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O fantasma da fome na Veja em maio de 98

Recupero aqui uma reportagem de Veja do ano de 1998.  Um Brasil que não existe mais. Um detalhe, é visível rede de proteção ao "iluminado de Higienópolis" e como diríamos..." a se fosse o Lula" e aliás já batiam nele naquele ano.

Revista Veja

06 de maio de 1998

O fantasma da fome

Desamparados pelos governos e à mercê da chuva que não vem, centenas de milhares de brasileiros vivem sob a ameaça de não ter o que comer no dia seguinte

O nome é Vicente. Tem 14 anos e vive com a família em Acari, cidade do Rio Grande do Norte. A grande seca deixou os pais e os irmãos de Vicente com um problema: comer. Vicente é um menino esperto, de olhos vivos. Tem inteligência incomum e visão das coisas surpreendentemente madura para um rapaz da sua idade. Sua experiência de vida, em Acari, é muito diferente da que tiveram os adolescentes que vivem no sul do país. Já saqueou lojas, no meio da multidão. Seu pai estava junto dele nesses ataques. Vicente defende o saque dizendo que a pessoa com fome tem o direito de se apropriar da comida, seja ela de quem for, esteja onde estiver. 

O personagem descrito nas dezoito linhas acima saqueou armazéns no distante ano de 1970. Hoje tem 42 anos de idade, mas ainda conserva o apelido da infância, Vicentinho. Vicente Paulo da Silva, o presidente da Central Única dos Trabalhadores, metalúrgico há muitos anos e brasileiro com origem e história que estão longe de constituir exceção. Neste exato momento, milhares de Vicentinhos estão experimentando a mordida da fome no semi-árido nordestino. Ainda comem regularmente, mas comem pouco, muito menos do que gostariam ou, mais grave, do que necessitam para se manter medianamente nutridos. A situação na área seca do Nordeste é tenebrosa. A fome está apenas começando em alguns municípios mais castigados. Mas deve piorar. Não há sinal de chuva, nem previsão de que venha. E a assistência emergencial, montada pelas autoridades, especialmente as de Brasília, só começou a ser planejada quando o problema ficou sério e chegou ao noticiário. Exatamente como aconteceu no caso do incêndio em Roraima.

A seca não apenas é previsível como obedece a um ciclo físico perfeitamente regular. A pior veio em 1877. Arreganhou sua carranca braba nos céus do sertão e ceifou a vida de 57.000 nordestinos. Quando soube da tragédia, diz a História que dom Pedro II chorou. Neste século, ela já irrompeu 23 vezes. Nunca mais foi tão devastadora como há 121 anos, mas sempre deixou seu rastro horrendo -- miséria aguda, doenças ou epidemias, enormes migrações, choro e desespero. Desta vez, como espectro sinistro, ela lança sua ameaça sobre 10 milhões de nordestinos em 1.209 cidades. Já é a pior dos últimos quinze anos. Se o sol continuar inclemente pode vir a ser tão cruel quanto a de 1983, a mais devastadora deste século. Até agora, torrou 57% da safra do Nordeste, principalmente de arroz, feijão e milho, gerando perda de 2 milhões de toneladas de grãos, comida suficiente para alimentar 1 milhão de famílias por quase cinco anos. O prejuízo, calcula-se, já chega a 4,7 bilhões de reais, ou quase 5% do PIB do Nordeste ( NOTA - Em 1998 o PIB do Nordeste era 5 bilhões hoje em 2012 é de 538 bilhões, quase 550% em 15 anos!). Difícil de calcular é o sofrimento do sertanejo. A seca, a estiagem, a maldita, sempre traz outro horror. Pode-se chamá-lo de grande apetite de comer, urgência de alimento, míngua de víveres. Ou simplesmente de fome. E a fome está começando a torturar a barriga de milhares de vítimas da seca.

