14 de agosto de 2026

Mediação ou omissão?, por Luís Delcides

A mediação é o que nos permite ir do imediato ao elaborado, do caos à compreensão. E foi essa ponte que a Band deliberadamente incendiou.
Reprodução

Debate na Band teve mediação ineficaz, com candidatos atacando-se livremente e sem controle do mediador Rodolfo Schneider.
Fernando Haddad precisou desmentir sozinho declarações de Tarcísio, devido à ausência de questionamentos e controle do mediador.
Crítica aponta que Band priorizou espetáculo em vez de jornalismo, prejudicando o debate e a clareza para os eleitores.

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Mediação ou omissão?

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por Luís Delcides

“O mediador fez um trabalho brilhante. Não é por que é meu chefe, mas o trabalho foi brilhante…”  Palavras do apresentador do Band News São Paulo, Luiz Megale ao elogiar Rodolfo Schineider. Logo, a percepção do telespectador foi de omissão, ao deixar os candidatos se atacarem livremente e obrigou Haddad a fazer o trabalho que cabia ao mediador

Primeiramente, é preciso trazer a luz sobre a função primordial da mediação em um debate político é garantir equilíbrio, civilidade e, acima de tudo, que os eleitores tenham acesso a informações claras e ao confronto direto de ideias dentro de um mínimo de ordem.

No entanto, o que se viu no recente evento promovido pela Band foi uma antítese desconcertante desse princípio. O jornalismo, que deveria ser o guardião da verdade e da isonomia, foi escanteado em favor de um espetáculo de baixo nível, onde a arbitragem foi relegada a um papel figurativo, e os candidatos, entregues à própria sorte num ringue sem regras.

A enxurrada de críticas, capitaneada de forma contundente pelo jornalista Victor Panchorra em seu canal no YouTube, e a análise cirúrgica do meu texto , publicado no Jornal GGN, nos fornecem as lentes necessárias para enxergar o que a Band tentou esconder: a completa falência do formato e a omissão da emissora.

No entanto, para compreendermos a gravidade do que ocorreu, é preciso ir além da superfície do acontecimento e examinar o próprio conceito de mediação – não apenas como técnica jornalística, mas como categoria filosófica que revela o que estava em jogo. A mediação, em sua essência, é o que nos permite ir do imediato ao elaborado, do caos à compreensão. E foi exatamente essa ponte que a Band deliberadamente incendiou.

 A mediação não é enfeite: é a alma do debate

Para Hegel, a mediação é o movimento dialético que conecta o imediato – aquilo que se apresenta aos sentidos sem reflexão – ao todo concreto. Nada existe isoladamente; tudo se articula por meio de oposições que se resolvem em sínteses superiores. A mediação hegeliana é o trabalho do pensamento que transforma o dado bruto em conhecimento verdadeiro.

No debate político, o mediador deveria ser esse operador dialético: alguém que toma as afirmações imediatas dos candidatos, confronta-as com seus contrapontos e as eleva a um patamar de compreensão mais amplo para o telespectador. A Band, ao se omitir, deixou o debate no nível do imediato – o ataque rasteiro, a interrupção, o grito – e impediu que a síntese acontecesse. Não houve mediação hegeliana; houve apenas tese e antítese em combate perpétuo, sem a intervenção que traria sentido ao todo.

Já para Marx, a mediação é o trabalho humano, a atividade transformadora pela qual o homem altera a natureza e, ao fazê-lo, transforma a si mesmo. O trabalho é a ponte entre o ser humano e o mundo. Transpondo para o jornalismo, o mediador é aquele que “trabalha” a matéria-prima do debate – as falas, os dados, as promessas – para entregar ao espectador um produto elaborado, crítico e útil.

Ao não mediar, a Band deixou de realizar seu trabalho simbólico. A emissora abandonou sua função transformadora, entregando ao público não o conhecimento depurado, mas o minério bruto da discussão política – com todo o seu peso morto, suas impurezas e sua confusão.

E a Teoria Crítica, em especial com Adorno, nos adverte que a mediação revela as contradições da sociedade. Ela nos ensina que a cultura e o pensamento não são puros, pois carregam as marcas das relações sociais e econômicas que os produzem. Um mediador honesto, sob essa perspectiva, não seria um juiz neutro – pois a neutralidade é um mito – mas alguém que, ao pautar o debate, expõe as fissuras do sistema, as assimetrias de poder e os interesses ocultos.

 Ao se furtar desse papel, a Band não apenas deixou de revelar contradições; ela as reforçou, ao dar espaço equalizado para que o discurso oficial e a crítica factual disputassem em pé de igualdade – como se um incêndio em trem superlotado tivesse o mesmo peso de uma promessa de modernização.

