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O regime de dedicação exclusiva nas universidades

Do Acerto de Contas

A Dedicação Exclusiva perdeu o sentido nas Universidades

Por Pierre Lucena

No sistema universitário brasileiro temos três opções de regime de trabalho para os professores, em número de horas semanais: 20 horas, 40 horas sem Dedicação Exclusiva e 40 horas com Dedicação Exclusiva.

A prática (e também a regra formal) seria a seguinte:

20 horas: o professor ministra duas turmas de 60 horas por semestre. Normalmente é exigida apenas a sua presença na sala de aula e em reuniões oficiais de departamento.
40 horas sem Dedicação Exclusiva: o professor ministra 4 turmas (ou 2 mais a pesquisa). Na grande maioria dos casos no máximo é dado 3 turmas ao docente que não faz pesquisa, e a exigência é a mesma do professor 20 horas.
40 horas com Dedicação Exclusiva: a carga de trabalho é a mesma do 40 horas sem DE, mas não é permitido a este o acúmulo de qualquer outro emprego ou atividade remunerada contínua.

Na prática o regime de 40 horas sem DE praticamente morreu nas Universidades. A grande maioria hoje é de professores em Dedicação Exclusiva, e em muitos casos de 20 horas.

Mas aí está o problema.

A Dedicação Exclusiva supõe que o professor não tenha nenhuma atividade além da Universidade. Se você ler com atenção o Estatuto do do Funcionalismo Público, vai perceber que qualquer outra atividade remunerada, mesmo que esporádica, fere a legislação. Na prática isso caiu porque as próprias universidades criaram algumas legislações paralelas regulamentando. A própria UFPE criou a sua, anacrônica, é verdade, mas que sinaliza que o professor pode ao menos discutir juridicamente a sua participação em outras atividades.

O principal objetivo da DE é o de criar um grupo majoritário de pessoas comprometidas com a instituição, mas a experiência mostra que isso não funcionou. Ainda não entenderam que muito mais eficiente do que proibir o docente de exercer outra atividade é criar um ambiente acadêmico adequado à prática do exercício do ensino e da pesquisa. Quando fiz meu doutorado na PUC-Rio pude perceber isso. Lá o professor não tem a DE, mas todo mundo acaba trabalhando e passando o dia na Universidade. Lá era possível vivenciar o que o ambiente acadêmico tem de melhor: os debates.

Na prática a Dedicação Exclusiva nas Ifes virou letra morta. A grande maioria dos docentes fere a Dedicação Exclusiva de alguma forma, seja através de palestras remuneradas, em aulas em pós-graduações pagas (na própria universidade) ou em consultorias, etc. Isso tudo é aceito pelos pares. O que não é aceito se restringe a ser professor de graduação de uma outra Ifes. Neste caso diversas punições já foram verificadas.

E quem está errado?

Obviamente a legislação está equivocada. Em muitas áreas é preciso romper a Dedicação Exclusiva porque a prática profissional é essencial para exercer a docência.

A motivação em muitos casos nem seria a questão salarial, que aumenta com a Dedicação Exclusiva (há uma gratificação), mas caso o professor opte por ficar em regime de 20 horas semanais ele fica impedido de participar como membro efetivo da pós-graduação.

Em uma universidade 100% formal no cumprimento do regime, diversas pós-graduações seriam fechadas ou ficariam mancas na sua formação. Teríamos um mestrado em Direito onde os professores nunca advogaram, ou então um Doutorado em administração onde os docentes nunca administraram nem um carrinho de pipoca. Ou ainda um mestrado de engenharia civil com professores que nunca colocaram uma laje sequer.

É preciso entender que em uma universidade temos uma enorme diversidade entre áreas e entre pessoas. Então precisamos dar certa flexibilidade para que as suas unidades optem por seguir o caminho que melhor se adaptem às suas necessidades. O grande erro é pensar que seu microcosmo universitário se adapta para todo o sistema. As necessidades e a realidade de um centro de ciências humanas é completamente diferente de um centro de tecnologia e informática, que é ainda mais diferente de um centro de saúde.

Para piorar, como o salário está ruim (para quem realmente trabalha), a DE ficou completamente contraproducente. Com um salário bruto médio de menos de R$ 8 mil (menos de R$ 6 mil líquidos), ficou impossível para a Universidade exigir 100% de exclusividade dos seus docentes. Pelo menos dos que possuem outras oportunidades.

Isso porque nem falei do excesso de papelada e burocracia que o professor é obrigado a suportar. Dezenas de pareceres inúteis são solicitados a estes todos os anos, sem que nada de produtivo saia daí. Mas isso é assunto para outro post.