O agricultor Severino José dos Santos, de 59 anos, morador de Tabira, no sertão de Pernambuco, teve sua pequena horta de milho e feijão destruída. A família resolveu comer a palma, um cacto repleto de espinhos que serve normalmente para alimentar o gado. Sua mulher, Maria do Carmo da Silva, 47 anos, dá a receita. "Raspei os espinhos, passei em seis águas para tirar a baba verde da planta e cozinhei com sal. Depois, dei para a família provar. Todo mundo fez cara feia, mas, pelo menos, ficou de barriga cheia." A palma ingerida parece inchar no estômago. Faz peso. Ajuda. Os cinco filhos da casal agüentam o gosto ruim, mas Severino não consegue engolir. Às vezes, o cardápio é reforçado com uma sopa rala feita com ossos de boi, que Severino ganha dos comerciantes. Outras vezes, a situação fica terrível. "Quando falta comida mesmo, a gente põe os meninos para correr atrás dos calangos. Mas é difícil, tem de ficar o dia inteiro correndo porque esses bichos correm demais", conta a mulher. A família está sem dinheiro. Não consegue pagar nem a conta de luz. Custa 1,34 real.

 

Na semana passada, o céu azul dava calafrios em Antônia Maria de Jesus, de 56 anos. Ela olhava para aquele espaço límpido, sem nuvens, em Ribeira do Pombal, no interior da Bahia, um atestado de que não choverá tão cedo. "Comprei 2 quilos de feijão e esse tantinho de carne", diz, exibindo duas peças de acém, um pedaço de carne de segunda. "Dá para hoje, talvez até amanhã. Depois, não sei mais." Em Irauçuba, cidade do interior do Ceará, o agricultor Onofre Rodrigues de Lima, 46 anos, nem chegou a plantar. Em volta de sua casa, o campo não parece tão seco. "É uma enganação esse matinho: nesse chão não dá nada sem chuva", desabafa. Na semana passada, comeu com a família o último prato de feijão.

 

Com o fantasma da miséria e da fome rondando o Nordeste e o norte de Minas Gerais, é inacreditável que nenhum dos candidatos à Presidência da República tenha aparecido na região. Fernando Henrique Cardoso, que costuma ser associado pelos adversários a qualquer tipo de catástrofe natural que ocorra no Brasil, não apareceu no semi-árido nem ao menos para dar uma olhada. Luís Inácio Lula da Silva também não deu o ar de sua graça. Logo Lula que nas últimas eleições inventou aquela história da "caravana da cidadania", na qual excursionava pelas bordas do Brasil, sempre acompanhado por hordas de repórteres e fotógrafos interessados em flagrar seu encontro com os excluídos. Leonel Brizola não apareceu. Nem Ciro Gomes. Fernando Collor, até ELLE, retornou ao Brasil de Miami como pretenso candidato -- mas desembarcou por São Paulo, Rio e Brasília. Sendo de Alagoas, não quis saber de lugares onde faltam água e comida. E, no entanto, que grande gesto para um político, qualquer um, seria desfilar compungido pelas estradas poeirentas da seca nordestina, entre os brasileiros que lá vivem, os deserdados da sorte e da riqueza. Depois que a imprensa noticiou a seca, o presidente Fernando Henrique anunciou na semana passada que, finalmente, irá ao Nordeste. Lula disse o mesmo.

A dureza da seca pode, às vezes, dar a impressão de que a tragédia está em toda a parte. Mas é falso imaginar que todo o Nordeste passa fome. Na área atingida pela seca, equivalente a três vezes a área do Estado de São Paulo, vivem 18 milhões de habitantes. Desse total, 10 milhões moram na zona rural, a área onde o problema realmente acontece, já que os habitantes das cidades não dependem de roçados para fazer duas refeições por dia. Estima-se que nesse grupo de 10 milhões haja perto de 1 milhão de brasileiros indefesos em épocas de secas mais fortes como esta. Não quer dizer que estejam morrendo de fome. Não há, no Nordeste, aquelas pessoas esquálidas das fomes históricas, que aparecem nas fotos com uma camada finíssima de pele enrugada sobre o esqueleto totalmente visível. Mas os nordestinos da seca já estão começando a experimentar a sensação de estômago vazio dia após dia, noite após noite. E a situação pode ficar escandalosamente pior.

