350 mil segurados da Amil, por Luis Nassif

Agora, há movimento da UHG para vender a Amil para a Rede D´Or. E nenhum movimento para resolver o descaso com os 350 mil usuários de planos individuais.

Conteúdo atualizado para direito de resposta.

Peça 1 – o caso do tabaco

Em 1994, um cientista da indústria do tabaco, Jeffrey Wigand,  deu entrevista explosiva ao programa “60 Minutos” da rede americana CBS.

Denunciava os executivos do setor de não apenas saber da capacidade viciante da nicotina, como colocava carcinógenos  para potencializar ainda mais o vício.

A entrevista não foi ao ar. A CBS recuou, ante o poder dos anunciantes. Alegou o risco de ações judiciais.

Na sequência, a Companhia de Tabaco Brown & Williamson iniciou uma campanha de difamação contra Wigand e se valeu de todos os artifícios para proibir o ex-funcionário de prestar depoimentos.

Produtor do programa, que convenceu Wigand a prestar o depoimento, Lowell Bergman passou a trabalhar intensamente para que o caso se tornasse público.

Enquanto a CBS mostrava a face mais deprimente das corporações jornalísticas – por interesses comerciais, a blindagem de uma operação que simplesmente matava pessoas -, em maio de 1996, a jornalista Marie Brenner mostrou a face regeneradora do bom jornalismo. Publicou na Vanity Fair uma longa reportagem narrando os detalhes dessa epopéia.

Sua reportagem inspirou o diretor Michael Mann a filmar um clássico do cinema, “O Informante”, com Wigand sendo vivido por Russel Crowe e Bergmann por Al Pacino.

O caso terminou com uma ação trabalhista na qual a empresa foi condenada a pagar indenizações no valor de US $260 milhões.

Peça 2 – o caso Amil

Conteúdo atualizado para direito de resposta.

Em 2020, o diretor técnico do Departamento de Oncologia da Amil, Raphael Brandão, deu entrevista explosiva ao programa “Fantástico”, da Globo. 

Nela, relatava como dezenas de pessoas podem ter sido levadas à morte por conta da um laboratório credenciado pela Amil para tratamentos oncológicos de planos populares. Havia suspeitas no mercado de que pacientes tratados nele não apresentavam melhoras.

Pacientes poderiam morrer. Mas a reportagem foi suspensa antes de ir ao ar. O Ministério Público Estadual de São Paulo foi alertado. Nada foi feito e a história se perdeu como tantas outras ligadas a grandes anunciantes da mídia.

Em meados de 2019, correu a informação de que havia um laboratório conveniado, para os planos mais simples da Amil, que poderia estar falsificando os exames. O boato corrente era que, no tratamento de câncer, ele estaria simulando a aplicação da quimioterapia.

Em contato com outros médicos, constatou-se uma desconfiança generalizada em relação ao laboratório. Pacientes tratados por ele não apresentavam sinais de melhora.

Brandão achou melhor levar a informação à vice-presidente  jurídica do grupo, Maria Alícia Lima Peralta. Ela pediu para mandar um e-mail, que foi enviado no dia 3 de outubro de 2019.

De: Raphael Brandao Moreira

Enviado: quinta-feira, 3 de outubro de 2019 23:47

Para: Maria Alicia Lima Peralta; Taissa Sotto Mayor

Assunto: Prestador HEMOMED – Oncologia – Compliance – CONFIDENCIAL

Ola Maria e Taissa,

Apenas para formalizar o que já conversamos pessoalmente.

Tenho estado bastante preocupado com uma questão, e gostaria de compartilhar com vocês. No Rio de Janeiro, o Americas tem feito a oncologia (a custo), R$ 15,00 por vida.

Em SP o ACO esta sendo fechado a R$ 16,00. Eu tive acesso ao contrato de um prestador da Amil, cujo o nome é hemomed, e pude constatar que eles oferecem a pouco menos de R$3,00 (três reais). Fazendo uma conta rápida, eles fazem oncologia com um ticket médio de aproximadamente R$300-500,00. Em Santos onde tenho uma maior rigidez na auditoria, um time médico mais enxuto, um número menor de waste, conseguimos alcançar um ticket médio de R$ 1.500,00. No paulistano esse valor sobe para R$ 2.500,00 e no COI sobe para aproximadamente R$ 3.000,00.

