23 de junho de 2026

Os vazamentos da Lava Jato e a lição da escola Base, por Janio de Freitas

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Jornal GGN – Em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, Janio de Freitas comenta a fala do presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas, que criticou vazamentos de delações e investigações durante solenidade no Supremo Tribunal Federal. Janio relembra o caso da Escola Base e diz que os vazamentos das investigações da Lava Jato e da Zelotes seguem o mesmo padrão adotado na cobertura jornalística sobre o caso da escola: “um policial/procurador diz, é o suficiente”.

O colunista diz que há, também, o agravante da seletividade das informações vazadas, dizendo que não é decente embaralhar doações legais e ilegais, pagamentos e caixa dois. Para ele, a Lava Jato, como função do Estado, e não pode estar a serviço de correntes políticas e ideológicas. Por último, afirma que a Lava Jato e a imprensa não seriam prejudicadas se adotassem práticas que respeitassem as leis e a ética. Leia mais abaixo:

Da Folha

A lição da escola

Janio de Freitas

Uma única certeza: seja qual for o desfecho da crise, será muito ruim. Isto supondo-se que haja desfecho, propriamente dito, e não a também possível continuidade da degradação caótica como um estado permanente. A “Constituição Cidadã”, as leis, a reverência ao Direito, a ética jornalística, a administração pública, as práticas políticas, a respeitabilidade mínima do Congresso, a divergência com convivência –o que aí não está muito abalado é porque já desmorona.

A meio da semana, um aspecto dessa situação motivou observações que há poucos anos o Brasil não precisaria ouvir, sobre o respeito a procedimentos judiciais. Vieram de ninguém menos do que o próprio presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas, em solenidade no Supremo. Referia-se, não citando por delicadeza diplomática, aos “vazamentos” de delações e investigações:

“Em vários países, quando se divulgam elementos da investigação, tais elementos se tornam nulos. Vejam o quanto isso é grave: tornam-se nulos.”

No Brasil, essas práticas já estão no território da imoralidade. A começar da denominação ingênua de “vazamento”. São acusações pesadas, em deliberada confusão de dinheiro sujo e doações legais. “O ex-ministro Delfim Netto participou da criação do segundo consórcio; Delfim teria ganhado propina de R$ 15 milhões” –disse um grande jornal, entre outros que apenas mudaram a forma. Se, porém, Delfim trabalhou para o consórcio de Belo Monte, teve o seu preço e o que recebeu não foi “propina” –que, no caso, é dinheiro comprometedor e em geral criminoso.

Nos anais da imprensa brasileira estará para sempre o “caso da Escola Base”. Era 1994 quando as mães de duas crianças denunciaram à polícia paulista que os donos da escola faziam orgias sexuais com os pequenos alunos. O delegado Antonino Primante revirou as casas dos acusados e a escola. Nada encontrou, nem em depoimentos. Crianças passaram por exame pericial, que nada constatou. Indignada, uma das mães repetiu a denúncia para a TV. Um escândalo fenomenal tomou a imprensa. A escola e as casas dos seus donos foram atacadas, eles estiveram presos. E mais dois delegados só puderam concluir que não havia sequer um leve indício de veracidade da acusação.

Os donos da escola tiveram as vidas arruinadas. Só a Folha se retratou. Nas Redações, houve uma onda de “lição da Escola Base”: não mais encampar acusações morais sem a segurança necessária, comprovar a seriedade do informante e a qualidade da informação, e por aí. Inúmeros artigos, debates, seminários ocorreram durante anos. Os “vazamentos” da Lava Jato, da Zelotes (sobre o Conselho da Receita Federal) e outros, seguem o mesmo padrão do caso Escola Base: um policial/procurador diz, é o suficiente.

Agora, um agravante sobre o caso anterior: o direcionamento.

A seletividade dos “vazamentos” originários da Lava Jato incorpora-se à crescente imoralidade política: a Lava Jato é uma função do Estado, e não pode estar a serviço de correntes políticas e ideológicas.

Por que o escarcéu só com alguns dos apontados pelo ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques Azevedo, como recebedores de dinheiro do consócio construtor da usina Belo Monte? Por que embaralhar doações legais e ilegais, pagamentos e caixa dois? Não é decente.

Em nada prejudicariam a Lava Jato e a imprensa as práticas, de parte a parte, respeitosas das leis pela primeira e da ética pela segunda. O procurador-geral Rodrigo Janot emitiu, há duas semanas, recomendações de sobriedade e obediência às normas. Falou ao vento, e, como em toda parte, a desordem ficou por isso mesmo. E foi o próprio Janot a dar uma colaboração: inverteu parecer de março para acusar Dilma Rousseff de “intenção (…) de tumultuar o andamento das investigações criminais da Lava Jato”. O Supremo, então, é incapaz para investigar Lula? Mas Janot invocou-se também com “as circunstâncias anormais da antecipação da posse” de Lula. É claro que se tratava de proteger Lula de novas exorbitâncias. Mas, ao que se saiba, presidente ainda decide data e hora das posses ministeriais e fazê-lo não constitui delito. Ao que se saiba, não. Sabia-se.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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8 Comentários
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  1. Antonio Carlos Silva - Brasil

    10 de abril de 2016 3:49 pm

    Menos otimismo, mais realismo e muita luta !!

    Uma ótima análise de Rui Pimenta (PCO), em 09 de abril de 2016 :

    [video:https://youtu.be/kwGwoBhiMSI%5D

  2. Luciano Prado

    10 de abril de 2016 4:22 pm

    Fora de controle e de percepção
    Os operadores do Direito, notadamente Judiciário e Ministério Público, passam por seus piores momentos no que diz respeito à aplicação das leis. A legalidade foi abandonada para dar lugar ao engajamento político como compreensão equivocada à solução dos problemas. Não bastasse o arbítrio da República de Sérgio Moro, constatamos um MP excessivamente politizado e engajado, encorajando policiais às mesmas práticas.
    Terreno propício ao surgimento de heróis e derrocada da política.
    O caminho certamente não é esse. Nem precisamos experimentá-lo para saber disso.

  3. JB Costa

    10 de abril de 2016 4:35 pm

    Preciso, mais uma vez, Jânio

    Preciso, mais uma vez, Jânio de Freitas, A imprensa brasileira não só não aprende com os erros como incide em outros até piores. Tudo por conta da soberba, dos interesses políticos e da irresponsabilidade. 

    Cala fundo no distinto público cliente-usuário da mesma quando um dos seus mais ilustres componentes faz remissão à palavrinha ÉTICA. Talvez por ecoar na lembrança a frase inigualável e formidável pela pertinência dita pelo jornalista Cláudio Abramo:

    “O Jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter.”

    Pois o que é a Ética se não uma práxis, um exercício rotineiro para enfrentar e vencer as tentações, máxime quando ocupamos posições de poder, como é o caso do jornalismo? 

    Apenas tirar a nota máxima na Cadeira de Ética na faculdade de Comunicação não deixa nenhum futuro profissional infenso às falhas de caráter por conta dos apelos ao ego e/ou a ansiedade de “subir” na profissão ou consolidar chefias. Será no dia-a-dia, na labuta diária na qual surgem os verdadeiros testes para o desabrochar das índoles. 

    1. Luciano Prado

      10 de abril de 2016 4:56 pm

      Isso não é imprensa
      A velha imprensa, essa imprensa oligopolizada não faz jornalismo, faz negócio, e sujo.
      Não haverá qualquer mudança de dentro pra fora.
      Perdeu-se no passado recente ótima oportunidade de regulamentar, democratizando a mídia.

  4. Maurício Gil - Floripa (SC)

    10 de abril de 2016 6:08 pm

    UMA PERGUNTA, APENAS.

    Uma “coisa” me intriga há muito tempo. Admiro, desde os tempos gloriosos em que eu era assinante da Folha (década de 80), o Jânio de Freitas, sou daqueles que não perde uma coluna dele, é uma de minhas obrigações semanais: ler a coluna do Jânio. E os blogs me facilitam essa empreitada, pois não preciso acessar o site da Folha – ou o jornal impresso.

    Entretanto, me causa espécie o seguinte: ele não participa do Conselho Editorial do jornal? E um dos mais antigos – se não o mais antigo? Sendo assim, ele não opina nada lá dentro quanto à coduta do diário dos Frias, não palpita, não discorda da linha editorial adotada, limita-se a manifestar o seu ponto de vista em sua coluna, como que a conceder ao veículo uma aura de diversidade de opiniões, de isenção político-ideológica?

    Não seria o caso de deixar a Folha, procurar um local mais plural, mais democrático, como a CartaCapital, por exemplo?

    Ele não apita nada na Folha, é isso? Mesmo sendo do seu conselhão?

     

  5. Wanderley dantas

    10 de abril de 2016 6:16 pm

    A lição da escola

    Belo texto. É a velha escola jornalística!

  6. maria rodrigues

    10 de abril de 2016 7:41 pm

    Sobre a infâmia praticada

    Sobre a infâmia praticada pela mídia contra a Escola Base, fiquei com uma imagem de uma apresentação de vários jornalistas, após o episódio, que faziam mea-culpa. Lembro-me mais de dois, Carlos Nascimento e Márcia Peltier. Carlos Nascimento contou que um dia, entrando numa agência de Correios em São Paulo, uma senhora sentada na escadaria da entrada, vendendo selos, dirigiu-se a ele. Qual foi a surpresa do jornalista, quando ela se identificou, culpando-o por estar naquela situação, pois trabalhava na escola e perdera seu emprego. Foi um tapa na cara, que, segundo ele, nunca esquecria daquele dia, e daquela mulher.

    Cada dia aumenta mais a mnha admiração por Jânio de Freitas. Que homem mais sensível, mais ético, mais justo. Quanto tem de experiência de probidade e coerência no exercício de sua profissão. 

    Um fato relevante é essa perseguição contra Lula e seus familiares são as arbitrariedades cometidas por quem, na PGR, e em todos os órgãos que compõem a Justiça, não terem apresentado ao longo de anos uma só denúncia que pudesse servir de base para incriminá-lo. Uma coisa muito feia, porque ficam esses órgãos desmoralizados cada dia mais, enquanto Lula, mal ou bem, segue seu caminho, aos trancos e barrancos, com índices até aumentados nas pesquisas de opinião como pré-candidato à Presidência. Não é Lula quem está desvalorizado, mas a Justiça brasileira. 

  7. Josiel Nunes

    11 de abril de 2016 12:54 pm

    Não sabia que os acusados da

    Não sabia que os acusados da Escola Base haviam confessado crimes, delatado uns aos outros e entregado às autoridades policiais provas de que haviam molestado crianças. Fora esse detalhe, concordo com o jornalista num ponto: o povo, em sua imensa maioria, tende mesmo a acreditar na palavra do Procurador e dos policiais. Principalmente quando essa palavra se baseia em fatos comprovados, como é o caso da Lava Jato. Pois infelizmente para Janio, as vezes eles estão certos e quando eles trabalham direito não há Escola Base no mundo que possa ser utilizada para livrar a cara dos maganos.

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