Por Rui Daher

Minha paixão por Lula
Não tenho como esconder. Sempre admirei o pernambucano Lula. Desde o primeiro momento em que o vi em ação passei a acreditar nele. Sabia aonde ele poderia chegar. Corajoso, ágil, veloz, driblador quando preciso, recuado quando a estratégia pedia.
Poucas vezes abandonava o lado esquerdo, mas sabia infiltrar-se pelo centro. Quase voava em diagonal quando percebia a direita muito congestionada, aquela marcação cerrada. Era quando antevia o espaço e o caminho a seguir.
Apesar do jogo de cintura, foi muitas vezes derrubado. Talvez, até por isso os adversários nunca o pouparam. Solada, rasteira, pé no peito. Contra ele, tudo valia. Poucas foram as interferências em seu favor. Nem de quem ali estava para mediar o embate nem daqueles que o avaliavam. Sempre recebeu mais críticas do que elogios, embora suas performances cada vez mais perfeitas.
Não que Lula tenho sido o único pernambucano de minha paixão. Embora paraibano, sempre fiz de conta que Ariano Suassuna nascera no Recife e não em João Pessoa. Creio que ele também assim se considerava. João Cabral, ah este sim, recifense da rua da Jaqueira. Nossa, tantos leões do Norte: Nabuco, Bandeira, Nelson, Josué. Capiba, Gonzaga, Alceu, Dominguinhos, Chico Science. Chacrinha.
Permito-me uma obviedade, esta gastronômica. Os saborosos moluscos. Em longínqua data, jovem, solteiro ainda, amigo me convenceu de comê-los crus depois de mergulhados em cachaça. Regrados e pacientes, contávamos o tempo de “cozimento”. Exatos cinco minutos. Foi em Ilhabela. Nunca mais repeti a façanha.
Amo e amei a todos esses pernambucanos e a muitos outros, os que se foram e os que ainda passeiam por aqui. Mas a nenhum deles dedico a paixão que senti por Lula.
Só que ele sumiu. Onde anda? Teria ido para as Arábias? Rebelde, como quando brigou com um juiz, estaria preso? Não acredito. Sempre foi safo, macunaímico na esquerda, fulminante no centro. Não se entregaria a não ser com um para-belo na mão, como fez Corisco e sua Dadá diante de Antônio das Mortes.
Pois é, meus irmãos, apesar de flamenguista e ter visto Canhoteiro jogar pelo São Paulo, Lula, o Luís Ribeiro Pinto Neto, nascido em 1946, na cidade de Arco Verde, revelado pelo Ferroviário de Natal, brilhou ao ponto de minha paixão, como ponta-esquerda do Fluminense, entre 1965 e 1973.
Estávamos em plena ditadura militar, repressão brava, mas o cara fazia o diabo. Fez 100 gols num tempo em que se jogava futebol e o tricolor carioca tinha Félix, Assis, Altair, Marco Antônio, Denílson, Cafunga, Flávio. E o insuperável Lula.
Em 1971, logo após a conquista do tri pelo Brasil, o Botafogo mandava no futebol do Rio de Janeiro. No elenco Carlos Alberto Torres, Brito, Paulo Henrique, Careca, Paulo Cesar Lima. Uma seleção.
Domingo, 27 de junho, 143 mil pagantes foram ao Maracanã para ver o Botafogo se sagrar campeão. Pule de dez. Não viram. Lula, aos 43 minutos do 2º tempo, fez um a zero para o tricolor. Ninguém esqueceu, este era o Brasil de Lula, um ponta aberto, rápido, driblador, ágil, veloz, como pedia aquele personagem de Jô Soares: “Bota um ponta, Telê”!
Pois é.
Wagner
23 de julho de 2016 12:08 pmcensura
Artigo de duplo sentido para driblar a censura!
maria rodrigues
23 de julho de 2016 12:10 pmQualquer um na condição de
Qualquer um na condição de Lula já estaria sentado numa cadeira de balanço em qualquer de “suas residências”, vendo a vida passar, e relembrando a vida pregressa, frustrado, derrotado. Acontece que um homem que nasce com sangue político correndo nas veias não pode, porque Moro e Globo querem, fazer isso consigo: abandonar a luta.