Enfim, me chama a atenção tamanha discrepância. Além do fator financeiro, existem rumores de pacientes que não apresentam efeitos colaterais, existe uma suspeita de tal prestador não fornecer o medicamento adequado, ou talvez a dose adequada.

Como oncologista chefe do nosso grupo, não me sinto confortável com tais possibilidades.

Gostaria do auxílio de vocês neste caso.

Muito Obrigado

Depois do e-mail Brandão insistiu em mensagens de WhatsApp devidamente periciadas:

A partir daí sua vida virou de ponta-cabeça. 

As represálias

Apenas 9 dias após o envio do e-mail, começaram a pipocar, no departamento de compliance, denúncias contra Brandão.

 Em pouco tempo, de 12 de outubro a 30 de outubro,  chegaram ao compliance da empresa 42 denúncias contra ele, desde reclamações de maus tratos contra subordinados até a “acusação” de que parou a moto de forma errada no estacionamento.

Uma investigação constatou que todas elas saíram de um mesmo computador.

No dia 16 de dezembro, Brandão pediu desligamento da empresa:

Jcm e Ricardo, 

Gostaria de formalmente comunicar meu desejo em me desligar da empresa. Após os episódios ocorridos, diante da falta de visibilidade para o futuro e pela governança, registro aqui meu pedido de demissão. Estou a disposição para fazer qualquer tipo de transição. Sou bastante grato as oportunidades recebidas na UHG Brazil. 

Estou à disposição, para realizarmos os trâmites necessários entre os dois tipos de contratos que tenho com a empresa. 

Obrigado Raphael Brandão 

Em 11 de dez de 2019, Ricardo Burgos respondeu:

Oi Raphael, 

Boa noite! 

Primeiramente, desculpe-me por não responder o email antes isto pois são mais de 200 emails por dia e por mais que nos esforcemos ao máximo, tem sido impossível manter comunicações atualizadas. Mas conforme conversamos via mensagens, estamos trabalhando na questão estrutural da Organização e com forte foco nesse tema na próxima semana. 

Temos muito respeito pelo profissional e por toda a sua performance ao longo do ano. Aprendi muito em nossas inteirações e o material anexo também traz a excelente performance no Power 10….realmente Parabéns e todo o nosso reconhecimento a você e Equipe!! 

A rescisão só ocorreu em março de 2020, mas, aí, dentro de um clima de guerra. Brandão foi demitido e condenado a uma multa de R $5,2 milhões, por suposta concorrência desleal. Segundo a acusação, ele atendia pacientes em seu consultório, atividade normalmente aceita no mercado de saúde.

No dia 23 de abril de 2020, Moreira encaminhou um e-mail a vários executivos da UHG internacional. Nela, resumia sua história.

A United Health encerrou meus contratos de serviço com o Grupo, em circunstâncias muito injustas, para dizer o mínimo.

Para resumir uma longa história, fui demitido sem receber nenhuma indenização e outros direitos derivados do acordos vigentes e atualmente me ameaçam com uma multa milionária. Honestamente, eu não sei exatamente por que agiram tão mal e injustamente, já que eu estava obtendo excelentes resultados clínicos e financeiros em oncologia.

O que sei muito bem, no entanto, é que a perseguição contra mim começou algumas semanas depois de enviar um e-mail (agosto 2019) ao Dr. Alexandre Rose, CMO AMIL, insistindo em suas preocupações sobre os serviços prestados pela Hemomed Instituto de Oncologia e Hematologia (“HEMOMED”), em relação à discrepância entre os valores médios dos bilhetes atualmente oferecidos para serviços de oncologia e praticados nos hospitais do Grupo, bem como bem como por questões relacionadas à qualidade dos serviços por eles prestados. Conversei com JCM, Daniel Coudry e muitos outros.

Apesar de sua extrema relevância e potencial para evoluir para um escândalo nacional que arrasta o United Health Grupo, esta questão nunca foi respondida e/ou abordada.