Neste sistema irreal, o que aconteceu foi o abandono dos mais competentes da exclusividade do regime da DE. Nisso incluo aqueles que fazem uma ou outra atividade esporádica remunerada (como as aulas remuneradas das pós-graduações).

A parte da Universidade que não sobrevive a meia hora de mercado (e falo mercado a qualquer outro emprego) fica pelos corredores, enfiada nas fofocas e intrigas departamentais. Estes docentes normalmente se escalpelam em busca de uma gratificação nas reitorias. Normalmente são péssimos professores e passam a vida sem publicar nada de relevante.

O resultado disso é a enorme incompetência gerencial que tomou conta das instituições, que inclusive escanteiam seus técnicos-administrativos que teoricamente deveriam ser responsáveis pelas atividades-meio.

O outro efeito colateral disso está nas atividades de coordenação de curso ou nas chefias de departamento, cuja gratificação é ridícula (R$ 700,00 bruto por mês). Via de regra professores recém–contratados assumem estes cargos sem ter a menor condição acadêmica e prestígio necessários para a cobrança de resultado junto aos colegas. Já cheguei a ver no Centro de Artes e Comunicação da UFPE um Chefe de Departamento cujo subordinado era seu orientador de doutorado. No mínimo uma relação conflitante.

Todo este texto era apenas a argumentação necessária de que é preciso flexibilizar o regime de trabalho dos docentes. Não há sentido deixar um professor produtivo e com relevância social de fora das pós-graduações (caso ele vá para 20 horas).

A melhor saída neste caso é deixar o professor alterar seu regime de trabalho de acordo com as necessidades momentâneas. O próprio Governo Federal já sinalizou neste sentido anos atrás.

Em outras palavras e dando um exemplo, caso o docente vá participar de um projeto de 2 anos, que ele possa passar para 40 horas revertendo a DE ao final deste sem ter que pedir favor a ninguém, ou mesmo ter que fazer política junto aos colegas de departamento. Isso é positivo para o ensino e a pesquisa, para a universidade e também para o docente.

Do jeito que está acaba-se partindo para a desmoralização da legislação e ainda se premia a incompetência.

Sem citar nomes, porque são pessoas que trabalham comigo, gostaria de falar de dois casos.

O primeiro é de um professor que declaradamente rompe a DE. Apesar de sua extensa atividade externa, ele não falta a uma aula sequer, é um dos que mais publicam no seu departamento e também é conhecido por dar uma excelente aula. O segundo é um docente que cumpre a DE e anda pelos corredores o tempo todo. Não produz nada e ainda é conhecido como um péssimo professor. Um dos motivos pelos quais é odiado pelos alunos é por suas constantes faltas.

Qual dos dois é melhor para a Universidade?

Não tenho dúvidas em responder que prefiro o primeiro. O resultado do segundo é apenas desagregar e propagar a incompetência.

Muito melhor do que exercer papel de xerife de comportamentos é cobrar resultados.

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Rodrigo Campos

Achei o texto e debate

Achei o texto e debate importante e interessante. Acredito que a liberdade de escolha deve ser pensada em prol do bem comum, da universidade, da comunidade, do governo, do indivíduo e das especifidades de cada área. Eu tenho uma visão, talvez um pouco fora de moda nos círculos acadêmicos, de que prática e teoria devem andar juntas em algumas áreas, especialmente as aplicadas, como a minha. E também vejo que parcerias entre a aproximação Universidade e Setor Privado é essêncial para alavancar o desenvolvimento tecnológico, tal apregoado, mas distante da realidade Brasileira. Algumas áreas são mais teóricas e nelas podemos manter uma maior distânciamento. As ciências aplicadas as coisas são diferentes. Acredito que uma maior flexibilização na momento de dedicação exclusiva pé essêncial. Como apaixonado pela ciência, estou indo para uma Universidade Federal com o intuito de trabalhar duro para desenvolver a ciência em minha área. Mas sinto muito medo de me distanciar da prática da minha profissão. Mas isso é minha opinião: aqueles que desejam atuar somente nas áreas mais conceituais terão todo meu apoio (às vezes também gosto de me ver pensando como pesquisador/professor puramente dedicado a debates e reflexões teóricas). Sem dúvida, não havendo possibilidades departamentais, ao fim do estágio probatório deixarei o regime de dedicação exclusiva para poder continuar em um programa de pós graduação de alto nível, minha paixão e retorno fundamental ao desenvolvimento humano do país, lecionando na graduação e pós graduação stricto sensu, bem como atuando com pesquisas mais "puras". Mas ao mesmo tempo quero mesclsar atividades profissionais, de consultoria e pesquisa aplicada, quiçá correlatas a minha prática, buscando fomentar o desenvolvimento tecnológico do país.

