3 de julho de 2026

A situação obscura da Venezuela, por Janio de Freitas

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Deputados durante juramento na Assembleia Nacional venezuelana

Jornal GGN – Janio de Freitas, em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, analisa os acontecimentos recentes na política internacional, como o agravamento da crise política na Venezuela. Para ele, os países sul-americanos não podem fazer muita coisa para evitar a piora da situação venezuelana, mas a primeira coisa ao alcance destes países é não agravar por “intromissão indevida, não importa para que lado”.

Janio acredita que há um risco muito alto de deflagração da violência na Venezuela, afirmando que o “ódio obtuso dos líderes vencedores encontra, no outro lado, um líder que parece não perceber a situação do país”. Leia mais abaixo. 

Da Folha

Uma visita ao mundo

Janio de Freitas

A vida verdadeira, com os gestos e os passos que empurram a história, está lá fora. Aqui é um canto de mundo, onde se amontoam cifrões, Bolsa, PIB, deficit, ajuste fiscal, câmbio, inflação, dólar, euro, tarifa, subvenção, taxa, lucro, ações, comissão, títulos, letras, renda, corrupção. O demais, se existe por teimosia, não interessa.

Com licença, vou ao mundo. Inquieto e, sei bem, para ver o que já vi vezes sem conta. Várias proximidades facilitam o começo pela Venezuela. Que é também o problema mais imediato e mais incandescente. Mas não é muito o que os países sul-americanos podem fazer para evitar o agravamento da situação venezuelana. O primeiro ao seu alcance, aliás, é não vir um deles a agravá-la por intromissão indevida, não importa para que lado.

O risco de deflagração da violência, inclusive armada, está altíssimo na Venezuela. Arrogantes como estão os vitoriosos eleitorais, que começaram por declarar guerra de extermínio ao adversário, até com prazo definido, e transtornados como estão os perdedores, estará na ordem natural das coisas um ato de desatino armado. Neste momento, o ódio obtuso dos líderes vencedores encontra, no outro lado, um líder que parece não perceber a situação do país. Quanto mais os descontroles. Ou então conhece como ninguém os venezuelanos.

O mais estranho é que, de todo o transmitido da Venezuela nesse período mais agudo, ninguém menciona as Forças Armadas. Não pelo próprio Maduro, mas por suas relações com os chefes cubanos, não se pode imaginar que o fator militar, e até de eventual defesa popular armada, estejam esquecidos.

A doutrina militar que os Estados Unidos fizeram aplicar na América Latina considera que confrontos internos, armados ou na iminência de sê-lo, constituem ameaça à segurança nacional, cabendo aos militares intervir e decidi-los. Explica-se: tais confrontos dão-se entre conservadores e reformistas. Hugo Chávez alterou a doutrina para a Venezuela, mas não se sabe se a nova linha perdura ou até quando perduraria. E esta pode ser a questão-chave. Coberta de silêncio, no entanto.

A situação na Venezuela é nova, mas obscura. Aos países latino-americanos justifica-se apenas defender o que seja o mais próximo do legítimo e conveniente para um futuro democrático.

Ou seja, aquilo que os grandes liderados pelos Estados Unidos não defendem, jamais, quando se trata de Arábia Saudita, como de outros aliados seus incursos em transgressões à ONU, a tratados e a princípios do direito internacional. E, em se tratando da Coreia do Norte e sua bomba de hidrogênio, nem é mais a defesa da correção que falta aos Estados Unidos. É a simples utilidade de tentar disfarçar.

Nos dois casos, a igualdade de motivo: a falta de autoridade moral. A ditadura saudita só se permite o primitivismo e as arbitrariedades do seu poder porque conta com apoio dos Estados Unidos, em qualquer circunstância. O seu petróleo vale mais do que todos os princípios de relações humanas ou entre nações. E o cinismo a tudo se sobrepõe: a imprensa e a TV americana tanto propagavam a aliança proveitosa do seu país com a Arábia Saudita, como noticiavam provir da Arábia Saudita o financiamento de Osama Bin Laden que os Estados Unidos combatiam, e que lhes tirara as duas torres novaiorquinas.

A estupidez humana explodiu mais uma vez, agora, na Coreia do Norte, sob a forma de bomba de hidrogênio. Os Estados Unidos deviam saudar seus imitadores comunistas. Porque condições morais para criticá-los, o maior poder armado do mundo não pode ter. Nem Inglaterra, França, Rússia, Israel, China, India, Paquistão, talvez mais.

O mundo é dos cínicos.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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20 Comentários
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  1. Paulo P Ribeiro

    7 de janeiro de 2016 2:19 pm

    Infelizmente, o ódio das

    Infelizmente, o ódio das elites venezuelanas está levando o país e a um estado delicado e a um desmantelamento das conquistas das classes trabalhadoras durante o exitoso período do presidente Hugo Chávez. Lamento a postura atual do governo brasileiro, que se omite perante este clima golpista do Congresso venezuelano. Não vejo como ingerêcia em assuntos externos um eventual comunicado do governo brasileiro em respeito à atual estrutura de poder no país amigo. É nestas horas que um país forte marca a sua posição ante a iminência de um golpe que vem sendo tramado pela oposição. Maduro é um aliado histórico e não pode ser jogado ao mar!