 Mediação de mentira: Rodolfo Schneider foi só fachada

O ponto nodal do escândalo reside na figura do mediador, o jornalista Rodolfo Schneider. Enquanto a produção insistia em vendê-lo como o árbitro da disputa, e ele próprio recebia elogios – pasmem – de Luiz Megale por sua “atuação”, o que se viu na prática foi a ausência completa de um mediador.

Faltou o principal: a capacidade de interromper, de pautar, de contestar e de garantir o tempo de fala equânime. Sempre que as discussões descambavam para o vale-tudo, a postura da emissora era a de um espectador inerte, filmando o caos em vez de contê-lo. Essa é a “mediação” elogiada por Megale? Se sim, estamos diante de um elogio à ineficiência, ou pior, à intenção deliberada de transformar o debate em entretenimento rasteiro.

Victor Panchorra, comunicador e YouTuber, questiona sobre a mediação e a falta de questionamentos por parte do mediador Rodolfo Schneider. Ou seja, o telespectador não conseguiu saber de nenhum projeto e o Haddad teve que desmentir o atual governador por todo o período do debate.

“Como é que uma pessoa comum (…). vai saber se o Tarcísio está falando a verdade ou não? (…) Quem desmente o mentiroso é o mediador”, diz Victor.  Ou seja, ao eliminar a figura do mediador de fato, a Band criou uma arena onde os candidatos estavam livres para trocar farpas, interromper e tentar se sobrepor pela voz, não pelo argumento. A emissora tratou a mediação como mero figurino – algo que se veste para a foto, mas que não exerce função alguma. Na prática, o que se viu foi a ausência do trabalho dialético hegeliano, a negação do trabalho transformador marxiano e a ocultação das contradições que a Teoria Crítica insistiria em escancarar.

O preço da omissão: Haddad teve que fazer o trabalho da Band

Essa “liberdade” não foi democrática; foi perigosa. O debate político exige uma estrutura que impeça a propagação de desinformação sem contraditório imediato. Nesse vácuo de poder, coube ao candidato Fernando Haddad o desgastante papel de “fact-checker” de plantão, tendo que contestar, sozinho e em tempo real, as inúmeras declarações de Tarcísio de Freitas que se chocavam com a realidade – realidade essa tão bem descrita em meu artigo.

O artigo escrito por este autor  no GGN, destrincha a “São Paulo que Tarcísio esconde”, expondo a gestão de “flash e propaganda” que contradiz os dados e o cotidiano sofrido da população. A ausência de mediação na Band tornou-se um desserviço duplo: não apenas deixou de questionar Tarcísio sobre o caos na saúde, a privatização da Sabesp, as falhas no transporte e os pedágios abusivos, como também sobrecarregou Haddad com a tarefa de desmentir o que o mediador deveria ter pautado. Não houve tempo para aprofundar políticas públicas; houve tempo para o embate estéril.

A postura da Band, ao se furtar de sua responsabilidade editorial, revela uma escolha deliberada. Ao enaltecer uma “mediação” que não existiu, a emissora mostra seu verdadeiro norte: o sensacionalismo e a audiência fácil valem mais do que a integridade informativa. A crítica de Panchorra e a análise de Delcides convergem para um mesmo diagnóstico: o jornalismo foi trocado pelo circo. Ao permitir que os candidatos se atacassem livremente sem um norte claro, a Band não serviu ao eleitor paulista.

 Sem mediação, a desinformação vence

O episódio deixa uma lição amarga que ecoa os ensinamentos dos grandes pensadores da mediação. A mediação não é um detalhe ou um adereço de produção; ela é a espinha dorsal do debate democrático. Sem ela, o imediato não se transforma em conhecimento, o trabalho jornalístico se esvazia de sentido e as contradições sociais permanecem ocultas sob o verniz do entretenimento.

Ao esvaziá-la, a Band não apenas prejudicou o pleito, mas também ajudou a esconder, como bem aponta o autor deste texto no Portal GGN, a verdadeira São Paulo dos problemas reais, em favor de um embate de superfície, adequado apenas para os clipes que viralizam nas redes sociais.

Não houve mediação hegeliana que elevasse o debate à síntese. Não houve mediação marxiana do trabalho jornalístico que transformasse o caos em informação. Não houve mediação adorniana que expusesse as contradições de uma gestão que decora números enquanto a cidade pega fogo. O que houve foi a ausência – e essa ausência, longe de ser neutra, foi uma tomada de posição.

Que fique o registro: onde a mediação fraqueja, a desinformação se fortalece. E a Band escolheu mal o seu lado.

Luís DelcidesAdvogado e jornalista

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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