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+43 comentários

Olá,

Excelente texto, parabéns! Sou Professor RDE e estou com medo de realizar uma atividade externa esporádica. Como eles podem descobrir? Os referidos professores que você citou nunca tiveram problemas? eles recebem de fontes externas com IR, INSS (se for o caso) etc... ?

Abaços,

Fábio

 

Gostaria de tirar uma dúvida:


Hoje atuo numa empresa privada sob o regime de 44h/semana, mas passei num concurso público para professor que é de 40 h semanais sem DE. Existe alguma impossibilidade de assumir o cargo e continuar trabalhando na empresa privada?


 


Grata,


Lucila

 

Na minha profissão (odontologia)  a parte prática é fundamental nos cursos de graduação e pós-graduação e infelizmente um prof. que não coloca a "mão na boca dos outros" não sabe nada e portanto não tem condições de dar aulas práticas e consequentemente teóricas também, pois nã tem condições de associar uma a outra. A Universidade federal a que leciono não disponibilisa o regime de 40hs sem DE para ninguém, a não ser uma minoria que tem que lançar mão de manobras políticas para conseguir. Na minha opinião este regime (40 hs sem DE) deveria ser ofertado para quem quizer, pois somente assim acabaríamos com esta falsidade dos profissionais trabalharem escondidos e os professores realmente DE, aqueles que tem até "cama na escola", vivem exclusivamente de pós-graduação e não contribuem nada com a graduação  parem de se sentir como seres superiores e donos da verdade.

 

Nunca que o Brasil teve universidade pública, fora raras exceções, são grupelhos que mando e desmando ao seu gosto.


 


============

ENTIDADE FAZ CURSO COM CONDENADO POR PLÁGIO


http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=78939


http://www.rc.unesp.br/ib/dta/Portarias2008/Pt025-2008.doc


 


http://cienciabrasil.blogspot.com/2011/07/um-recado-que-acabo-de-receber-de-um.html


 

 

Realmente não entendi o sentido do texto: o que ele quer? Trabalhar na Universidade Privada e também na Pública?  Já pode, basta não ser DE.

Ele acha que a Pública paga pouco? Fique na Privada.

Ah, ele quer que a Pública pague mais? Qual a novidade?

Não, ele quer o salário de DE hoje e poder ganhar ainda mais na Privada. Pra onde é que iria a pesquisa então? Ou alguém acha que algum abnegado faria pesquisa podendo ganhar bem mais na Privada? Ou pior: alguém acha que algum DE, trabalharia também na Privada e ainda faria pesquisa?

Não, ele quer livrar a universidade dos docentes medíocres. Qual a novidade? Permitindo acabar com a pesquisa?

Acho que realmente não entendi o texto.

 

O problema não é só ter ou não outra fonte de renda, mas é que juntamente com o 2º emprego vem o absenteísmo, facilitado pelo corporativismo (tão forte quanto à dos médicos) e pela complexidade para se realizar punições disciplinares no serviço público.

 

Não quer DE, vá dar aula numa universidade particular então, já que aí você encontra "liberdade".

Essa história de dizer que a DE fomenta professores/pesquisadores medíocres é tosca. A mediocridade diz respeito ao caráter.

É claro que há professores ruins, assim como há médicos, advogados, engenheiros, juízes, etc etc etc. Sempre a generalização....

Dentro dessa lógica de aumentar o salário fora da universidade, o que os professores de Humanas vão fazer? O que eu, como futuro professor de literatura, devo fazer? Procurar a Petrobrás, a GM ou o Itaú com um projeto de análise da poesia dos anos 70, por exemplo?

Dentro da lógica exposta aqui, não há lugar para projetos que não sejam voltados ao lucro (da empresa que patrocina e do professor que quer aumentar o salário).

Se a universidade pública não pode esquecer o mercado (já que as indústrias brasileiras não fazem pesquisa), não pode, por outro lado, transformar o mercado em sua única razão de existir.

Queremos formar pessoas interessadas apenas em ganhar dinheiro ou pessoas interessadas com o mundo?

Pela ojeriza do texto ao aspecto político interior à universidade, a resposta só pode ser a primeira.

Então podemos fechar as universidades e deixar que o mercado "resolva".