 

Na Paraíba, o governo estima que 150.000 pessoas estejam fazendo apenas uma refeição por dia e 30.000 comam uma única vez dia sim, dia não. Em Alagoas, a situação é mais crítica. No alto sertão do Estado, 20.000 pessoas alimentam-se apenas duas vezes por semana. No Piauí, calcula-se que 124.000 camponeses só comem se alguém lhes der alimento. Atravessa-se agora o momento inicial da seca. Se não chover, a vida do sertanejo tende a piorar cada vez mais. É aí que ele sai do seu casebre nos cafundós do semi-árido nordestino e foge para as cidades, em busca de abrigo em casa de parentes urbanos. Ou migra para a periferia (leia-se favelas) das cidades maiores, onde passa dificuldades mas consegue colocar alguma coisa no estômago. Quando a seca aperta demais, há uma transição dramática da fome nutricional para a fome aguda, esse é o problema. No semi-árido nordestino, mesmo sem a presença da seca, as pessoas comem muito mal, abaixo daquilo de que seu organismo necessita. Ou seja, há sempre um estado latente de fome suportável, no qual as pessoas vivem fracas, sujeitas a pegar doenças com mais facilidade, especialmente as crianças. O índice de mortalidade infantil nessas áreas, em boa parte devido à desnutrição, é muito mais elevado do que no resto do país.

É isso que torna a seca mais perversa. Ela mistura seu fardo de miséria nova a uma velha miséria. O Nordeste concentra a maior parte dos subnutridos do país. Na zona rural, uma em cada quatro crianças nasce desnutrida, contra a média nacional de uma criança em cada dez. Entre a população adulta, a Organização Mundial de Saúde, OMS, admite como razoável que de 3% a 5% tenham relação de peso e altura abaixo do normal. No Brasil inteiro, a única taxa que foge desse padrão é a do Nordeste, que beira os 10%. "É virtualmente a única região do Brasil onde há fome crônica", afirma Carlos Augusto Monteiro, coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo. Um ser humano deve consumir por dia cerca de 2.500 calorias, dependendo da idade, peso e altura. Mesmo que não faça nada, durma o dia inteiro, precisa ingerir 1.500 calorias. No Nordeste, quando a seca avança, o consumo médio chega a ser de 1.400 calorias, abaixo do mínimo necessário. Nas áreas mais castigadas pela falta de água, às vezes o consumo calórico cai para 500. É um desastre orgânico de proporções gigantescas. Nos campos de trabalho da Alemanha nazista, consumiam-se 900 calorias por dia. Nas aldeias de refugiados da Etiópia, a ração diária era de 700 calorias e, nas horas mais cruéis, caía para apenas 200 -- um massacre.

O Nordeste não é uma Etiópia, mas, quando o consumo de calorias baixa para o patamar de 500 ao dia em certas áreas e em certos grupos, o corpo alimenta-se de si mesmo. Primeiro, devora a reserva de gordura, depois ataca o estoque de energia dos músculos. É um processo que, aliado a algum esforço físico, como andar quilômetros em busca de água, evolui para o chamado "marasmo", situação em que a pessoa tem fraqueza extrema, vira só pele e osso e mal consegue raciocinar. Mesmo nas favelas paulistas, onde mora 1,9 milhão de pessoas, o problema não tem essa gravidade. São pessoas pobres, mas que conseguem alimentar-se. Na pior das hipóteses, podem pedir um pedaço de pão na padaria da esquina, esmolar nas ruas ou freqüentar um sopão. No sertão, não há padaria na esquina, sopão, nem esmola. Em Soledade, no interior da Paraíba, Martinho Caetano, 60 anos, pai de doze filhos, ganha 75 reais por mês como vigia de um dos poços públicos da cidade. Mesmo trabalhando com água, Caetano sofre com a estiagem. "Nunca vi seca tão ruim. Quando a coisa fica feia mesmo, eu finjo que a água salobra é Sonrisal e bebo de olhos fechados", diz ele.

A região da seca no Nordeste é o semi-árido mais populoso do mundo. Em todos lugares secos do planeta, vivem apenas populações rarefeitas, que se concentram em áreas onde existe água, como os oásis do deserto, ou onde há uma estrutura capaz de fornecer alternativas contra as agruras permanentes do meio ambiente. No caso do Nordeste, é diferente. Não se criam alternativas eficazes contra a tragédia porque a seca não se repete todos os anos. Sabe-se, desde o século passado, que as grandes secas retornam regularmente, com precisão de relógio, a cada doze a catorze anos. Ou seja, as secas pequenas podem ir e vir sem grandes problemas. Mas a cada ciclo de treze anos uma seca satânica faz seu ataque. Mais recentemente, descobriu-se que esses ciclos coincidem com as enchentes no Sul e os incêndios do extremo Norte, que torram a savana de Roraima. Quem mobiliza essas forças da natureza é o famoso El Niño, fenômeno que altera o clima em quase todos os cantos do mundo. Também se sabe que as secas duram de dois a três anos. Outro dado conhecido é que não falta água no Nordeste. O mínimo, segundo a ONU, são 2.000 metros cúbicos de água por habitante. No Nordeste, há 4.300 metros cúbicos. Há um mar de água doce no subsolo nordestino. E há também grande quantidade em açudes. O que falta é controlar a captação e distribuir a água toda.

É claro que, no Brasil, país pobre, com tantas urgências, é difícil explorar lençóis de água, erguer barragens subterrâneas ou fazer a transposição das águas do Rio São Francisco para as áreas secas, projeto de 1 bilhão de reais. Para combater os efeitos da estiagem, além de construir umas coisas, é preciso destruir outras -- como a velha indústria da seca, em torno da qual se aglutinam os coronéis da oligarquia rural. Entre os 513 deputados federais, 151 são do Nordeste, e a grande maioria tem sua base eleitoral em municípios da seca. Ainda assim, apenas 10% das emendas que esses deputados sugerem ao Orçamento da União são para combater a seca. Os outros 90%, em média, destinam-se a obras eleitoreiras, como quadras esportivas ou chafarizes nas praças, coisas que dão visibilidade e rendem votos.

Se combater a seca de forma a eliminá-la é uma coisa complexa, lutar contra seus efeitos imediatos é de uma simplicidade atroz. Neste momento, a prioridade é mandar o carro-pipa e abastecer o armazém local de comida ou, numa versão mais atualizada, distribuir cestas básicas e frentes de trabalho, para que as vítimas tenham algum dinheiro no bolso. O dado estarrecedor é que, sendo a seca previsível, nada se tenha feito para tomar as providências que remedeiam a fome. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais vinha alertando desde outubro que a seca seria forte. E, no entanto, só nas últimas semanas foi que se viu a correria para apagar esse incêndio nordestino.

O Palácio do Planalto tem seu quinhão de responsabilidade nesse descuido. Ocupou-se de muitos assuntos, como a reforma do carro-pipa ministerial ou a distribuição das cestas básicas de poder entre os partidos de Paulo Maluf, Orestes Quércia e Jorge Bornhausen. Na semana passada, com a morte do deputado Luís Eduardo Magalhães, o Planalto tentava abrir uma nova frente de trabalho para o deputado pefelista Inocêncio Oliveira como novo líder do governo na Câmara. Como no incêndio florestal em Roraima, o Planalto só acordou depois que a seca foi parar nas manchetes dos jornais e nas imagens da TV. Aí, e só aí, começou uma mobilização para montar um plano de emergência e distribuir 1 milhão de cestas básicas. "O presidente quer rapidez. Não quer parecer complacente com o problema", dizia Sérgio Moreira, o novo comandante da Sudene, o órgão de desenvolvimento do Nordeste. Até então, o Comunidade Solidária, programa que tem como uma de suas metas atender gente com fome, estava presente em apenas 200 cidades dos 1.200 municípios atacados pela seca. A manifestação mais eloqüente do governo na semana passada foi para condenar os saques a supermercados e quem os estimula. "É irresponsável que líderes políticos incitem o saque. É demagogia, e a pior demagogia é a demagogia com o pobre", afirmou o presidente Fernando Henrique.

O presidente tem razão. Quando bispos da CNBB e líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra justificam publicamente os saques a supermercados, como fizeram na semana passada, isso pode incitar as pessoas a promover badernas. Mesmo as que não estão passando fome costumam engrossar esses saques quando há lideranças que as conduzam. O saque, além do mais, pode perturbar a organização da assistência social quando uma pessoa participa dele apenas para melhor garantir seu estoque doméstico. Mas é o saque, em muitos casos, que ajuda alguns a atravessar alguns dias. No casebre do pedreiro Antonio Morato da Silva, de 33 anos, em Afogados da Ingazeira, a 380 quilômetros do Recife, seus quatro filhos pequenos só estavam comendo na semana passada o que o pai arranjou num saque ao armazém onde o Comunidade Solidária estocava alimentos. No dia 16 de abril, às 6 da manhã, ao lado de outras 500 pessoas, ele invadiu o prédio e saiu de lá com 25 quilos de arroz e quase 50 de macarrão. "O peso era tanto que eu caí várias vezes com os sacos na cabeça. Nem reclamei. Eu estava feliz", conta. Quem não faria o mesmo vendo seus filhos chorando de fome? Há séculos, as diversas doutrinas religiosas defendem que é legítimo roubar para comer. Em comum, os preceitos católicos, protestantes e judaicos defendem a vida como o principal dom dado por Deus, mesmo que para mantê-la seja necessário cometer um crime. Na doutrina oficial da Igreja Católica, esse princípio aparece desde o século XIII, quando São Tomás de Aquino escreveu a Suma Teológica, defendendo que a propriedade não podia ser um bem acima dos seres humanos.