Isso me levou a enviar outro e-mail (Anexo 1), em outubro de 2019, para a Sra. Maria Alicia e a Sra. Taissa, Jurídica Global Diretor e Diretor de Qualidade, chamando a atenção para o assunto, junto ao setor de Compliance. mais uma vez e apesar da minha insistência (tive uma reunião pessoal com o Dr. José Carlos Magalhães para expressar as minhas preocupações, pois exemplo), não tive resposta até o dia em que saí do Grupo, em março de 2020”.

Caiu o CEO da empresa no Brasil, Mas nada foi feito em relação ao laboratório denunciado.

A câmara de arbitragem

No dia 27 de julho de 2020 o caso foi para a Câmara de Arbitragem.

O julgamento acabou se concentrando no consultório aberto por Brandão em junho de 2019. Apenas uma vez se entrou no ponto central da denúncia: o laboratório. Durante sessão, aliás, indagado sobre o caso do laboratório, o Chefe Médico da UGB Brasil, o grupo americano que controla a Amil, esquivou-se, balbuciou e disse não ter tomado nenhuma atitude porque não houve corroboração da denúncia por nenhum dos outros canais da empresa. Mas a denúncia havia sido feita pela autoridade máxima da área, o próprio Diretor do Departamento de Oncologia.

Aqui, faz-se uma pausa para explicar a lógica da parceria entre hospitais e médicos renomados.

Brandão era contratado de um hospital da rede, a Esho Empresa de Serviços Hospitalares S/A, controlada pela Amil. Os hospitais contratam os médicos para atender a um público VIP e encaminhá-los para tratamento no hospital contratante.

Quando se vai a um consultório , mesmo que nas instalações do hospital, o pagamento da consulta é feito ao médico. O ganho do hospital consiste no tratamento. Cria-se, aí, um aumento artificial da demanda, porque muitos hospitais impõem metas de internação aos médicos contratados.

Em junho de 2019, Brandão inaugurou um consultório particular para clientes premium. A UHG não se dispunha a investir em um consultório adequado e Brandão montou o seu, levando inclusive Ludmila Haijar, cardiologista conhecida.

Poucos dias depois, o Departamento Jurídico da empresa propôs a mudança do contrato para um contrato híbrido, parte Pessoa Física, parte Pessoa Jurídica. No contrato incluiu uma cláusula de arbitragem para as pendências, cujo alcance Brandão não percebeu na hora as possíveis implicações futuras.

A Câmara acabou condenando Brandão por 4 x 1. O único voto contrário foi de Ricardo Negrão, presidente da Câmara, com uma peça de 42 páginas que subsidiará sua apelação aos tribunais de Brasília.

Os advogados de Brandão mostraram vínculos entre os advogados da Amil e os advogados da Câmara de Arbitragem. Há uma legislação rígida obrigando os julgadores e divulgar informações sobre eventuais conflitos de interesse. Mas o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a sentença esta semana, considerando os vínculos insuficientes para justificar os votos da condenação.

Brandão gastou tudo o que tinha em sua defesa. Passou por dramas familiares pesados, com a esposa tentando o suicídio.

Após o pedido de resposta, a Amil enviou posição sobre as denúncias, mas não explicou o que recai sobre o laboratório suspeito. Enviamos outro pedido de esclarecimentos sobre a diferença de preços entre o laboratório e o mercado. A resposta será publicada assim que chegar. Abaixo, a íntegra da posição da Amil:

A Empresa de Serviços Hospitalares (ESHO) informa que a denúncia feita pelo senhor Raphael Brandão foi devidamente apurada pela área de Compliance da empresa sem que fossem encontradas quaisquer evidências de suas alegações. Essa conclusão tem sido reiteradamente confirmada tanto em arbitragem quanto no Judiciário.

