23 de junho de 2026

O ovo da serpente midiática e a vingança do povo brasileiro

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

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Diz Rudolph Von Hering, que “… o futuro dos poucos que têm coragem de lutar pela lei se tornará um verdadeiro martírio. O forte sentimento que eles têm de direito legal, que não deixa com que fujam do campo de batalha, torna-se uma maldição para eles. Deixados por todos que deveriam ter sido os seus aliados naturais, lutam sozinhos contra a falta de lei que tem aumentado em conseqüência da covardia universal. E, se após todos os seus sacrifícios, eles conseguem permanecer fiéis a si mesmos, eles ganham, em vez de gratidão, zombaria e desprezo.” (A Luta pelo Direito, Hunter Books, São Paulo, 2012, p. 111)

Nas afirmações do jurista alemão do século XIX ecoam as palavras de Cesare Beccaria, aristocrata milanês que no século XVIII formulou o principal teorema do moderno Direito Penal “Que a pena não seja um ato de violência de um ou de muitos contra um membro da sociedade. Ela deve ser pública, imediata e necessária, a menor possível para o caso, proporcional ao crime e determinada pelas leis.” (Dos Delitos e das Penas,  Hunter Books, São Paulo, 2012, p. 125)

As palavras de ambos foram condensadas de maneira primorosa por Pierro Calamandrei no século XX. Diz o jurista italiano que “O bom juiz põe o mesmo escrúpulo no julgamento de todas as causas, mesmo as mais humildes. Ele sabe que não existem grandes causas e pequenas causas, porque a injustiça não é como aqueles venenos acerca dos quais certa medicina  afirma que tomados em grandes doses matam, mas tomados em pequenas doses curam. A injustiça envenena até mesmo em doses homeopáticas.” (Eles os Juízes, vistos por um Advogado, editora Martins Fontes, São Paulo,2015, p. 226)

Mas estas lições de coragem e auto-sacrifício em nome da legalidade (Hering), de distinção entre vingança e justiça (Beccaria) e cuidado judiciário para não envenenar a sociedade distribuindo injustiças (Calamandrei), não teriam muito sentido se não levássemos em contra a magistral aplicação prática da virtude aristotélica* ensinada por Niccolò di Bernardo dei Machiavelli no século XVI:

“Nada é mais perigoso do que inflamar a cada dia, entre os cidadãos, novos ressentimentos pelos ultrajes cometidos incessantemente contra alguns destes, como acontecia em Roma depois do decenvirato.De fato, todos os decênviros, e muitos outros cidadãos, foram em várias oportunidades acusados e condenados. O temor era geral entre os nobres, que não viam o fim dessas condenações antes que se destruísse toda a sua classe. Disto teria resultado inconvenientes dos mais desastrosos para a república se o tribuno Marco Duélio não houvesse posto termo à situação proibindo, durante um ano, citar ou acusar qualquer cidadão romano, o que fez com que os nobres recobrassem a segurança.

Este exemplo mostra como é perigoso para uma república ou para um príncipe manter os cidadãos em regime de terror contínuo, atingindo-os sem cessar com ultrajes e suplícios. Nada há de mais perigoso do que este tipo de procedimento, porque os homens que temem pela própria segurança começam a tomar todas  as precauções contra os perigos que os ameaçam: depois, sua audácia cresce, e em breve nada mais pode conter sua ousadia.” (Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio, editora UNB, Brasília, 1994, p. 146).

Corrompida pelo ódio acumulado em razão de quatro derrotas eleitorais presidenciais, a imprensa brasileira passou a se comportar como se fosse um poder supra-judiciário. Todos os dias os jornais, revistas e telejornais, acusam petistas e cobram punições exemplares. Os juízes que atendem os reclamos dos jornalistas das principais empresas de comunicação (como Joaquim Barbosa e Sérgio Moro) são premiados com matérias jornalísticas positivas, belas fotos nas primeiras páginas, entrevistas laudatórias e até capas de edições especiais. Aqueles que se resignam a cumprir a Lei e admitem publicamente a necessidade de respeitar os limites da legalidade são hostilizados, atacados, desqualificados e até ofendidos pela imprensa (caso de Lewandowski, Barroso e, mais recentemente, Fachin).

