O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia, em meio a uma dívida superior a R$ 17 bilhões, reacendeu o debate sobre as dificuldades enfrentadas pelo varejo brasileiro. Para o economista e mestre em economia Presley Vasconcelos, porém, atribuir a crise exclusivamente aos juros elevados, à queda do consumo ou à carga tributária é, além de um erro, insuficiente para explicar a trajetória da companhia.
Em uma série de vídeos publicados em sua rede social, no Instagram, Vasconcelos procura separar os efeitos do cenário macroeconômico das decisões tomadas pela própria empresa. A avaliação é que juros altos, pandemia, inadimplência e mudança no comportamento do consumidor agravaram o quadro, mas não explicam, isoladamente, por que algumas empresas submetidas ao mesmo ambiente conseguiram crescer enquanto outras perderam espaço.
“Cenário macroeconômico não assina empréstimo, não assina investimento, não define orientação de mercado e muito menos a gestão do teu negócio”, afirma.
A distinção, segundo o economista, é fundamental para entender o caso. A recuperação judicial não significa falência. Trata-se de um mecanismo previsto em lei que permite à empresa negociar suas dívidas e apresentar um plano de reestruturação aos credores, preservando, ao menos em princípio, a atividade econômica e os empregos.
“Recuperação judicial não é falência”, ressalta Vasconcelos. Após o pedido, a empresa passa por um período de proteção contra cobranças enquanto estrutura um plano que deverá ser submetido aos credores.
O ponto central da análise, entretanto, está no que levou as Casas Bahia até esse estágio.
Um modelo pressionado pela transformação do varejo
As próprias Casas Bahia apontaram juros elevados, redução do consumo de bens duráveis, aumento da inadimplência e dificuldades do setor varejista entre os fatores que contribuíram para o endividamento.
Vasconcelos reconhece o peso desses elementos, mas chama atenção para uma transformação que já vinha ocorrendo antes da crise atual: a mudança no comportamento do consumidor e o avanço do comércio eletrônico.
A companhia passou a investir na transformação digital ao mesmo tempo em que carregava uma estrutura física construída durante décadas. O problema, segundo o economista, é que a transição não teria ocorrido na velocidade necessária diante da concorrência de empresas que já nasceram ou se estruturaram em um ambiente digital.
A pandemia aprofundou a dificuldade. Com as lojas fechadas, os custos de uma estrutura física extensa permaneceram, enquanto a empresa precisava acelerar sua presença no comércio eletrônico.
“Você pega juros, pandemia, a questão do comportamento do consumidor, isso te ajuda a explicar o ambiente, mas foram os próprios gestores da empresa que decidiram quanto e onde investir”, afirma.
A questão, portanto, não seria apenas a existência de um cenário econômico adverso, mas a capacidade de cada empresa de responder a ele.
O problema do crediário
A estrutura histórica das Casas Bahia torna a discussão sobre juros ainda mais relevante. O crediário esteve durante décadas no centro do modelo de negócios da companhia. Em um período de juros baixos, o financiamento ao consumidor podia funcionar como mecanismo de atração e expansão das vendas.
Com o encarecimento do crédito, entretanto, o modelo passa a enfrentar maior pressão.
“A taxa de juros é o valor do dinheiro no tempo. Então se a taxa tá alta, fica mais caro você obter crédito, fazer financiamento, parcelar e por aí vai”, explica o economista.
O efeito ocorre dos dois lados. Para o consumidor, o crédito fica mais caro. Para a empresa, o prazo entre a venda e o recebimento do dinheiro pode gerar pressão sobre o caixa, enquanto despesas com fornecedores, funcionários, aluguel e outras operações continuam sendo pagas.
Segundo os números apresentados por Vasconcelos, a carteira de crediário das Casas Bahia superava R$ 6 bilhões no final de 2025, com prazo médio de recebimento em torno de 14 meses.
O economista usa uma comparação para ilustrar a fragilidade desse modelo diante de juros elevados: “É aquele velho barzinho que tá ali sempre caindo aos pedaços porque tá um tempo inteiro vendendo fiado pros outros.”
O problema, portanto, não seria a existência dos juros altos em si, mas a combinação entre esse ambiente e um modelo empresarial particularmente exposto ao custo do crédito.
Consumo não desapareceu — mudou
Outro ponto levantado por Vasconcelos é a ideia de que a crise das Casas Bahia seria consequência direta de uma suposta paralisação do consumo brasileiro.
