Série Piauí Cultura Regional (30)
Chiquim Ferreira: Os 90 anos de um Patrimônio Vivo do Piauí
por Eduardo Pontin
Aclamado Cantador de Lezeira, Seu Chiquim Ferreira acaba de completar 90 anos de idade sendo festejado como um dos maiores mestres de cultura do Piauí. Nascido em Floresta do Piauí, o reconhecimento veio de modo tardio, mas veio. Aos 85 anos foi diplomado Mestre Imortal pela Academia Florestense de Cultura Popular, titulação recebida do poder público de seu município e, aos 86, foi certificado Patrimônio Vivo do Piauí pelo Governo do Estado. A Lezeira é a celebração de uma trajetória de vida que envolve muita luta e muito suor sertão adentro. Afinal, do que é feito um Patrimônio Vivo? Conheça a seguir os passos que Mestre Chiquim Ferreira deu ao longo de sua vida para hoje ser reconhecido como detentor de uma das pisadas mais firmes e mais certeiras da comunidade da Lezeira.

Infância
Francisco Ferreira da Silva nasceu no dia 30 de julho de 1936, no território que hoje pertence à cidade de Floresta do Piauí, mas que na época fazia parte de Simplício Mendes. Filho de Maria das Dores de Jesus e de Manoel Ferreira da Silva, o pequeno Chico foi criado no povoado Riacho com simplicidade, mas com fartura. Como a região onde viviam era distante das cidades, seu pai, muito vivo, percorria 200 km de cavalo até o município de Floriano, um dos maiores do estado, de onde regressava com mais 10 jumentos encangaiados de mercadorias compradas que eram negociadas e revendidas em Simplício Mendes. Porém, com apenas 8 anos de idade o pequeno Chico perdeu o pai, que se foi precocemente, com menos de 40 anos. Chiquim então passou a viver com a mãe e os irmãos.

A dor da perda do pai cortou fundo aquele garoto, mas não havia tempo para lamentações. Desde pequeno Chiquim aprendeu a lida do sertão, labutando com gado, ovelha e enxada. A fartura em sua casa era presente principalmente com a produção artesanal de laticínios como coalhada escorrida, queijo requeijão, doce de leite, manteiga da terra entre outras iguarias do sertão piauiense. Para que houvesse essa fartura, entretanto, Chiquim executava exaustiva jornada de trabalho braçal sozinho, acordando às 3 horas da manhã para dar conta de tudo. Escola nem existia na região onde morava. A vida estava só começando.

Chiquim entra na roda da Lezeira
Em meio a esse cenário rural de labuta pesada diária, certa noite o adolescente Francisco presenciou uma roda de Lezeira e se encantou. Não é possível descrever o que Chiquim sentiu naquela madrugada estrelada ao avistar Raimundo de Vicente e Ti Gusto entoarem versos com a veia do pescoço saltada que entravam em seus ouvidos para nunca mais saírem de sua alma. Aquelas quadras faziam não apenas todos dançarem numa grande engrenagem, mas também todos se rirem, numa comunhão de espírito em que a graça reinava. Chiquim Ferreira tinha apenas 15 anos e, naquele longínquo 1951, ainda não fazia ideia de que no futuro seria ele o mestre naquele tipo de cantoria dançada e que Floresta do Piauí passaria a ser conhecida como Capital da Lezeira.

Vida adulta, labuta e prole
Aos 21 anos, em 1957, Francisco casou-se com Luiza, com quem teve 2 filhos, indo morar na Carnaibinha, hoje centro de Floresta do Piauí, onde permanece na mesma casa. Fatalmente, porém, quando estava grávida de mais um filho, sua primeira esposa veio a falecer. Era muito sofrimento para quem ainda estava apenas na flor da idade. Mas Chiquim não se abateu, e logo outra Luiza surgiu em sua vida para florir seus caminhos. Com a segunda esposa, teve mais 11 filhos.

Com tantas bocas para alimentar, Chiquim se virava no jogo da vida para dar conta do recado. No inverno trabalhava na roça, semeando, plantando e colhendo legumes. A colheita de algodão também era forte na região e Chiquim trabalhava de sol a sol para garantir essa venda aos compradores de Oeiras, ex-capital do Piauí.