 

Varios aspectos do texto merecem reflexão: Apenas alguns que me ocorreram:                                      1) O "bom" professor, referido no texto, que viola a DE, deve ser punido no rigor da lei. Ele pode fazer este trabalho externo e trazer recursos para a universidade. Ha casos de professores que fazem trabalhos externos e usam a aula apenas para autopromoção (alunos são futuros clientes).                     2) As metas de produtividade (publicações) tem resultado numa verdadeira poluição da informação.      3) A sociedade tem de participar da universidade de sua regiao cobrando beneficios que resultem em melhoria da qualidade de vida - inovação, incorporação de novas ideias, mudança de cultura,....             4) O vinculo com empresas privadas não necessariamente, em muitas situações surge o conflito de interesses, defesa da sociedade (papel da universidade publica) e omissão frente a condutas questionaveis da empresa (preservação ambiental, produtoxsaude),... em virtude de vantagens pecuniarias propiciadas ao professor pela empresa.  Como professor fico feliz com este debate.

 

Dedicação exclusiva não faz o menor sentido. Percentuamente é um aumento muito grande em troca de um compromisso muito vago de não trabalhar em nenhum outro lugar, só na sua atividade docente universitária. É fundamental que haja o compromisso de fazer algo a mais em troca da remuneração.  Seria mais racional remunerar em troca de coisas concretas como uma pesquisa ou mesmo a elaboração e a ministração de uma nova disciplina. 

 

Prezado Nassif: a pesar da competencia da sua análise, me parece que "o buraco está mais embaixo". As agências de fomento são parte fundamental do sucateamento do ensino universitario, promovendo atividades que são usadas para inchar os C. Lattes. Assim, fazemos congresos com multidão de acadêmicos afobados apresentando trabalhos em 10 ou 15 minutos, a quatro gatos pingados, pouco ou nada ouvindo os dos colegas. A leitura posterior dos trabalhos, que compensaria tanto dinheiro e esforço, tb não ocorre, pois a publicação acontece em CDs de leitura difícil e esquecida no traquejo diário. No ùltimo destes encontro do qual participei, todos os CDs estavam com defeito, e nunca consegui ter uma cópia legível. A obrigação de pesquisar, própria aos docentes DE, gera produção de lixo acadêmico que, quando o resultado não interessa ao/s autor/es é jogado fora sem mais explicações do que um "Seminario de Pesquisa" no qual se fala qquer coisa para somar pontinhos Lattes e aprovação das agências. A ditadura Lattes/CNPq ainda finge que avalia qualidade, que, realizada corporativamente e quantitativamente, vira piada.... não sei como seria modificar isto... falta honestidade e dedicação, coisa que já vi ocorrer antes da estrutura atual. O mesmo salário, baixo para quem trabalha a sério, é altíssimo para quem encara o ensino como "emprego público" e o que ele conota éticamente...

 

 

Por isto sou contra congressos presenciais. Tim Berners-Lee criou a Web para troca de informações em Ciências. É a melhor ferramenta para o debate científico. Entre outras vantagens,

  1. os artigos ficam disponíveis ao público,
  2. as intervenções não são verbais, são escritas e ficam registradas,
  3. as colaborações podem ser pensadas antes de serem enviadas,
  4. as pessoas podem participar de quantos grupos de trabalho quiserem pois não há sincronicidade.

Mas os pesquisadores adoram o turismo acadêmico sob o discutível argumento de que "nada melhor que o contato pessoal".

 

Para resumir e colocar o dedo na ferida de vez.

A maioria dos cargos públicos (federal, estadual e municipal), são apenas "bicos" para muitos servidores públicos que possuem complementação da remuneração na iniciativa privada.

Como resolver isto?

- Aumento de salário não vai resolver (a maioria dos servidores que estão nesta situação recebem bons salários)

- Demissão voluntária ou forçada?

- Acho que o pagamento por produtividade é a melhor forma de remuneração (nos municípios é mais fácil de implementar).

...........

 

Dando liberdade aos professores de ir atrás de complementos, desde que afetos ao planos de trabalho da dedicação exclusiva, (aprovado no contrato de trabalho) seria a forma mais adequada na universidade, amplamente praticada em países que são campeões da inovação...

 

Joaquim Aragão

Concordo, mas aí não tem DE.

 

Nas universidades particulares, 5 turmas e sem choro, mesmo com atividades de pesquisa, quando há. Os que têm apenas 20 horas, são profissionais que fazem bico dando aula. Muitas vezes esses são os melhores pois eles dão aulas que tem a ver com a atividade profissional deles e daí que vem a teoria, e a prática, juntas. Geralmente os alunos saem ganhando.