Se as religiões dizem que não é pecado, as leis dizem que não é crime. No Código Penal, artigo 23, está escrito que não há crime quando se pratica um ato em "estado de necessidade". Já no século II a.C., o filósofo grego Karneades escreveu seu clássico do direito penal, a Tábua de Karneades, dizendo que, quando dois náufragos encontram uma tábua no oceano em que só um pode se apoiar, é legítimo que o náufrago que chegou primeiro despache o outro para o fundo do mar, matando-o. Isso é "estado de necessidade". É o que vive a dona de casa Maria de Lourdes Pereira, 48 anos. Doente, sem a renda da mãe que morreu há um ano, com um filho de 12 anos que sofre de problemas mentais, ela entrou no inferno. Na semana passada, dona Maria conversava com VEJA na sua casa, dizia que há dois dias não punha nada salgado na boca e, de repente, desmaiou. De fome. Levou meia hora para ser reanimada. Histórias assim começam a se repetir com mais insistência. Não se deve esperar que tenham um final satisfatório cobrando providências apenas do governo federal, o alvo mais visível de quem gosta de apontar o dedo acusador para Brasília sempre que alguma coisa dá muito errado no terreno social. O drama da seca só será resolvido se outros agentes igualmente responsáveis entrarem em ação. A Igreja, por exemplo. Ou melhor, as igrejas. E também as prefeituras, as associações comerciais e as entidades de classe. Toda a sociedade tem de querer acabar com esse velho drama. Senão, 1998 será para as vítimas da seca apenas mais um ponto negro no calendário. Seguido de muitos outros iguais.

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Não existe mais? Nem o mais áulico de todos os narizes marrom afirmaria isso... um dia chegaremos lá. Foi só a seca voltar ao nordeste e já regredimos tudo de novo.

 

Não, não regredimos. O Brasil avançou, e muito.  E o Sr. sabe disso muito bem.  Mas pode continuar torcendo contra, e se frustrando.

 

Demarchi

ter, 05/02/2013 - 11:02
evandro condé de lima
“Ivan, essa história de comer cactus mexicano está muito mal contada....”

Não está não meu caro evandro condé de lima. Se Vossa Senhoria visitar o sertão da Bahia. Mais precisamente, empreender rápida visita à bela região da Chapada Diamantina, terá a oportunidade de constatar que a palma forrageira veio do México e do Peru, mas, já é quase um símbolo do semi-árido nordestino. O cacto, que garante a alimentação do rebanho no período da seca, tem importância reconhecida. E, pode ser degustado como saboroso guisado, conhecido naquela região da Chapada Diamantina, Oeste da Bahia, como Cortado de Palma. Naturalmente, há os que torcem o nariz à iguaria, todavia, acredito se tratar de mero preconceito à história da "culinária de guerra à fome."

Abaixo, apresento breve pesquisa na internet que corrobora o comentário de Ivan.

Abraços. Orlando

 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Opuntia cochenillifera (ou: Nopalea cochenillifera, Nopalea coccinellifera, Cactus cochenilliferus e Cactus cochenillifer) é o nome científico da cactácea forrageira e comestível, de origem mexicana, largamente difundida no Nordeste brasileiro - recebendo o nome genérico de palma (é, ainda, conhecida por: urumbeta, cacto, cacto-de-cochonilha, palma-de-engorda, palma-miúda, palma-forrageira, palma-doce, palmatória-doce, nopal, cardo-de-cochonilha, cacto-sem-espinhos).[1]
Seu uso varia desde a alimentação ao gado e humana, paisagístico e cerca-viva, como para a produção de corante natural, extraído de inseto parasita.

 

O ivan entendeu; não sei onde estavas na década de 70, mas por aqui corria um livro- para não falar de otras cositas- que contava a história de um tal don Juan que comia peiote no México... e por aí vai.