Nas entressafras, atuava como aparador de palha de carnaúba, já que a região de Floresta é ainda hoje vestida de carnaubais. Além disso, Chiquim especializou-se na arte da olaria, chegando a bater impressionantes 2 milheiros de tijolo por dia. Fora tudo isso, especializou-se também na couraria, fazendo mil maravilhas no processo do couro cru e curtido, confeccionando selas, chicotes, peias, entre outros acessórios. E se houvesse necessidade, Chiquim ia pra chapada de madrugada em busca do alimento na rica fauna local.
Em fins dos anos 1990, Chiquim ficou viúvo pela segunda vez. Luiza foi grande companheira na batalha da vida, além de ser exímia dançadeira de Lezeira, pois fazia parte da família Torres, guardiã dessa manifestação cultural em Floresta. A dor mais uma vez calou fundo. Mas para consolo do velho Cantador, hoje sua prole se multiplicou e a conta já chega a quase 70 netos/bisnetos/tataraneto.

Reconhecimento
A partir de 2020, quando eu e a jornalista Francisca Sousa moramos em Floresta do Piauí, passamos a frequentar a casa de Chiquim Ferreira. Logo percebemos o seu extraordinário talento tanto para cantar, quanto para dançar Lezeira. Chiquim é verdadeiro repositório de saberes ancestrais dessa brincadeira, conhecendo como poucos os seus fundamentos e a sua simbologia. Sem contar que é verdadeira metralhadora de versos, tendo nos ensinado cerca de 150 quadras, além de mais de 30 cantigas (motivos melódicos).

Em 2021, Seu Chiquim foi um dos mestres fundadores da Academia Florestense de Cultura Popular, entidade apoiada pela Prefeitura de Floresta do Piauí.

Em 2022, ao receber o certificado de Patrimônio Vivo do Piauí das mãos da governadora Regina Sousa (PT), gestora responsável por desengavetar essa Lei após mais de uma década de esquecimento, escutou da ex-quebradeira de coco: “Meu sonho era poder entregar um título dessa grandeza a uma pessoa que está no palácio do governo como estaria na simplicidade de sua casa, de chinelo. Estou muito feliz”.

Em 2023, participou da gravação do álbum digital field recording “Lezeira de Floresta”, que teve também na equipe técnica o produtor musical Zé Dantas e o documentarista Roberto Sabóia, ambos de Teresina.

Seu Chiquim abre o disco entoando as faixas “Boi do Marinhá” (será o mesmo maiorá do Cantador de Coco Chico Antônio que tanto encantou Mário de Andrade?) e “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá”, da qual foi retirado o verso que dá nome a obra sobre a Lezeira. Ouça Chiquim Ferreira enfrentando roda de Lezeira:
Ainda em 2023, foi entrevistado pelo historiador Ricardo Augusto Pereira, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a fim de instruir o processo de registro da Lezeira para que ela venha a se tornar Patrimônio Cultural Brasileiro.

Por tudo isso, em 2024 foi um dos protagonistas do livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”, indicado ao Jabuti e reconhecido pelo Iphan no Concurso Sílvio Romero. Mestre Chiquim esteve presente no lançamento da obra em evento da Academia Florestente de Cultura Popular, dando o seu recado em versos acompanhados de pisadas na medida.
Balanço e continuidade
Hoje, ao inteirar 90 anos, o sentimento é de dever cumprido. Chiquim Ferreira proporcionou uma vida digna a sua família e, nos intervalos, abasteceu a sua alma e a de seus conterrâneos em rodas de Lezeira memoráveis, tornando-se célebre Cantador dos lados de Floresta e Santo Inácio do Piauí.

O velho Chiquim Ferreira continua com o assunto em dia, pronto para transmitir às novas gerações os segredos da Lezeira, expressão cultural que cultiva, cuida, acarinha e domina como ninguém. O veterano Cantador não se cansa e, entre muitas outras coisas, ainda ensina: a pisada da dança da Lezeira acompanha a toada da cantiga que está sendo cantada. Assim na Lezeira, assim na vida.
Chiquim Ferreira é, sem dúvida alguma, o maior Cantador de Lezeira que conheci na vida. A bença, Mestre!

Eduardo Pontin é etnomusicólogo e escritor indicado ao Jabuti e premiado pelo Concurso Sílvio Romero do IPHAN por seus trabalhos sobre a Lezeira (dança afro-indígena piauiense) e o Samba de Cumbuca (Samba rural piauiense). No campo da preservação documental, é o organizador do Acervo Nêgo Bispo. Produtor fonográfico da série discográfica “Lezeira do Sertão do Piauí” (field recording).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário