5 de setembro de 2026

Habemus jornalismo, por Luís Nassif

O episódio do suposto jornalista alvo de uma ação da PF, autorizada por Alexandre de Moraes, marca a volta do verdadeiro jornalismo
Reprodução

A imprensa brasileira dos anos 90 teve falta de contraponto e exageros, com impacto na Lava Jato e impeachment de Dilma.
Suposto jornalista foi pago para vazar dados sigilosos sobre Flávio Dino, revelando crimes e envolvimento da Polícia Federal.
Daniela Lima e Otávio Guedes representam o renascimento do jornalismo focado em fatos e credibilidade no Brasil.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Em toda a minha carreira jornalística, especialmente a partir dos anos 90, sempre me impressionou a falta de contraponto na imprensa. O país saía da ditadura e, a partir do impeachment de Fernando Collor, a imprensa descobriu sua musculatura e passou a exercitá-la a torto e a direito — muito mais a torto. Foi um período de grandes massacres e baixo esclarecimento.

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Relato vários episódios no meu livro “O Jornalismo dos anos 90”. É uma herança terrível, que se prolongou no tempo e atingiu seu auge na Lava Jato e no impeachment de Dilma Rousseff.

Afastei-me da mídia corporativa em meados dos anos 2000. Após o Mensalão, assisti, horrorizado, ao advento do “jornalismo de esgoto”, inaugurado pela Veja de Eurípedes Alcântara e Mário Sabino, e seguido pelos demais veículos. Era um massacre diário na notícia, o estímulo a esculachos contra ministros do Supremo que ousassem questionar minimamente o processo, além de uma perseguição feroz, com ataques inusitados contra jornalistas que também questionassem os absurdos praticados.

No pós-Lava Jato, esse clima persistiu, embora abrandado, nos anos seguintes. Agora, ainda restrito a um pequeno grupo, o jornalismo renasce em profissionais que passam, novamente, a encarar os fatos como essenciais à notícia.

O episódio do suposto jornalista alvo de uma ação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, marca explicitamente a volta do verdadeiro jornalismo, personificado em alguns poucos profissionais exponenciais — basicamente através das vozes de Daniela Lima e Otávio Guedes.

Os fatos — ora, os fatos — trazem uma história escabrosa que demonstra como a falta de discernimento generalizada transformou a imprensa em cúmplice de crimes hediondos.

Caiu nas mãos de Flávio Dino um inquérito sobre uma organização criminosa atuando no Maranhão, com a detenção de um dos membros. A represália foi pagar um suposto jornalista para vazar o roteiro dos familiares de Dino, expondo-os a todo tipo de risco. A PF descobriu que o suposto jornalista havia recebido R$ 100 mil para divulgar dados restritos aos órgãos de segurança. E chegou até o vazador-financiador.

Como um episódio desses pode ser tratado como atentado à liberdade de imprensa? E se houvesse o monitoramento das andanças de seus principais repórteres, como o fato seria analisado? Certamente como ameaça de atentado.

Bastou aparecer o nome de Alexandre de Moraes, no entanto, para o “efeito Pavlov” ser reverberado pelos Andreazza, pelas Malus e outros que instrumentalizam — que estupram — a notícia, adaptando-a a seu gosto político.

Por que, então, Daniela e Otávio ascenderam ao panteão dos grandes jornalistas brasileiros? Porque ousaram apostar nos fatos, nas notícias, sem o medo pânico da maioria dos colegas de desrespeitar as inclinações políticas dos jornais ou a ditadura da primeira versão. Tendo os fatos como garantia, ousaram investir contra o efeito manada que se alimenta da mediocridade.

Foi a aposta no próprio talento que fez Daniela Lima ser demitida da Globonews, talvez o maior erro jornalístico da emissora em muitas décadas. Demitida, manteve seus valores e foi aproveitada por dois veículos relevantes: o UOL e a Transamérica.

No UOL, Luiz Frias seguiu o exemplo do pai na Folha dos anos 90. Para ampliar a audiência — e, principalmente, ganhar respeitabilidade — apostou na diversidade. Contratou jornalistas independentes, liberais e conservadores, e abriu espaço. Gradativamente, foi se dando conta de que o nicho a ser conquistado estava entre o público ávido por objetividade e respeito aos fatos. Os liberais ganharam a primeira página enquanto houver demanda, mas garantiu-se a manchete para os fatos durante o período da tarde.

Por outro lado, depois de perceber o erro da demissão de Daniela, a Globonews passou a apostar em Otávio Guedes, permitindo, enfim, que o grande jornalista que havia nele se realizasse.

Custosamente, as empresas começam a se dar conta de que não são uma mera adaptação do estilo “caça-likes” das redes sociais. Seu público exige aprofundamento e, principalmente, credibilidade. Vender credibilidade é o que legitima o modelo comercial. E credibilidade não se conquista com o “jornalismo-sela”, a serviço de vazadores da polícia, mas com a crítica consistente a esse tipo de prática.

