O governo de Donald Trump voltou a apostar na pressão econômica para tentar forçar o Irã a fazer concessões, em uma estratégia que recupera a política de “pressão máxima” adotada pelo presidente em seu primeiro mandato. A iniciativa ocorre enquanto as opções militares de Washington são limitadas e o impasse em torno do Estreito de Ormuz permanece no centro do conflito.
Segundo análise publicada pelo The New York Times, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, já advertiu que Washington prepara medidas econômicas “nunca antes vistas”. Entre as possibilidades estão novas restrições às transações financeiras iranianas e sanções secundárias contra países que continuam comprando petróleo de Teerã, especialmente a China.
O problema para a estratégia americana é que o Irã convive com sanções há décadas. Desde a Revolução Islâmica de 1979, os Estados Unidos vêm ampliando mecanismos de isolamento econômico contra o país, com uma breve interrupção durante o acordo nuclear de 2015. Trump abandonou o pacto em 2018 e voltou a impor sanções, inaugurando uma nova fase da chamada política de “pressão máxima”.
Contudo, a experiência também levou Teerã a desenvolver formas de adaptação: o país ampliou relações comerciais com Rússia e China, criou redes de contrabando e uma chamada “frota clandestina” para transportar petróleo, reduziu sua dependência do dólar e passou a utilizar bancos estrangeiros e operações de escambo.
A questão é se a deterioração econômica será suficiente para provocar uma mudança na posição política do governo iraniano. Para analistas ouvidos pelo New York Times, a resposta está longe de ser afirmativa.
Economia iraniana se adapta à pressão
A capacidade de sobrevivência de Teerã é particularmente evidente no setor petrolífero. Antes da guerra, o Irã exportava cerca de 1,8 milhão de barris por dia. Com o conflito e o bloqueio americano, o volume caiu, mas a alta dos preços internacionais do petróleo ajudou a compensar parte da perda.
Durante o período de vigência do memorando de entendimento firmado com Washington em junho, quando o bloqueio foi temporariamente suspenso, o Irã aproveitou para escoar petróleo armazenado e exportou cerca de 80 milhões de barris antes da retomada das sanções e do bloqueio.
Entre outras medidas, o país também passou a armazenar petróleo em terra e em antigos navios-tanque, além de utilizar transporte terrestre por estradas e ferrovias e reduzir a produção de alguns poços.
Para analistas, a questão é saber se a capacidade de resistência dos Estados Unidos e de seus aliados é maior que a do próprio regime iraniano, já que a economia iraniana foi moldada pela pressão econômica dos EUA.
A situação também evidencia uma diferença fundamental em relação ao acordo nuclear de 2015, quando a perspectiva de alívio das sanções e desbloqueio de ativos ajudou a criar condições para que o então líder supremo, Ali Khamenei, autorizasse negociações que limitaram o programa nuclear iraniano.
Agora, a confiança de Teerã em Trump é mínima e o governo dos EUA oferece poucas contrapartidas para que o Irã abandone sua posição no Estreito de Ormuz. Ao manter o controle efetivo da região, Teerã aposta que os custos econômicos da interrupção do fluxo de petróleo acabarão pressionando os próprios aliados de Washington.
O paradoxo da nova ofensiva econômica americana é justamente esse: quanto mais Washington tenta usar as sanções para obrigar o Irã a ceder, mais Teerã pode utilizar a estrutura econômica criada ao longo de décadas de sanções — e o controle de uma das principais rotas energéticas do mundo — para aumentar o custo da pressão.
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