 

Deve ser por isso que as faculdades particulares dão um banho de qualidade nas públicas, não é?

 

As faculdades privadas não dão um banho nas públicas na maioria esmagadora das vezes por causa de sesus alunos que são péssimos (nao há seleção, o vestibular das privadas é uma piada).

A única coisa que ainda vem salvando a universidade pública nas avaliações, é o fato de que os melhores alunos conseguem estudar nela através da rigorosa seleção.

No geral, as privadas têm melhores docentes e melhor estrutura, mas seu corpo discente é muito ruim em comparação com as públicas que selecionam melhor o estudante, ainda).

Aqui na minha cidade é exatamente assim.

 

Só para fazer informação. Você fez sua graduação em qual? provada ou pública? Qual o curso. O que sei  é que os professores das privadas na nossa região foram, em sua maioria nossos alunos, não desmerecendo, mas ainda falta formação para ensinar pontos mais complexos. E, normalmente quando terminam um doutorado, fazem concurso para as Federais.

 

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. De fato, as universidades públicas se beneficiam com o ingresso de estudantes em principio mais preparados. Mas dizer que as universidades privadas têm melhor estrutura é meio exagerado, nao? A começar pela estrutura que (não) dão aos docentes. Os professores das escolas privadas precisam, de fato, matar um leão por semestre (os contratos sao refeitos a cada 6 meses), encarar turmas enormes e muitas horas. Tenho orientandos que trabalharam ou trabalharam em escolas privadas - e outros que trabalham em escolas públicas. O sonho dos que trabalham nas escolas privadas é trabalhar na pública, onde em geral tem mais oportunidade de participar de grupos de pesquisa, participar de eventos científicos, etc. De qualquer modo, o tempo todo, nestes posts, está-se discutindo a carreira do 'professor' sem perceber que, de fato, temos duas carreiras, a do professor e a do pesquisador (ou professor-pesquisador). As duas coisas nem sempre coincidem na mesma pessoa. E, alem disso, por vezes falamos de professor de universidade sem perceber que falamos de professor de ensino superior - e as duas coisas não são necessariamente a mesma coisa. Universidade é mais do que ensino superior - e tem (muito) ensino superior que não se faz em universidade.

 

Moro em Teresina.

Aqui é como eu disse: as faculdades privadas têm melhor estrutura e corpo discente que as universidades públicas (estadual e federal).


Lógico que nem todas as faculdades privadas daqui são boas, mas afirmo tranquilamente que em relação ao ensino superior a melhor estrutura é das entidades particulares.

O interessante é que quando saem o resultados das avaliações, as públicas sempre estão na frente.

Daí os reitores das duas instituições vão na TV, rádio etc se vangloriar, falar no "trabalho realizado", nas "condições ofertadas" ao estudante, PURA BALELA!

Eles omitem o principal fator que leva ao resultado: a forte seleção para entrada dos alunos nas IES públicas.

Eu sou oriundo da universidade pública estadual e falo sem pestanejar que praticamente tudo que sei em relação à minha profissão foi conseguido FORA do ambiente universitário (através de estágios e por minha conta própria adquirindo livros e estudando só).

Tive péssimos professores (com raríssimas exceções), a maioria deles improvisados, estrutura pífia (goteiras, cadeiras quebradas etc), sequer uma biblioteca decente nós tivemos.

Para mim a universidade serviu quase que exclusivamente para ter o diploma, nada mais.

Não que eu procurasse isso ou nao quisesse reconhecer a importância da instituição (ainda hoje lembro da emoção que senti ao ser aprovado no vestibular na universidade pública).

Infelizmente essa foi a realidade que se apresentou ao longo do meu curso, que terminei em 2007.

Obs.: Hipoteticamente, o melhor seria colocar os alunos da rede pública de ensino superior nas faculdades particulares boas.

Eles se encaixariam muito bem.

 

**Aqui é como eu disse: as faculdades privadas têm melhor estrutura e corpo DOCENTE que as universidades públicas (estadual e federal).

 

Sou professor da Universidade Federal do Ceará e tenho vários colegas quejá trabalharam em universidades privadas, nas melhores do estado e até alguns dentre as melhores do país. Curiosoamente, nenhum deles têm essa opinião. Todos têm dito justamente o contrário. Na maioria dos casos, a qualidade dos docentes, a estrutura dos laboratórios e condições de trabalho nas privadas são bem inferiores, pelo menos quando comparadas com as federais.

 

"O principal objetivo da DE é o de criar um grupo majoritário de pessoas comprometidas com a instituição, mas a experiência mostra que isso não funcionou."