Em relação à rescisão do contrato do senhor Brandão com a ESHO, vale ressaltar que, quando prestador de serviço à companhia, o mesmo foi denunciado por mais de 40 profissionais. Não é verdade que as denúncias vieram de único computador. Há caso, inclusive, relatado à polícia, conforme o veículo pode facilmente verificar. O contrato firmado com ele (e sua empresa) foi rescindido em virtude de graves violações contratuais, que envolveram o desrespeito ao acordo de exclusividade e não concorrência, o desvio de pacientes dos hospitais para sua clínica particular, a utilização de médicos dos hospitais para atendimentos de seus pacientes privados e indicações graves de comportamento inapropriado no trato com funcionários.

A ESHO informa, ainda, que foi o senhor Brandão e sua empresa que iniciaram um processo de arbitragem. Após vasta produção de prova e oitiva de mais de 20 testemunhas arroladas pelas duas partes, os três árbitros – inclusive o indicado por Brandão – rejeitaram todas as suas alegações e decidiram que ele é quem havia dado causa ao descumprimento do contrato. Como não cabe recurso no processo arbitral, ele tentou na Justiça invalidar a arbitragem, sem sucesso. O senhor Brandão e sua empresa, que já foram representados por 9 advogados diferentes desde que instauraram o processo arbitral, perderam todas as ações ajuizadas até hoje sobre este tema. O Judiciário vem reconhecendo que o procedimento arbitral foi integralmente conduzido de forma regular.

Por fim, a reportagem se equivoca também sobre a carteira de planos individuais da Amil e sobre a atuação do Unitedhealth Group. A Amil tem se dedicado a atender da melhor maneira seus planos individuais, assim como todas as demais modalidades. A Amil e o UnitedHealth Group trabalham todos os dias para garantir que as pessoas tenham acesso a cuidados de saúde de alta qualidade.

Peça 3 – o jogo pesado da UHG

Hoje em dia, o setor de saúde é um jogo tão pesado quanto o de armas e como já foi o de tabaco. Envolve dossiês, grampos, espionagem, compra de autoridades.

As disfuncionalidades do modelo privado brasileiro e americano serão analisadas em outro artigo.

A própria UHG tem um histórico sombrio nos Estados Unidos

Tem sede em Minnesota, é a sétima maior empresa do mundo em receita e a maior empresa de assistência médica, em receita. Também é a maior seguradora em prêmios líquidos. Em 2022, foi classificada em 11o lugar no Fortune Global 500. Sua capitalização de mercado é de US $400,7 bilhões.

Em apenas um mês, o Departamento de Justiça dos EUA processou a UHG duas vezes, por fraudes contra o Medicare, o programa de saúde público, no valor de US$ 1 bilhão.

A denúncia foi feita por Benjamin Poelhling, ex-diretor financeiro do grupo. Em entrevista ao The New York Times, em 19 de maio de 2017, ele revelou a maneira como foram montados os golpes. O sistema registrava procedimentos mais graves adotados, para permitir às seguradoras saquear o Medicare Advantage.

Em 2011, ele entrou com uma ação contra a UHG e outras 14 empresas. Mas a ação só foi aceita  em 2021.

No início do ano, o DoJ (Departamento de Justiça) entrou em outra denúncia contra a UHG. Desta vez feita por consultor de ajuste de risco. A empresa não ficou por aí. Também processou os Centro de Serviços Medicare e Medicaid, para anular regra de 2014, que exige que as seguradoras confirmem que os diagnósticos sobre os pacientes são congruentes com os prontuários das pessoas. A regra impõe penalidades por exageros nos diagnósticos dos pacientes.

O Medicare atende a mais de 50 milhões de americanos idosos ou deficientes. No final da década de 1990, o Congresso decidiu privatizar parte do Medicare, entre a seguradoras com o nome de Medicare Advantage. Nesse modelo, os médicos são reembolsados diretamente pelo governo, de acordo com os procedimentos adotados.

Para impedir cobranças indevidas, o governo paga uma taxa anual por cada segurado, em vez de pagar por procedimento. De acordo com as condições de saúde, a taxa é mais alta, para não desestimular as seguradoras de se fixarem apenas em clientes saudáveis.

Criou-se, então, um sistema de pontuação de risco, que passou a ser sistematicamente burlado por seguradoras como a UHC.