Ontem à noite, o Jornal Nacional entrou no tema, dando a palavra ao ministro Flávio Dino e endossando a versão correta: a de que o sigilo de fonte não pode ser instrumento para esconder crimes.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Paulo Dantas

    15 de agosto de 2026 8:23 am

    O Reinaldo Azevedo , sei que este site restrições a ele, também falou que não era sigilo de fonte.

    Mas vi imprensa acender vela para mau defunto.

  2. emerson57

    15 de agosto de 2026 10:11 am

    Procurado rémundo não atendeu a reportagem.
    Tinha ido ao salão PINTAR OS CABELOS!

  3. JUZÉ.BYD

    15 de agosto de 2026 10:53 am

    Ora pro nobis akakakakaka !!! Obs.:Nassif vc rompeu com aquele modelo de jornalismo e só agora q fico sabendo, aff precisa ser mais explícito na linguagem de comunicação mesmo.q esteja claro nos.artigos ,hj em dia estamos vendo algo.sem perceber o q é meio.viajando na maionese mas se alguém der um tranco no nosso carro.veio ele vai q vai AFF !!!

  4. Antônio

    15 de agosto de 2026 11:44 am

    A Malu Gaspar faz parte do nicho de apologistas e alimentadores do flanco midiático da Farsa-Jato de Moro e seus comparsas. Aparentemente aceitou a missão dos donos da Globo de tentar ressuscitar o método às vésperas da eleição. Não em favor de Flávio Bolsonaro, mas contra Lula, na expectativa de que um Caiado ou Zema da vida se habilitasse ao segundo turno. Em um contexto em que Globo, Folha, Estadão, Veja et caterva são, antes de mais nada, empresas, é preciso responder a uma pergunta simples: qual o interesse da Globo em atacar o STF, especialmente Moraes e Dino? Há alguma relação comercial entre Globo e Vorcaro? A ideia é dar à investigação sobre o Master o mesmo destino que teve a Farsajato, qual seja, a anulação de vários processos, todos viciados?

  5. Evandro Condé

    15 de agosto de 2026 12:42 pm

    Gosto do Guedes, mas at´´e hoje num silencio gritante sobre o PP da Sadi.

  6. Evandro Condé

    15 de agosto de 2026 12:44 pm

    E complementando, se ha jornalismo, pq o silencio em torno do suicidio do Sicario?

  7. Marcos Vinicius

    15 de agosto de 2026 3:53 pm

    Estava outro dia comentando com uma pessoa – jamais li o Estadão online por exemplo – li o jornal impresso apenas duas vezes para uma pesquisa em 2009. Fui assinante de um único jornal (Jornal do Commercio do Rio de Janeiro – assinei por um semestre (2012), pois depois os executivos do jornal abriram o conteúdo para quem não era assinante no ano seguinte 2013). A única revista que li mais tempo do Grupo Globo, foi a revista Época (Paulo Guedes tinha uma coluna lá naquele período – por aí você deduz o que era…). Da tv de notícias paga (quando eu tinha – não tenho mais) era só BandNews – GloboNews para um ou outro programa (Chico Pinheiro estava ainda nessa época no canal – faz tempo). G1 não perco meu tempo. O Globo nem passo perto (impresso e nem digital). Hoje só leio UOL para as grandes notícias (UOL que passei a ler efetivamente em 2020 – antes nem entrava no portal!) – leio GGN (sempre), Monitor Mercantil, Diário Comercial (Rio de Janeiro) e um ou outro fora do eixo Rio-São Paulo. É assustador pensar que da grande imprensa sobrou somente as marcas do Grupo Folha como catalizadoras da informação, análise e do contraponto – não sei quanto tempo isso vai durar, mas o UOL tem o lado positivo que obriga o leitor a ler notícias que nós não leríamos habitualmente – mas é um processo que vem tarde hoje em dia – bem tarde – esse equilíbrio deveria ter sido base de qualquer jornal/TV/rádio como negócio desde o princípio. No geral, o jornalismo brasileiro só piorou, a concorrência sadia entre elas sumiu e isso só mostrou o quão são ruins os executivos, administradores e diretores desses grandes grupos de comunicação.

  8. Antonio Carlos Guimarães de Sousa Pinto

    16 de agosto de 2026 8:44 am

    Caro Nassif, respeito muito a Daniela Lima e o Otávio Guedes, porém, dentre outros que se posicionaram corretamente a respeito dessa falsa celeuma quanto a “liberdade de imprensa”, destaco o jornalista Jânio de Freitas, decano da imprensa escrita brasileira, que do alto dos seus mais de 90 anos mantém a dignidade do jornalismo, ainda que escanteado em um site de direita travestido de pluralista. Segue o texto escrito por ele: https://www.poder360.com.br/opiniao/ca-entre-nos/

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