Não funcionou aonde, nas universidades de Jupter e no terceiro mundo né? Porque nas universidades importantes dos países que importam (EUA, UK, França, Japão, Alemanha) o regime é igualmente de dedicação exclusiva, o que muda é que o fulano tem direito a uma série de outras fontes de remuneração através de sua pesquisa por exemplo, que não tem no Brasil.

"O primeiro é de um professor que declaradamente rompe a DE. Apesar de sua extensa atividade externa, ele não falta a uma aula sequer, é um dos que mais publicam no seu departamento e também é conhecido por dar uma excelente aula. O segundo é um docente que cumpre a DE e anda pelos corredores o tempo todo. Não produz nada e ainda é conhecido como um péssimo professor. Um dos motivos pelos quais é odiado pelos alunos é por suas constantes faltas."

Não dá pra defender a diversidade dentro dos departamentos e institutos como faz noutra parte do texto e nessa mostrar que só se enxerga dois estereótipos. E o professor que é um baita pesquisador e péssimo professor e não exerce nenhuma atividade extra? E o professor que é bom nos dois (pesquisa e aula) e não exerce nenhuma atividade extra? Bom, eu tive dezenas assim, e a UFPE deve ter também.

Sabe o que vai acontecer se alguém resolver dar ouvidos a essa idéia? As "atividades extras" dos professores vai passar a ser dar dezenas de aulas semanas nos colejões de ensino superior pelo país, e a pesquisa que se amanhe. Porque vai ser difícil manter um bom professor pesquisando nas UFs com o colega de porta, que não pesquisa, com o salário 3 vezes maior vindo dos colejões.

Sabe o que revoluciona pela positiva a carreira de professor pesquisador? Uma carreira de verdade, aonde não exista mais a vaca sagrada da estabilidade, aonde o professor de UF não seja regido pelo mesmo estatuto de um funcionário qualquer de uma repartição pública qualquer, e que demissões sejam decididas majoritariamente pela aplicação na pesquisa e formação. Os bons professores e pesquisadores (insisto, a grande maioria aonde eu estudei) teriam instrumentos para demitir os tais professores medíocres que menciona. É assim em todas as universidades que importam nos países que importam. Teríamos enfim uma carreira com perfil internacional. E é evidente que isso daria moral e legitimidade para que se exigisse também salários internacionais.

 

Chato Feliz,

Nos EUA e no Reino Unido, o professor tem estabilidade sim senhor! É a chamada tenure, que existe justamente para que o docente possa exercer sua liberdade de expressão sem temer represálias. E, pelo menos nos EUA , esta estabilidade é adquirida após uma espécie de probatório, onde são analisados o desempenho científico e a capacidade de captação de recursos do docente. E, salvo engano, se ele não conseguir a tenure, pode ficar apenas mais um ano na instituição (era assim onde eu fiz meu pós-doc e eu testemunhei um caso destes).

 

Acho que entendemos coisas diferentes por "estabilidade". Um professor americano, até mesmo o catedrático, pode ser demitido por incompetência, com processos administrativos simples. No Brasil não. Um fulano após os 3 anos de probatório que não quer mais pesquisar e só quer dar aula (o mínimo possível) tem mesmo assim o resto da sua carreira garantida. Como o próprio texto descreve, vão fazer política universitária (é a máxima brasileira: seus melhores alunos serão seus competidores e seus piores serão seus chefes). É quase impossível demití-lo, há raríssimos casos de demissões nas UFs e são sempre por razões das mais bizarras. Isso não acontece nem nos EUA nem no Reino Unido. O professor lá é protegido por outras coisas, mas jamais por incompetência.

 

Eu nunca ouvi falar de professor com tenure demitido! Nem mesmo um professor do Colorado, que em 2004 disse que o 911 foi justo, foi demitido. O governador republicano quis a todo custo demiti-lo, mas nada pôde fazer...

 

http://en.wikipedia.org/wiki/Tenure_(academic)#Academic_tenure

O tenure a que você se refere aplica-se a pouquíssimos professores e apenas aos que se destacam bastante dos demais. A grande maioria nos departamentos não tem, incluindo muitos catedráticos, a maioria diria eu. Eu conheço pessoalmente catedráticos em universidades americanas (pessoas com currículos fantásticos, com trabalho de excelente nível publicado, com fator H de prêmio nobel) que não tem estabilidade nenhuma, e falam disso abertamente. É parar de produzir e ser convidado a sair. Nunca um professor com 3 anos de profissão, como no Brasil, tem algo assim, só pessoas com uma capacidade estratosférica e transbordante pra conseguir isso nas condições que qualquer um no Brasil consegue. A grande maioria aliás não terá nunca, vai se aposentar sem essa estabilidade. 