 

O Caso Boimate revisitado: anatomia de uma barrigaPublicado em abril 16, 2009 | 29 Comentários a barriga mais célebre da história da imprensa brasileira

Nasce um mito: a barriga mais célebre da história da imprensa brasileira

A barriga mais célebre do jornalismo brasileiro completa, daqui a uma semana, 26 anos. Falo do boimate, história publicada pela revista Veja em sua edição datada de 27 de abril de 1983 _porém desde o dia 23 nas bancas.

A matéria (reproduzida acima) repercutia reportagem publicada pela ilibada revista New Scientist quase um mês antes, em 31 de março. Um infográfico (esse termo nem existia nessa época, usava-se “arte” mesmo) imenso tenta explicar o inexplicável. Pomposa, a resenha, que incluía aspas de um engenheiro genético da USP (busque por “Ricardo Brentane”) dava conta de um triunfo espantoso da engenharia genética: a fusão de células animais e vegetais.

O produto desta conquista era o boimate, como Veja apelidou. Em resumo, um tomate reforçado com células de gado que possuía uma polpa muito mais nutritiva e tinha “um futuro promissor na alimentação de pessoas”, como registra o texto do semanário da Editora Abril.

Ocorre que 31 de março é véspera de 1º de abril, data em que a mídia (principalmente a inglesa) costuma pregar peças em seus leitores. Até hoje essa tradição resiste.

A redação de Veja não percebeu as pistas, abundantes no texto, de que se tratava de um trote. Para começar, a fusão celular tinha sido obra dos pesquisadores Barry McDonald e William Wimpey _claras referências às redes de fast-food americanas McDonalds e Wimpy’s. Mais: ambos trabalhavam na Universidade de Hamburgo (ou Hamburg University, em inglês).

Veja não foi a única a cair no conto do boimate. A matéria da New Scientist foi lida parcialmente e debatida no Senado dos EUA durante uma audiência sobre as potenciais consequências ambientais da engenharia genética (procure por “McDonald”). Isso em setembro do ano seguinte, 1984.

Em 1983, o McDonald’s tinha uma loja havia dois anos em São Paulo _a primeira no país, dois anos mais velha, funcionava em Copacabana. A Wimpy’s, nem isso (a rede, ainda na ativa nos EUA, jamais desembarcaria no Brasil).

Era, também, bem mais difícil fazer jornalismo. Você ficava sempre com a sensação de que era o último a saber. Não havia internet nem Google, tampouco celular _logo, muito mais difícil localizar pessoas e checar a veracidade de fatos.

A própria telefonia, estatal e inoperante, deixava muitíssimo a desejar. Algumas ligações levavam horas para ser completadas para muitas vezes cair segundos depois. E dá-lhe discar (sim, o telefone era a disco e estropiava o seu dedo nessas mil tentativas).

O acesso a produtos impressos, então, proibitivo. Havia pesadas taxas sobre importação de livros, revistas e jornais. Mesmo assim, todos chegavam bem depois. No caso do jornal, com sorte, um só dia, mas revistas mensais (caso da New Scientist) ou semanais estavam pelo menos um período atrasados (às vezes dois ou mais).

O espaço entre o boimate original (31 de março) e o de Veja (23 de abril) revela exatamente o delay sobre o qual discorri acima. Normalmente, os jornalistas que viajavam ao exterior tinham a incumbência de trazer consigo na bagagem a maior quantidade de publicações possível. Era árduo saber o que a concorrência, especialmente os cachorros grandes, estava fazendo.

Para encerrar, as brincadeiras de 1º de abril na imprensa. Acho totalmente inadequadas. Felizmente essa bobagem inexiste no Brasil _a mídia de Espanha, Portugal e América Latina faz a mesma tolice e torpeza com seus leitores em 28 de dezembro, o dia da mentira deles (ao menos, sempre há fontes que enganam os jornalistas).

Não importa o quão estúpido seja o trote inventado, não me parece apropriado vindo de um veículo jornalístico.

Mas graças a eles o jornalismo deu à luz, há 26 anos, o boimate.

ATUALIZAÇÃO: Meu amigo André Marmota conta uma curiosa história de 1º de abril ocorrida no Brasil: foi em 1999, quando o jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, decidiu publicar uma capa inteira com notícias fake (entre elas, a contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo São Bento, clube da cidade).

http://webmanario.com/2009/04/16/mais-celebre-barriga-do-jornalismo-bras...