A imprensa é livre, mas não lhe compete julgar os réus ou orientar aqueles que foram encarregados de cumprir a Lei. As seletivas interpretações jurídicas divulgadas pelos jornalistas (que, por exemplo, exigiram a aplicação da “teoria do domínio do fato” no caso do Mensalão Petista e rejeitaram o uso da mesma no caso da Roubalheira Tucana do Metrô-SP) não tem o mesmo valor que a jurisprudência. Os réus têm direito a um julgamento isento e devem ser tratados como inocentes até a prolação da condenação válida lastreada em provas produzidas num processo em que tiveram ampla defesa. A própria legalidade não pode ser corrompida pelo desejo de notoriedade daquele que foi encarregado da missão de distribuir justiça. A própria justiça não pode ser confundida com a vingança partidária e jornalística praticada largamente nas páginas dos jornais, revistas e nos telejornais.

O clima de linchamento judicial criado pela imprensa contra os petistas (sempre em contraste com a cordialidade dispensada pelos jornalistas aos suspeitos tucanos que cometeram crimes administrativos/financeiros tão ou mais graves) já está produzindo uma onda de ódio nas ruas. A invasão do Congresso do PT por um anti-petista é apenas a ponta de iceberg que veio a tona quando das manifestações em que bonecos representando Lula e Dilma foram enforcados nas ruas de São Paulo. Se os petistas, que até o presente momento se mostram tranqüilos e compreensivos, temendo  “…pela própria segurança começam a tomar todas  as precauções contra os perigos que os ameaçam…” o resultado será uma tragédia que pode acarretar até mesmo uma nova Ditadura. Mas esta Ditadura não será comandada pelos jornalistas ou pelos juízes que eles tratam como salvadores da pátria.

*virtude aristotélica: meio termo 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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12 Comentários
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  1. chris

    16 de junho de 2015 8:26 pm

    O abuso do 4o poder

    advém da sensação de que sempre haverá o pleno controle das consequências, assim como fez a nobreza no limiar da revolução francesa. Dois pontos se destacam como garantias para a “coragem” do embate: O argumento da liberdade de imprensa (usado como escudo para os abusos e manipulação) e a imagem de imparcialidade mantida perante ao público, que recebe todos os dias os simpáticos apresentadores de telejornais (locutores de rádio, etc.) em suas casas como se fossem pessoas bem intencionadas, esclarecidas e voltadas para a divulgação da informação com a mais pura das intenções – ninguém avisou ao público que eles são funcionários de uma empresa, que tem patrão e obedecem ao posicionamento político estipulado.  Eu ouço rádio e vejo Tv (muito pouco) e percebo nitidamente o direcionamento político das emissoras, que agem como um bloco. Chega a ser rizível certos truques usados para direcionar o povo entrevistado à dizer o que eles querem, fazer algúem envolvido numa tragédia chorar para dar audiência…. Quantos que assistem tem senso crítico? Está faltando informação contundente via educação formal….

  2. veranis

    16 de junho de 2015 9:05 pm

    Brasil=Retrocesso

    Pestistas sendo hostilizados, crianças do candomblé sendo apedrejadas e Cunha prometendo fechar o Congresso para votar a lei que coloca crianças no presídio. O que está acontecendo com o  nosso país?

  3. João Alexandre

    16 de junho de 2015 10:28 pm

    Assunto atualíssimo

    Esse é um tema atualíssimo que tem me incomodado bastante. Hoje, quando li as chamadas dos jornalões e portais da mídia corporativa, da posse de Fachin no STF, com matérias ressaltando o buzinaço, a ausência de Dilma, a “breve cerimônia protocolar”,  o número “recorde” de votos contrários à sua aprovação no Senado, a crítica impetuosa à sua posição de simplesmente repetir o que diz a lei no tocante  a valoração das provas, (isto é, de que delação não é prova cabal, mas indício) etc, tive a forte convicção de que essa mídia oligarca, oposicionista e tendenciosa é a responsável direta por esse clima de ódio e divisão que estamos vivenciando hoje na sociedade brasileira. E esse envenenamento tem se intensificado a cada dia que passa, diante da passividade do Congresso, e também do Governo, cuja frágil base parlamentar nunca permitiu avançar com a Lei de Medios.Triste Brasil que está a mercê de uma elite e mídia da pior qualidade.

  4. Emilia Silva

    16 de junho de 2015 10:53 pm

    É vero.
    Mas essa recente

    É vero.

    Mas essa recente pesquisa que diz que somente 12% do povo brasileiro odeia o PT dá uma certa tranquilidade. Esses 12% são pessoas do mal, que querem ver sangue. Mas os outros 88%, mesmo os que nunca votaram ou votarão no PT, não vão endossar o radicalismo deles. Os petistas (ai me incluo) podem permanecer tranquilos e compreensivos.