Lula, como todos nós que o admiramos, pode até admitir que sua prisão é, ainda, questão de tempo. E parece que Moro, que andou dizendo ser possível entregar a Lava Jato em dezembro, esteja na contagem regressiva para não sair de cena sem antes colocar o ex-presidente na cadeia, para bem de Temer, e de todos que tano o odeiam, e não aceitam vê-lo em pesquisas, em palanques, ou em qualquer lugar que possa parecer ser o que é, de fato: um homem querido de muitos e muitos, apesar dos pesares.
Moro está dizendoque motivos teve para prender Lula, como que se antecipando para o que fará logo mais. Está inconformado pelo que o Instituto Lula vem publicando nesses dias, como prova cabal de que o ex-presidente já foi revirado de cima pra baixo sem que nada fosse encontrado para sugerir sua prisão.
Na verdade, qualquer imbecil sente estar Moro muito frustrado desde aquela prisão coercitiva, que tinha por princípio chegar ao aeroporto, e já com uma eronave à espera, trasnformar a prisão coercitiva em prisão no cárcere de Moro em curitiba. Aí, do nada, apareceu no mesmo aeroporto ninguém menos que o ministro Marco Aurélio Mello. Foi o salvo-conduto de Lula. O ministro não concebeu aquele abuso, e nas suas falas, várias, à imprensa, deixou clara a sua indigação por um ato, segundo ele, de autoritarismo sem precedente. Foi tão forte a atuação do Ministro que deu a Lula a liberdade de falar à imprensa para se defender do que acabara de sofrer. A história de que a aeronave foi interceptada por agentes da Aeronáutica, impeda de levar Lula, até hoje não sei se foi verdade. O fato é que esse episódio está até hoje no gogó de Moro, impedindo- de deglutir direito.
Vejamos que Lula saiu da cama pra entrar num carro da PF bem cedinho, mas na porta do seu edifício se encontravam inúmeros policiais, além de algumas viaturas, normal quando se via prender um bandido periculoso – lombroziano. A imprensa também estava lá, de plantão, e teve a oportunidade de filmar tudo, por isso mesmo a gente sabe como foi. Podiámos desconehcer como se deu, mas Moro carece da encenação teatral, e da Globo, principalmente, que é sua colaboradora, quem o premia, quem o enaltece.
A delação do marqueteiro e de sua esposa, pra variar, chegam no final de uma semana, para que tenhamos o brinde do domingo com a VEJA, e todos os jornalões a meterem o malho no ex-presidente, culminando no Fantástico, que será mais um a não deixar barato o assunto.
Flavio Martins e Nascimento
23 de julho de 2016 12:36 pmNada como a elegância de um
Nada como a elegância de um texto finamente escrito. Um raro prazer.
Ivan de Union
23 de julho de 2016 12:46 pm“Exatos cinco minutos”:
E se
“Exatos cinco minutos”:
E se passar… eh 30 ate amaciar de novo! Igual polvo, que tambem so pode ser fervido por 5 minutos ou 30 minutos.
O truque eh colcocar duas aguas pra ferver assim que o polvo/lula esquentar na primeira panela -que leva menos de 2 minutos enquanto a agua para de ferver instantaneamente- voce o passa pra proxima agua fervendo. Funciona. (Infelizmente sou alergico e minha familia detesta; fiz pra uma visita que apareceu com um polvo debaixo do braco ha uns 10 anos atraz. Nao eh que ele comeu o polvo inteiro?!)
Ugo
23 de julho de 2016 12:48 pmraio de sol
Delicioso e para deixar censores e críticos com no cerebral.
Casadei
23 de julho de 2016 12:54 pmMinha paixão por Lula
Adorei.
Obrigadão Rui.
alexis
23 de julho de 2016 1:09 pmFaltou assinar…(assim como o Chico Buarque)
Julinho de Adelaide
rs, rs, rs
Excelente texto
Helena de Brito
23 de julho de 2016 1:10 pmMinha paixão por Lula
Lindo texto!
ALEX SILVA
23 de julho de 2016 1:37 pmQue delícia de texto!
Ontem, num dos programas da ESPN, o jogador/comentarista Sorin pedia algumas indicações de cronistas.
O grande Antero, colunista do Estadão e também da ESPN, foi discorrendo sobre alguns nomes. Deu uma certa saudade dos bons cronistas que já tivemos.