 

"O prejuízo, calcula-se, já chega a 4,7 bilhões de reais, ou quase 5% do PIB do Nordeste ( NOTA - Em 1998 o PIB do Nordeste era 5 bilhões hoje em 2012 é de 538 bilhões, quase 550% em 15 anos!)."

Imagino que vc queria dizer que o PIB em 98 era ~100 bilhões.

 

" Na Paraíba, o governo estima que 150.000 pessoas estejam fazendo apenas uma refeição por dia e 30.000 comam uma única vez dia sim, dia não. Em Alagoas, a situação é mais crítica. No alto sertão do Estado, 20.000 pessoas alimentam-se apenas duas vezes por semana... "

Pela reportagem vê-se que Lula fez de fato uma verdadeira revolução no Brasil. E também se vê como de fato foi o 1o presidente que não ficou indiferente a eterna fome que sempre assolou e ainda assola uma parcela do povo brasileiro, porém hoje uma parcela infinitamente menor. Já a imprensa, essa eterna recalcada e canalha imprensa, com a VEJA sempre á frente, só sabem chamar Lula de cachaceiro, vagabundo, ladrão e até de assassino. São uns FDP mesmo.

 

Bem que o FHC disse no telefone grampeado que a imprensa o apoiava "até demais", pois não é que a Veja tira a responsabilidade do governo federal para lutar contra a fome e a joga na cacunda da "A Igreja, por exemplo. Ou melhor, as igrejas. E também as prefeituras, as associações comerciais e as entidades de classe. Toda a sociedade tem de querer acabar com esse velho drama".

 

Reportagem de MARCELO CANELAS, EM 2001. O Brasil de FHC/PSDB.

http://youtu.be/nT3yUe76oFQ

 

O Nordestino não morre mais em massa, quando ocorre a seca.

O Nordestino não foge mais em massa, quando ocorre a seca.

http://partidodaimprensagolpista.wordpress.com/2012/11/09/terras-secas-fome-saques-e-mudancas/


 

Flávio Furtado de Farias

Lembro-me que quando passava por alguma estrada deste país presenciava crianças às margens da estrada(e da sociedade) pedindo esmola para saciar a fome, escola nem pensar! Esse artigo de Veja é de 1998,  Lula havia sido derrotado por essa elite insana e seus meios de comunicação em 1989,  olha só dedo do Civita contra Lula: "Não se deve esperar que tenham um final satisfatório cobrando providências apenas do governo federal, o alvo mais visível de quem gosta de apontar o dedo acusador para Brasília sempre que alguma coisa dá muito errado no terreno social." (Veja, em 1998). Hoje, apesar do problema estar sendo resolvido, o que ocorrerá dentre em breve,  a Casa Grande continua com o dedo em riste, imagina so pobre sem fome, estudando... 

 

 

...spin

 

 

Pois é, a seca continua se repetindo. Em 2012, particularmente, ela foi gravíssima. Os saques, por sua vez, deixaram de ocorrer. Milagre? Não, proteção social garantida, especialmente, pelo Bolsa Família. Luiz Inácio Lula da Silva organizou a Caravana da Cidadania, propôs programas sociais e, como Presidente da República, implantou-os. E os brasileiros do Semiárido, se não ficaram livres da seca, diminuíram muito, mas muito mesmo, sua exposição á fome.

A Veja podia dar um olhada em seus arquivos de vez em quando, como fez com copetência o Alberto Porem Jr. Parabéns.

Por fim, muito melhor a garantia do direito à alimentação via cartão bancário, que impede o uso da cesta básica como cabresto político, tem administração facilitada, especialmente em aspectos logísticos, e faz o dinheiro circular no Semiárido, estimulando o comércio e a economia locais. 

 

Fantástico, fabuloso Alberto.

Essa matéria comparada com as do inicio deste ano sobre o mesmo tema, e com uma enorme diferença de que na época da artigo acima os riscos eram reais e nos de dias hoje os riscos são quase zero, demonstra a farsa da nossa imprensa, a sua parcialidade tendenciosa.

E há ainda os que acreditam, só pode ser por:

Sofisma: s.m. Raciocínio vicioso, aparentemente correto e concebido com a intenção de induzir em erro;ou.Paralogismo:  s.m. Raciocínio falso, feito de boa fé por falta de consciência de sua falsidade.

 

 Enquanto Bambi comia a  jornalista da globo, grande parte do povo não comia nada.