Um grupo de pesquisas, o Center For Public Integrity, analisou os dados disponíveis do Medicare Advantage em 2014. Constatou que as seguradoras obtiveram cerca de US$ 70 milhões em pagamentos indevidos entre 2008 a 2013.

A pesquisa mostrou que a em 2007 agência tentou recuperar US$ 128 milhões em pagamentos indevidos de cinco seguradoras mas, “sob intensa pressão do setor de seguros de saúde”, liquidou apenas US$ 3,4 milhões em 2012, comprovando o formidável poder de corrupção desse setor nos Estados Unidos.

Em 2014, outro executivo revelou que a UHG burlava a legislação para apresentar resultados falsos aos acionistas.

Não apenas isso.

No dia 24 de fevereiro de 2022, o Departamento de Justiça decidiu boquear a aquisição da Change Healtcare pela UHG. Segundo os procuradores gerais de Minnesota e Nova York, a transação prejudicaria a concorrência nos mercados comerciais de seguros de saúde, bem como no mercado usado por seguradoras de saúde para processar reivindicações de seguros de saúde e reduzir os custos.

No mesmo período em que adquiriu a Amil, a UHG tentou adquirir o grupo de saúde Espirito Santo Saúde, em Portugal.

Sua entrada no Brasil também foi nebulosa.

No depoimento número 7 do doleiro Lúcio Funaro à Procuradoria Geral da República (PGR), vem a informação de que a Amil teria feito um pagamento ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para aprovação da Medida Provisória 656/2014, governo Michel Temer, permitindo a participação majoritária de capital estrangeiro em hospitais, laboratórios médicos e planos de saúde. 

Na delação, é mencionado o nome do banco BTG Pactual e da Rede D´Or.

“Que a 656/2014, sobre a liberação de empresas estrangeiras para participar de pla de saúde e hospitais, beneficiou a rede Copa D’Or, que é do grupo BTG, 10 Ministério Público Federal Procuradoria-Geral da República grupo Amil, de propriedade do Edson Bueno, também amigo de CUNHA; (página 10)”;

Falecido recentemente, Bueno era amigo pessoal de Michel Temer, o presidente que assinou a MP. Seu filho, Pedro, é o controlador da DASA, de análises clínicas. Como não se tem notícia da continuidade do caso, provavelmente a delação não apresentou provas concretas.

Abriu-se espaço, então, para que a Amil fosse adquirida pela empresa americana UHG por 11 bilhões de reais.

Peça 4 – o golpe da UHG

O drama de 330 mil segurados da Amil começou quando a UHG decidiu se desfazer de sua carteira de planos individuais.

A operação foi conduzida diretamente por Richard Mattera, vice-presidente da matriz.

Montou-se uma operação pela qual a Amil transferiria os 330 mil contratos individuais para a operadora Assistência Personalizada à Saúde (APS), sua controlada.

No dia 1o de dezembro de 2021 foi assinado um Contrato de Compra e Venda entre a Amil, transferindo a APS para a Fiord Capital Ltda, a Seferin & Coelho Consultoria Empresarial Ltd e Henning Martin Von Koss, dependendo de algumas pré-condições. A Fiord ficaria com 45%, a Seferin & Coelho com outros 45% e Koss com os 10% restantes.

Em 2 de fevereiro de 2002, houve o Primeiro Fechamento de contrato.

Ao assumir a carteira, a nova empresa descredenciou a maioria dos hospitais . Criou uma questão grave para os segurados. Um deles foi colocado para fora do Hospital Samaritano, depois de estar instalado em um aparelho. Outro teve interrompido o tratamento de câncer no pulmão.

O capital social da Fiord Capital Ltda é de R$ 50 mil, caracterizando nitidamente a fraude. O sócio controlador da empresa é Nikola Lukic.

Lukic trabalhava em uma empresa de reestruturação financeira, a Starboard. Saiu no final do ano passado para criar seu próprio negócios.