Acabo de ler “Minha paixão por Lula” e não tenho dúvidas de que o estilo de Rui nesse texto vai de encontro a tradição dos grandes cronistas brasileiros.
Gol de placa!
lenita
23 de julho de 2016 2:20 pmRui Daher
Adorei Rui ! mt bom mesmo “!
Raí
23 de julho de 2016 2:28 pmPosso assinar embaixo, Rui ?
Sou tricolor, do coração;
Sou do time tantas veses, campeão.
Estes versos, não só homenageiam ao meu Tricolor do Morumbi, mas também ao Tricolor das Laranjeiras, do Lula citado na sua crônica, do qual também lembro, mas o que eu queria dizer mesmo, é que este apelido “Lula” sempre esteve ligado aos ‘ Luiz(es) deste Brasil varonil(que palavra cafona, né não ? enfim…)
E voltemos ao Lula da vez, o homenageado maior da sua crônica, o pernambuquinho, que vindo de pau-de-arara para “Sumpaulo”escapando da fome e da falta de perspectiva, da família da Dona Lidú, foi visto por Deus, que apontou para ele, ainda moleque, e disse: Esse é o Cara !.
Apolítico total; Descrente total do sindicalismo pelêgo, pregado pelo seu irmão, Frei Chico; Sem formação formal(perdão pela redundância) só aceitou sindicalizar-se, se pudesse revolucionar a forma de praticar sindicalismo de resultados, e daí, mesmo contra sua vontade, politizou-se e fundou o 1* partido político brasileiro, de baixo para cima, contrariando o status quo reinante, e daí em diante, todos conhecem sua história vitoriosa, embora não aceita pelos políticos da direita e pelas elites.
Primeiro Presidente da Repíblica oriundo do chão de fábrica, e sem formação superior, não somente reelegeu-se soberbamente, como elegeu e reelegeu um “Poste” para sucedê-lo, e ainda é a maior “pedra no sapato” dos politicos tradicionais, que temem sua volta ao Planalto, e o retôrno das políticas sociais e inclusivas.
Não tenho dúvidas em afirmar, como vc faz nas entrelinhas, que o Brasil foi um país antes do Lula, e passou a ser outro, depois dele, para o bem(da maioria) ou para o mal, dos seus adversários.
E repetindo o saudoso Chico Anísio: Sou doido por este “Cara”
Volta Lula !!!!!!!
André Couto
23 de julho de 2016 2:39 pmBelo artigo. Mas quero
Belo artigo. Mas quero lembrar aqui também, pra espezinhar os tricolores, que o Fluminense já teve o Fernando Henrique no gol.
José Antoni
23 de julho de 2016 2:42 pmPonta esquerda colorado
Lula e uma meia lua dentro da área em pleno maracanã para fazer inter 2 x 0 e eliminar o tricolor em 1976.
Wandré
23 de julho de 2016 2:56 pmTexto que da gosto de ler
Ganhei meu dia, e o Maracanã com 143 mil que espetáculo. Estádio Jornalista Mário Filho que também era pernambucano.
cesarT
23 de julho de 2016 3:22 pmVou tomar como um lapso do
Vou tomar como um lapso do Rui, mas Lula brilhou mesmo foi no glorioso Internacional.
ze sergio
23 de julho de 2016 4:05 pmminha….
Lula não precisava ser Pelé. Bastava fazer o prometido, que não era nada além do possível, do mediano.. Nada de fabuloso ou fantástico. Grande pequeno Lula, de uma época onde as paíxões eram maiores que os resultados.
Orlando Soares Varêda
23 de julho de 2016 4:16 pmMuito bom Daher. Não pude
Muito bom Daher. Não pude evitar o pleonasmo.
Orlando
Emilia Silva
23 de julho de 2016 11:14 pmNão conheci esse Lula, mas
Não conheci esse Lula, mas tem bastante a ver com o que conheço.
João de Paiva
23 de julho de 2016 11:19 pmCrônica genial.
Rui Daher estava inspiradíssimo quando escreveu esta crônica. A intleigência, a leveza e a sutileza do texto, só os mestres da arte literária são capazes de produzir essas preciosidades. Como comentou outro leitor, faltou apenas fazer como o Chivo Buarque, assinando Julinho da Adelaide. Os atentos e inteligentes leitores dispensam explicações.