    1. Pedro Mundim

      7 de janeiro de 2016 2:27 pm

      Que elites numerosas, hein?

      Orra meu, não sabia que na Venezuela as elites eram tão numerosas assim, a ponto de dar à oposição uma vitória nas urnas por margem tão ampla! Deve ser o único país do mundo onde as elites são mais numerosas que o povão…

    2. Negrão

      7 de janeiro de 2016 3:33 pm

      Quais conquistas

      Quais conquistas ?

      Desemprego, desindustrialização, arrocho, desabastecimento

      Tem gente que pensa na Venezuela vendo a figura do Chavez, nem imaginando a penúria que vivem os pobres

      Ao contrário daqui, onde o PT conseguiu crescimento e distribuição de renda, se alinhando com os banqueiros e grandes empresários, muito  embora a lambusada no dinheiro público.

      O  modelo Venezuela se mostrou um fracasso, desprezou a iniciativa privada, estatizou grandes empregadores e os quebrou, gerando desemprego. Massacrou a massa pobre que não apoiava o Chavismo, negando até mesmo vaga em escolas.

      Se pensarmos na America Latina, sempre lembraremos o que o populismo fez com o povo, levará decadas para que as pessoas voltem a limpar a bunda com papel higienico.

       

    3. felipe madureira

      7 de janeiro de 2016 3:33 pm

      GOLPE?

      Que golpe? uma Assembléia democraticamente eleita, não se fala se quer em impechment do presidente Maduro. Dois pesos e duas medidas, aqui se fala em respeitar as urnas, na venezuela não deveria ser o mesmo? vamos respeitar a vontade da maioria.Se a maioria dos venezuelanos escolheu a oposição, é justamente por acreditar ( e querer) um projeto politico da oposição.

    4. Caetano.

      7 de janeiro de 2016 3:46 pm

      “…exitoso período do

      “…exitoso período do presidente Hugo Chávez…”

      Exitoso? Só se for em sonho seu, porque, na realidade, Chávez destruiu a economia venezuelana.

      1. lenita

        7 de janeiro de 2016 10:58 pm

        E quem será

        Que, após reunião com o rei (morto) da Arábia Saudita, os preços do petróleo desabaram. ?

        Onde estavam os produtos que apareceram nas prateleiras dos supermercados, assim que houve maioria no Legislativo, alguns até com prazos de validade vencidos ? Heim sr. Caetano ?

        1. Caetano.

          8 de janeiro de 2016 2:15 am

          Ora, Lenita, com todo o

          Ora, Lenita, com todo o respeito, é impossível um empresário sobreviver anos escondendo mercadorias. O objetivo do comerciante é vender, caso contrário fale. No Brasil, na triste época do presidente Sarney, tivemos o Plano Cruzado, com congelamento de todos os preços do mercado. Muitas mercadorias simplesmente sumiram. E por quê? Será que ficavam escondidas? As que estavam já nas lojas, talvez, por alguns meses no máximo, na esperança de que o preço fosse liberado. Quando o preço congelado de venda não era compensador para a cadeia de produção e comercialização, essas mercadorias paravam de ser produzidas, por um singelo motivo: ninguém trabalha para ter prejuízo!

          Certamente a Venezuela sofreu com a queda do preço do petróleo, mas antes disso houve uma desorganização econômica e perseguição aos empresários pelo governo Chávez. O país, que já tinha poucos malucos dispostos a investir, só ficou com os amigos do governo. A PDVSA foi totalmente aparelhada e usada como caixa do governo, pagando despesas que nada tinham a ver com sua atividade. Os melhores técnicos abandonaram o país.

          Não adianta o governo querer criar benesses se não existe arrecadação para isso.  Quando acaba o dinheiro, vem a derrocada do populismo. Em proporção menos grave, é o que vemos no Brasil. Se não nos cuidarmos, ainda dá para piorar muito…

  2. luiz valentim

    7 de janeiro de 2016 2:26 pm

    Na Venezuela os caras ganharam e não tão nem aí pro Povo

    Num sofrimento como nunca visto , faltando tudo, inflação explosiva, petróleo no chão e a elite vitoriosa tá nem aí pro cidadão venezuelano, o único objetivo deles é tomar o controle total do poder nacional não importa os meios.

    Parece que o Venezuelano queria entendimento , mas , sua porca elite tá de costas .

    Nessa circunstância, uma decepção total , dificilmente eles ganham um referendo pra antecipar a queda do Maduro.

    Maduro tá mal mas a oposição é podre.

  3. José Adailton V Ribeiro

    7 de janeiro de 2016 2:53 pm

    O povo

    A oposição conquistou votos da classe média e da classe trabalhadora também.Aliás, presumo que a classe média seja minoria na Venezuela.Caso contrário estaríamos falando de um país de economia forte.

  4. Álvaro Noites

    7 de janeiro de 2016 3:19 pm

    O ódio nutrido e propagado

    O ódio nutrido e propagado pela elite venezuelana me impressionava já em 2002 (quando dos protestos da direita pró-golpe, que inspiraram nossos “carna-coxinhas”).