 Para aqueles que criticam a transposição do Rio São Francisco aí está mais uma justificativa, logicamente que as cisternas que o governo federal financiou ajudou muito, mas isso não era e não é ainda suficiente.

 E o padre que fez greve de fome contra a transposição que vá para aquele lugar que o diabo gosta

 

   Para uma injustiça durar basta apenas que os bons fiquem calados

No final, com que rapidez a Veja tirou a batata quente das mãos do FHC e passa até para as igrejas, ou seja, aos assistencialistas. Enquanto que no livro do Nassif "Cabeças de Planilha", o butin era distribuído aos que chegaram ao baú do tesouro.

 

 

Sou Nordestino, resido no Sudeste do País. 1998 foi a última grande seca no Nordeste em que a fome campeou. Me lembro bem, pois estava na Unicamp e até fui convidado para falar sobre o problema em uma faculdade Salesiana da Região.

Na cidade natal de minha mãe, Santo Antonio Salto da Onça, Distrito de Lagoa da Cobra, no RN, onde ela herdou uma casa de fazenda do âvô, recuperou, e hoje em dia anda muito por lá,  ela me conta que a seca está impondo às pessoas, para nao perder a criação, comprar uma caminhão de bagaço de cana no Litoral, pagando Hum mil reais. As pessoas se cotizam e compram.

A propósito, depois do Governo Lula, a região conseguiu cisterna, água encanada, luz elétrica, e os programas sociais, juntamente com a Aposentadoaria Rural livram o povo da fome. É bonito de ver a nova geração de nordestinos: crianças espertas, bonitas, muito distante do que Caetano canta em tropicália: "uma criança feia e morta estende a mão".

Antigamente as pessoas eram cheias de verminose, tomando água de açudes, barreiros, e tanques de lajeiro, (sem qualquer tratamento: o costume era coar a água num pano grosso de algodao para tirar a sujeira mais aparente), fazendo as necessidades no mato. Era comum as mulheres parirem mais de dez filhos, e só vingar a metade ou menos. As pessoas enterravam as crianças com menos de um ano em cemiterios improvisados, perto de casa, sem registro civil.

Nesta grande seca, não se houve relato de pessoas saqueando feiras, comendo calangos e preás, como se diz por lá. Depois, os "homens bons" não entenadem porque o nordestino vota em Lula

Eneuton

 

A reportagem inteira eh escrita com "empatia" falsissima, visivel a olho nu, a mesma falsissima empatia da reportagem da morte do estudante em Ouro Preto ha alguns meses atraz, que afirma sem afirmar pros sobreviventes nao esperarem ajuda de ninguem porque nao vai acontecer.

Mas o que me chamou atencao mesmo foi a descricao bobinha, preconceituosa, da palma!

Ora, chama se "nopales" no Mexico e eh uma delicia!  Nao compro porque nao tem em New Jersey, mas quando vou em NY sempre procuro.  (O La Paloma sempre tem e a comida deles eh quase mineira de tao simples e saborosa.)

 

Simples, né, Ivan? Só seguir a receitinha básica abaixo e poderão alimentar toda a família,  almoçando e jantando palma durante as longas estiagens:


Salada de palma ou Ensalada de nopales

"Aqueça um pouco de óleo numa frigideira antiaderente e frite um dente de alho picado. Junte a palma e refogue até secar a baba (se quiser, em vez de refogar, afervente em água com uma pitada de bicarbonato). Junte 1 pimentão vermelho picado, 1 cebola picada e 1 pimenta americana doce picada. Mexa bem, até amaciar a cebola. Desligue o fogo e espere esfriar. Junte sal, pimenta dedo-de-moça sem sementes picada, umas folhinhas de coentro (ou chicória-do-Pará - usei esta, picada), um galho de epazote (este tempero, usado no México em feijões e outros pratos, temos aqui com o nome de erva-de-santa-maria), suco de 1 limão siciliano e um pouco de azeite. Misture bem e espalhe por cima um pouco de queijo fresco. Decore com folhas de erva-de-santa-maria."


 

“Contra ratos não há argumentos.” (Palmério Dória)

Ivan, essa história de comer cactus mexicano está muito mal contada....

 

No pales for me, Evandro!  ;-)

 

Hoje, a Veja tem fome de fantasmas.

 

No mais, desculpe, não li a matéria. A Veja já era ruim na época e, ademais, esse tempo já passou em larga medida. Temos que avançar e, nesse momento, não tô afim de olhar para trás.