 

convivi numa universidade que tinha pessoas não portadoras de Nobel e havia tenure position. O diretor da faculdade, no entanto, não era tenure, e foi demitido da noite para o dia.

 

O próprio verbete que indicaste contradiz parte do que disseste... Docente com produção de prêmio Nobel sem tenure, só se for numa Harvard ou Cal Tech, porque via de regra ele teria conquistado a tenure. Mas é verdade que a tendẽncia é que esta modalidade acabe...

 

Não entendi uma coisa: o professor não é obrigado a ter vínculo com Dedicação Exclusiva. Ao optar por receber com DE, ele sabe que é para remunerar melhor quem se dedica exclusivamente ao serviço público. Se ele quer ter outra atividade, pode escolher 40 fhoras sem DE. Se a remuneração é baixa, é outro problema.

 

Luciano, o problema ao que me parece, é que o regime de 20 horas é quase uma exeção (poucos concursos para este perfil) e o de 40 horas também é considerado regime de execeção (pelo menos na minha faculdade - FM -UFMG)

 

Aqui em Direito na UFBA a regra é concurso para 20 e 40horas, DE é raríssimo.

 

Luciano,

Não é bem assim. Os concursos já são no regime de DE e mesmo que queira mudar, o docente tem que aguardar acabar o estágio probatório para fazê-lo.

 

A vinculação do termo de dedicação exclusiva à ausência de outras atividades remuneradas é ilógica e desfuncional. Se o professor DE realizar e ganhar recursos, sob forma de bolsa, pró-labore ou outros, em virtude de um projeto que diz diretamente respeito à sua linha de pesquisa, sobretudo se esse projeto foi aprovado pelas instâncias universitárias, ele não pode ser acusado de furar o DE. Além disso, essa exigência é profundamente danosa ao interesse nacional.

Primeiramente, fica impossível realizar pesquisas que não sejam meras compilações de literatura teórica, sem coleta de dados empíricos, que só esses projetos contratados ou conveniados são capazes de aportar.

Entretanto, a formulação, execução e gerenciamento de tais projetos exigem grande esforço e sacrifício do profissional, que ele não poderá assumir sem remuneração extra: afinal, é a saúde e o tempo de convivência com a família que estão sendo sacrificados, e esta última irá exigir justa compensação, ou simplesmente impedirá a participação do profissional em atividades desse tipo.

Em segundo lugar, requerer que profissionais altamente qualificados (doutorado, pós-doutoramentos, publicações em revistas internacionais) se contentem com os atuais salários baixos, enquanto que meninas e meninos espertos mas recém-formados que conseguem passar por concursos nos altos tribunais e ministérios públicos iniciam a carreira ganhando mais de 20 mil reais, foge do bom-senso.

Por outro lado, pagar diretamente aos professores salários de altos magistrados pode levar à improdutividade dos primeiros, pois eles não precisarão batalhar por receitas adicionais, algo que eles têm capacidade de fazer dada a sua capacitação e competitividade para atrair projetos (capacitação essa, por sinal, financiada pelo contribuinte, que necessita o devido retorno).

Ou seja, a liberdade dos professores DE de buscar recursos no âmbito de sua linha de pesquisa e atividade didática traz duas vantagens para o país: incentiva a busca de projetos e a própria inovação do setor produtivo nacional, e atenua a pressão por melhorias salariais na universidade.

Há, inclusive, circulando no Governo Federal, um projeto de reforma que admite que professores DE possam buscar complementos salariais por projetos, até o valor do salário do Presidente da República. Nada mais justo e benéfico para a economia e o desenvolvimento do País. Porque, então, a demora???

 

 

Joaquim Aragão

E esqueci de falar do comprometimento...

Os doutores-professores adoram (sic) dar aula, parece que estão pagando para ensinar nós, alunos... e pagando caro...

Geralmente os mestres são melhores professores, porque estão mais comprometidos em aprender a prática e as manhas da docência que ainda não possuem.

Sâo bem mais preocupados com que os alunos aprendam.

No departamento no qual estudo, com exceção de um ou outro, os professores (diria que são uns 90% de doutores) não passam de uns egocêntricos que não dão a mínima para os alunos, desrepeitam as normas das universidades no que tange à provas, trabalhos e até mesmo presença, entre outras coisas...

Eu sei que isso não justifica os baixos salários (sic), já que o salário de um profissional público é pago pelo que ele deveria fazer e não pelo que ele faz na prática no dia-a-dia...