    Lá na Venezuela já ocorrem ações de guerrilha de direita, como uso de bazucas e arame farpado no meio da rua para degolar motociclistas.

    O mais assustador é que o ódio de direita, o fascismo, se espalha na América do Sul rapidamente, basta vermos as ações de Macri na Argentina, o comportamento lamentável do líder oposicionista do Congresso Venezuelano, a desenvolvtura que Bolsonaros, Revoltados Online, Aécios e Caiados mostram aqui no Brasil.

    Realmente temo muito pelo futuro do país e pelo futuro de minha família, uma vez que já notei que fascistas monitoram, via redes sociais, conhecidos e simpatizantes de esquerda.

  5. Maria Luisa

    7 de janeiro de 2016 3:23 pm

    O mundo é dos cinicos. Vejam o Moro.

    O problema para Maduro agora é que Kichner deixou o poder na Argentina e entrou um direitista duro e Dilma Rousseff esta com enfraquecida em seu Pais. Logo, Maduro tera pouca ajuda de seus pares latino-americanos. Quem sabe Morales ou Rafael Correa. 

    Estudei com algumas venezuelanos da elite de seu Pais e eles andavam, naquela época, com bottom na roupa com o Fora Chaves, e o discurso deles é o mesmo do coxinha brasileiro. O odio ao chavismo e tudo o que ele representa é bem explicito.

    Não sera facil para a Venezuela transpassar essa guerra de classes, a elite la é muito agressiva no combate para proteger seus “direitos”.

    1. Jossimar

      7 de janeiro de 2016 4:24 pm

      Se as forças armadas

      Se as forças armadas estiverem do lado do Maduro é só prender e fuzilar todos os oposicionistas golpistas.

      Se as forças armadas estiverem do lado dos golpistas é melhor o Maduro e sua trupe fugirem do país porque caso não o façam, serão eles os fuzilados.

      Perguntarão: Ah, porque você acha que os oposicionostas são golpistas?

      Porque não querem respeitar o mandato do Maduro e vencê-lo limpamente nas próximas eleições.

      Infelizmente os direitosos são iguais em todo lugar.

  6. medroso curitibano

    7 de janeiro de 2016 3:38 pm

    não se intrometer nos

    não se intrometer nos problemas internos de qualquer país…

    essa é a chave da questão….

  7. Cesário

    7 de janeiro de 2016 3:39 pm

    Esquizofrenia

    O cara começa na Venezuela (tá no título?) e terminar na Coréia do Norte! A liberdade de opinião, de expressão ideológica, está sendo violada na vizinhança desde a instauração do Bolivarismo venezuelano com Hugo Chaves. O estado brasileiro, por uma questão de mútuo apoio (camaradagem) sempre ignorou as perseguições políticas, as prisões sem mandato, o fechamento de jornais e televisões, e outras “cositas más”. Se isso é solidariedade, temo que quando precisarmos ficaremos sós!

    1. lenita

      7 de janeiro de 2016 8:33 pm

      Exatamente sr. Cesário

      Como faz os EUA s/ a Aráb ia Saudita. O sr. não acha?

       

      1. Andre Araujo

        8 de janeiro de 2016 12:45 am

        A Arabia Saudita é uma

        A Arabia Saudita é uma monarquia absolutista, jamais foi uma democracia, é uma logica de Estado de natureza religiosa,

        ode a religião se funde com o Poder, não tem remotamente qualquer semelhança com uma Republica latino-americana seja de que tipo for. Os EUA quando descobiram petroleo no Reino, em 1923, já encontraram lá tudo isso pronto, não foram os EUA que construiram Meca e suas instituições politico religiosas e nem tem qualquer influencia sobre elas.

  8. Orides

    7 de janeiro de 2016 4:01 pm

    Pode ser que…

    Desta vez as coisas caminhem para uma solução mais duradoura na Venezuela.

    Onde há tanto ódio, só mesmo o sofrimento de uma guerra civil insana pode remediar.

    Quem sabe estarão salvando a nós do mesmo futuro.

  9. aliancaliberal

    7 de janeiro de 2016 5:16 pm

    Conversa mole, o que acontece

    Conversa mole, o que acontece na venezuela é o fracasso do socialismo e o esperneio dos que se beneficiaram com o regime.

    O socialismo é o câncer deste continente. 

  10. alexandre borges

    8 de janeiro de 2016 1:51 am

    Tá ficando muito engraçado o

    Tá ficando muito engraçado o contorcionismo verbal derivado da desonestidade intelectual. Tá bom, claro que a oposição é odiosa, que o governo é democrático e a oposição (odiosa) foi eleita, não sei bem por que. Agora, diferente do Paraguai, ninguém deve se meter. Porque? Aí vem a explicação lógica!! Porque ninguem tinha pensado nisso?!?!?! Por causa da Arábia Saudita e da Coréia do Norte. Óbvio!! Caro Janio, nós mesmos temos que zelar por nossa biografia e credibilidade. Se não: beleléu.

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