Na Starboard, foi apontou conflito de interesses de Lucik na recuperação judicial da Ricardo Eletro, em operação que pode ter causado prejuízo de R$ 250 milhões. Lukic e a Starboard foram acusados de fraude pela Siri Comércio e Serviços Ltda, proprietária de 41,5% das cotas da Titânio XV, um dos fundos em disputa com a Ricardo Eletro. A resposta de Lucik é que as denúncias visavam “criar caso para obter vantagem indevida”.

Em 8 de fevereiro de 2022, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) decidiu suspender a operação. O presidente Paulo Rebello só decidiu agir depois que o escândalo veio a público, e após notificação do Procon de São Paulo.

No dia 25 de março de 2022, Brandão oficiou o Ministério Público Estadual. Pessoas podem estar morrendo devido ao tratamento insuficiente. Mas nada foi feito.

Peça 5 – o descarte dos planos individuais

A Amil recebeu de volta sua carteira, mas não recompôs sua rede de laboratórios e hospitais. Os planos empresariais e de maior valor continuaram contando com os melhores hospitais e laboratórios. Aos planos individuais oferecem laboratórios não confiáveis..

A estratégia da maioria dos planos foi jogar ao mar seus segurados de menor renda. Nada se dabe sobre o convênio da Amil com o laboratório denunciado. No dia 22 de abril de 2020, Brandão registrou uma denuncia ao Ministério Público Estadual, mas não se sabe de nenhuma medida efetiva.

No dia 10 de dezembro passado, o Estadão denunciou o mesmo procedimento da parte da SulAmérica: “SulAmérica é alvo de reclamações por descredenciamento de serviços“.

É o mesmo jogo macabro da Amil:

“Clientes argumentam que, com as mudanças, tiveram de interromper ou atrasar acompanhamentos médicos e, em alguns casos, estão tendo de se deslocar para outras cidades para ter acesso a determinados procedimentos.”

Enquanto isto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANS) e o CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) se engalfinham em torno desse jogo de lobbies.

O CADE inexplicavelmente sancionou a compra da SulAmerica pela Rede D´Or, o que obviamente criaria um gigante com poder de mercado. O presidente da ANS aprovou a fusão. Mas foi interrompida pela entrada de um novo diretor que decidiu analisar melhor. Agora, há uma disputa surda em torno da nova direção da ANS, com divulgação de dossiês suspeitos.

Há movimento da UHG para vender a Amil para a Rede D´Or. E nenhum movimento para resolver o caso do laboratório sob suspeita nem sobre o destino de 350 mil segurados de planos individuais da Amil.

Resposta da Amil

Após o pedido de resposta, a Amil enviou posição sobre as denúncias, mas não explicou o que recai sobre o laboratório suspeito. Enviamos outro pedido de esclarecimentos sobre a diferença de preços entre o laboratório e o mercado. A resposta será publicada assim que chegar. Abaixo, a íntegra da posição da Amil:

A Empresa de Serviços Hospitalares (ESHO) informa que a denúncia feita pelo senhor Raphael Brandão foi devidamente apurada pela área de Compliance da empresa sem que fossem encontradas quaisquer evidências de suas alegações. Essa conclusão tem sido reiteradamente confirmada tanto em arbitragem quanto no Judiciário.

Em relação à rescisão do contrato do senhor Brandão com a ESHO, vale ressaltar que, quando prestador de serviço à companhia, o mesmo foi denunciado por mais de 40 profissionais. Não é verdade que as denúncias vieram de único computador. Há caso, inclusive, relatado à polícia, conforme o veículo pode facilmente verificar. O contrato firmado com ele (e sua empresa) foi rescindido em virtude de graves violações contratuais, que envolveram o desrespeito ao acordo de exclusividade e não concorrência, o desvio de pacientes dos hospitais para sua clínica particular, a utilização de médicos dos hospitais para atendimentos de seus pacientes privados e indicações graves de comportamento inapropriado no trato com funcionários.