Os dados apresentados pelo economista apontam para outra direção. Segundo ele, o consumo das famílias continuou crescendo em 2026, assim como o varejo. O que mudou foi a forma como o consumidor compra.
“Associar a taxa de juros dentro de um contexto em que o consumo das famílias no primeiro trimestre de 2026 cresceu quase 2% é um pouco injusto”, afirma.
Para ele, consumidores passaram a buscar mais preço, conveniência e praticidade, recorrendo cada vez mais ao ambiente digital para comparar produtos e concluir compras.
É nesse ponto que a concorrência com empresas como Mercado Livre e Amazon ganha peso na análise.
A questão deixa de ser apenas quanto o brasileiro está consumindo e passa a ser onde e de que maneira esse consumo está acontecendo.
Vasconcelos cita o desempenho do comércio eletrônico das próprias Casas Bahia como exemplo. Segundo os dados apresentados por ele, o e-commerce da companhia cresceu quase 28%, enquanto as lojas físicas registraram queda de 1,6%.
Para o economista, a diferença evidencia uma mudança estrutural: existe demanda, mas parte dela migrou para canais em que as empresas tradicionais enfrentam maior competição.
“Não tô falando que a taxa de juros não afeta ou não está afetando”, pondera. “Mas comparando, por exemplo, o prejuízo constante das Casas Bahia ao longo de anos, não dá pra gente poder achar que só a taxa de juros tá gerando esse problema.”
Se o juro é igual, por que os resultados são tão diferentes?
A comparação com o Mercado Livre é um dos principais argumentos utilizados por Vasconcelos.
Se o ambiente de juros elevados atinge todas as empresas, questiona o economista, por que algumas conseguem ampliar receitas, investimentos e participação de mercado enquanto outras entram em recuperação judicial?
“Se a taxa de juros é a mesma para todo mundo, por que que as Casas Bahia estão pedindo recuperação judicial, enquanto que o Mercado Livre cresceu no Brasil mais de 38%? Será que é juro seletivo?”, provoca.
A pergunta não pretende negar o impacto dos juros sobre a atividade econômica. O objetivo é mostrar que o ambiente macroeconômico não produz resultados idênticos para empresas diferentes.
Estrutura de custos, capacidade logística, tecnologia, modelo de negócio, acesso a capital e decisões de investimento podem determinar como cada companhia atravessa um mesmo ciclo econômico.
Na avaliação de Vasconcelos, o avanço das plataformas digitais mostra que o mercado brasileiro continua movimentando recursos e gerando novas oportunidades. O problema das Casas Bahia estaria, em parte, na demora para adaptar sua estrutura a essa transformação.
“O problema central é que a empresa acordou muito tarde para um movimento que já tem anos que tá sendo apontado”, afirma.
A carga tributária como explicação automática
A mesma lógica é aplicada pelo economista ao debate sobre impostos.
A carga tributária brasileira, reconhece Vasconcelos, pode representar um problema para empresas, especialmente para pequenos negócios. Mas transformar o imposto em uma explicação automática para qualquer crise empresarial, segundo ele, ignora diferenças de gestão e de modelo de negócio.
“Por que que várias empresas que seguem o mesmo regime tributário não estão sofrendo o mesmo problema que as Casas Bahia?”, questiona.
Outro ponto levantado é que os tributos fazem parte da estrutura de custos das empresas e, dependendo do imposto, estão relacionados ao faturamento. O aumento do valor pago não significa necessariamente uma decisão arbitrária de aumento da carga.
No caso das Casas Bahia, Vasconcelos menciona ainda um crédito tributário que poderia chegar a R$ 5,7 bilhões. Com a revisão das expectativas de lucro tributável, esse benefício deixou de ser contabilizado da mesma maneira, produzindo impacto relevante nas demonstrações financeiras.
“Não é uma questão de ‘aí foram lá e aplicaram mais imposto’ ou ‘o governo é cheio de imposto’. Não. É simplesmente uma questão técnica”, afirma.
Para ele, isso não significa que o Brasil não deva discutir seu sistema tributário.
“O Brasil pode e deve discutir sim a complexidade dos impostos e principalmente a carga tributária”, diz. O problema estaria em utilizar esse argumento como resposta única para explicar uma crise empresarial.
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