    Logo ao final da eleição o clima de ódio era maior, mas com o tempo a grande maioria caiu na real e abandonou o barco furado que tinham entrado, graças: 1º ao exagero do partidarismo da mídia, que acabou se enforcando sozinha; 2º ao comportamento inapropriado dos líderes peessedebistas, que acabou revelando seus verdadeiros caráteres; e 3º à repercussão das notícias dos blogs sujos, que fez com que a maioria das pessoas percebesse que o psdb é tão ou mais corrupto do que o PT.

    Essa impressão de que muuuita gente odeia o PT é criada artificialmente pela mídia. É fácil constatar: quanta gente vocês conhecem que, mesmo tendo votado no psdb, endossam essas atitudes ridículas, como por exemplo o que fez aquele idiota com o Padilha? Meus conhecidos que votaram no psdb têm se mostrado visivelmente constrangidos com essas situações.

  5. sergio m pinto

    16 de junho de 2015 11:02 pm

    Tudo certinho. Mas, um reparo

    Tudo certinho. Mas, um reparo – faz tempo que se deixou de se fazer justiça no país.

  6. wendel

    16 de junho de 2015 11:34 pm

    E …………….

    Realmente o artigo foca num momento trágico de nossa existência., e diga-se de passagem, muito perigosa!

    A manipulação da imprensa, em todos os anos de governo do PT, chega a ser imoral, pois se queremos uma imprensa isenta, democratica e fiscalizadora, o que estamos vendo nada mais é que, uma máquina de ódio e separações com pleno vapor!!!

    Não iei me estender na análise, pois o artigo por sí só já esclarece, mas incluo:

    Chego a ter vergonha de estar vivendo estes tempos, pois conforme o grande Lampadusa diz através de um de seus personagens no livro – Il Gatopardo, ” Acabou o tempo dos leões e leopardos, agora virá o tempo das hienas e chacais”!

    Infelizmente para todos os que amam este País !!!!!!!!!!! 

  7. Maria do Carmo

    16 de junho de 2015 11:36 pm

    Temos que nos unir as pautas

    Temos que nos unir as pautas progressistas e sair às ruas contra os desmandos do Cunha, desse congresso conservador  e da mídia golpista. Não basta ficar se indignando nas redes sociais, precisamos de uma ação efetiva.

  8. Mário Mendonça

    17 de junho de 2015 12:14 am

    Prezado Fabio
    Este ovo da

    Prezado Fabio

    Este ovo da serpente tambem é culpa do petismo.

    Porque o Lula  e a Dilma não fazem que nem o Chavez fez na Venezuela.

    Retirem a concessão, pois ela é publica,  e o que a midia fez e esta fazendo contra o país,  é golpe.

    Abração

    1. Erica Caminha

      17 de junho de 2015 4:38 pm

      triste, me dói dizer isso,

      triste, me dói dizer isso, mas vc tem razão, desde o 1o. mandato de Lula até agora com a Dilma… 

  9. Meire

    17 de junho de 2015 12:30 am

    *

    Pobre povo brasileiro, sempre teve uma minoria corrompida a lhe defraudar ! Perdem eleições, perdem a vergonha na cara. Ou melhor, não podem perder o que nunca tiveram.

  10. Under_Siege

    17 de junho de 2015 3:46 am

    Comemoração

    me lembro vivamente da comemoração em programa “jornalistico” AO VIVO da @radioitatiaia (BH-MG) no dia das condenações políticas finais do “Mensalão”. Um “jurista” convidado para validar os crimes cometidos no STF contra os réus sem defesa da AP470 foram comemorados com os radalistas por frase como “somos o primeiro poder (a midia)” . 

    Foi CLARO como a luz do sol num deserto que o julgamento indecente da AP470 e suas bizarrices juridicas eram debitaveis pp na conta da #MidiaBandida e de maus juízes.

    Enfim. Galopa o pais para o não-futuro, numa rapidez impressionante capitaneado pela #MidiaBandida e o capiroto Cunha que está destrindo em semanas conquistas da CF88.

    Tristes dias…

     

    :((

  11. Maurici AAzevedo.

    18 de junho de 2015 8:43 pm

    Ecos do Brasil Colonia.

    No Brasil, a criação de cursos jurídicos foi uma imposição que parece nunca ter sido superada, na quilo  que têm mais de provinciano, autoritário e mediocre: Trocar a escola jurídica de Coimbra, por São Paulo e Olinda.

    (copiado)

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