A ESHO informa, ainda, que foi o senhor Brandão e sua empresa que iniciaram um processo de arbitragem. Após vasta produção de prova e oitiva de mais de 20 testemunhas arroladas pelas duas partes, os três árbitros – inclusive o indicado por Brandão – rejeitaram todas as suas alegações e decidiram que ele é quem havia dado causa ao descumprimento do contrato. Como não cabe recurso no processo arbitral, ele tentou na Justiça invalidar a arbitragem, sem sucesso. O senhor Brandão e sua empresa, que já foram representados por 9 advogados diferentes desde que instauraram o processo arbitral, perderam todas as ações ajuizadas até hoje sobre este tema. O Judiciário vem reconhecendo que o procedimento arbitral foi integralmente conduzido de forma regular.

Por fim, a reportagem se equivoca também sobre a carteira de planos individuais da Amil e sobre a atuação do Unitedhealth Group. A Amil tem se dedicado a atender da melhor maneira seus planos individuais, assim como todas as demais modalidades. A Amil e o UnitedHealth Group trabalham todos os dias para garantir que as pessoas tenham acesso a cuidados de saúde de alta qualidade.

Resposta

  1. Recebemos inúmeros relatos de clientes Amil que só conseguem acesso a bons hospitais mediante liminares. E não conseguem estender esse direito a seus beneficiários.
  2. A Amil não explicou a discrepância entre os preços cobrados pela Hemomed e os preços de mercado, para tratamento oncológico. Não nos foi apresentados os resultados do compliance da empresa.
  3. Não é fato de que “essa conclusão (sobre Hemomed) tem sido reiteradamente confirmada tanto em arbitragem quanto no Judiciário”. A arbitragem versou exclusivamente sobre o direito ou não do médico fazer atendimento particular em sua clínica.
Luis Nassif

3 Comentários

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  1. A arte de se criar dinheiro do nada consiste em, principalmente, iludir a confiança do próximo. O ilusionista age normalmente em grupo quando se trata de angariar grandes quantias, e uma vez conquistada a confiança de suas vítimas, vai crescendo exponencialmente enquanto as alimenta com as sobras do que tirou delas mesmas. Vejamos que as grandes corporações de saúde são donas de grandes corporações alimentícias que, curiosamente, foram adquiridas pelas empresas de tabaco. Aquelas, que para a nossa alegria e de bom grado, resolveram por a mão da consciência e perceber que estavam nos matando lentamente. Que lindo! Descobriram que nos manter viciados em comida ruim e doentes por má alimentação é muito mais lucrativo que nos viciar em cigarro. Agora, que acabamos de aprovar a legitimação dos lobbies, e que os nossos magistrados têm palestras, viagens, conferências e outras vantagens patrocinadas por esses beneméritos bilionários dos setores da saúde, da indústria alimentícia, das finanças, entre outros, teremos que assistir passivamente o desenrolar da tragédia que se avizinha. Se o setor público resolver punir os planos de saúde, vai ter que arcar com os custos de cuidar da população tendo que criar uma estrutura gigantesca de atendimento e pagar a peso de ouro profissionais desinteressados, em sua maioria, ou estressados (alguns idealistas), correndo o sempre risco de fraudes infinitas, falta de atendimento e pressão do setor para a privatização. Se o setor público optar pelo “laissez-faire”, ou o “deixa rolar”, a gigante multinacional vai crescer mais, oferecer cada vez menos, empobrecer até os nossos médicos mais ambiciosos e, naturalmente, pressionar o setor público para o atendimento da população cada vez mais carente. Tivéssemos médicos cubanos, atendimento público integral e monitoramento eficaz das verbas públicas para a saúde, num governo socialista, claro, talvez alcançássemos algum sucesso para então, numa troca de governo perder tudo isso para a iniciativa privada a preço de banana.

  2. Olá Nassif. Sou epidemiologista e oncologista no Rio de Janeiro. Não tenho informações confidenciais, mas conheço como funcionam as coisas nessas redes. Tenho algumas sugestões, como trocar o termo laboratório por clínica nas referências à hemomed. Também é preciso esclarecer que salvo raras exceções, os valores de consultas e procedimentos realizados em hospitais privados não são pagos diretamente aos médicos. Estes são atualmente terceirizados que recebem “salários” sem direitos trabalhistas, de acordo com a reforma trabalhista do governo Temer. Parabéns pela coragem e fico a disposição para ajudar. Um abraço.

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