 

Não sei que avaliação de docentes você está utilizando para fazer uma afirmação tão grosseiramente genérica sobre os professores doutores. Minha avaliação sempre foi positiva. Se há doutores ruins, deve também haver mestres ruins. Não é o título que define a seriedade e sim o caráter de cada um...

 

Joaquim Aragão

Não disse que os doutores são ruins. Como doutores são excelentes, como docentes, são péssimos.

Na universidade aonde estudo, no departamento aonde estudo e alguns outros de exatas que conheço (Matemática, Estatística, etc) os doutores estão se lixando para os alunos, ligam apenas para suas pesquisas e "títulos do CNPQ", vivem de "medalhinhas" e preenchimento dos seus respectivos lattes de pura embromation.

 

Algumas considerações:

Salário - Está baixo sim, em qualquer órgão do governo, Agências, Ministérios, et os salários  são maiores. Até carreiras afins, tipo pesquisadores do MCT  que têm a mesma titulação e não tem compromisso com a DE ganham mais. Temos vários concurso para Engenheiro no Brasil (de São Paulo ao Amazonas) sem candidato, essa situação tende a piorar, mas ninguém se preocupa. O período de formação desses profissionais é de no mínimo 11 anos (5 graduação + 2 mestrado + 4 doutorado). Vários concursos estão sendo abertos apenas para mestrado, outros mais no interior apenas para graduação e continua sem candidato. Tem-se uma expansão de cursos de Engenharia Civil no Brasil e vários professores de disciplinas do curso não tem formação. Ex: Biólogo ensinando Sistemas de Abastecimento de Água, isso é real.

Professores - ser ou não doutor não indica se será ou não bom professor. O ensino requer dedicação, e vários profesores realmente não gostam, são bons pesquisadores, mas nãosão  bons professores. No entanto, os que têm doutorado obtêm melhores resultados pois estão mais atualizados na maior parte dos casos. Senão em todo mundo, esse não seria o padrão, esse chororô de dizer que doutor não sabe ensinar é discriminação, não é a titulação, repito, é o professor, da mesma forma, acho que que tem apenas graduação não tem preparo, por experiência minha de alguns professores, mas é apenas uma opinião discriminatória minha!!!!

 

 

 

 

 

Pode dizer se esta universidade é pública ou privada? Federal ou estadual?

 

Ullises, é a Federal do Paraná.

 

<i>"Em segundo lugar, requerer que profissionais altamente qualificados (doutorado, pós-doutoramentos, publicações em revistas internacionais) se contentem com os atuais salários baixos, enquanto que meninas e meninos espertos mas recém-formados que conseguem passar por concursos nos altos tribunais e ministérios públicos iniciam a carreira ganhando mais de 20 mil reais, foge do bom-senso."</i>

 

Eu não acho que o salário de um professor universitário seja baixo, como você diz no seu comentário.

Acho que o salário dos "altos tribunais e ministérios públicos" que são altos demais. Se a pessoa não conseguir viver muito bem com 8 mil reais (supondo um casal de doutores, 16 mil reais) por mês (pra mais né, porque tem muito dinheiro de pesquisa ainda) é sacanagem!

 

um médico que seja professor de neurocirurgia teria condições de ganhar bem mais do que isto (em São Paulo, um pediatra fazendo plantões na periferia também ganharia mais que isto). No caso da medicina, o salário do professor universitário é algo preocupante.

para uma pessoa média 8mil por mês é bom, ótimo, mas um professor universitário de uma ifes hoje é uma pessoa que fez mestrado, doutorado, muitas vezes parte de formação no exterior. Eles são o topo. Eles é que deveriam ser o salário topo da carreira pública, e não um juiz do Supremo, que é uma função que em última medida deriva da primeira. O professor tem uma formação que, na iniciativa privada, levaria a uma função de maior remuneração. Acabam na universidade porque gostam, devido a pesquisa, vida acadêmica, etc. Mas até mesmo este gosto pode acabar não sendo suficiente para mantê-lo na universidade se o salário continuar assim...

 

Tudo bem, então ponha todo mundo para ganhar 8000 reais. O que não dá para aceitar é pessoas que passam por um concursinho logo após a graduação ganhar mais de 20 mil reais, e outros que labutaram a vida inteira, ter de ficar com o salário "justo " de 8 mil.

Eu até não faço barulho pelos 8 mil. Mas que me deixem aumentar por meus próprios esforços, sem cobrar nada ao contribuinte, ainda por cima melhorando o nivel da pesquisa e ensino...

 

Joaquim Aragão