20 de maio de 2026

Israel: a indústria bélica como sobrevivência, por Heba Ayyad

O Knesset israelense aprovou, em segunda e terceira votações, um projeto de lei que impõe a pena de morte a prisioneiros palestinos.
Figura 1 Veículos militares em Gaza e o Primeiro Ministro israelense, Netaniahu: guerra já vem durando a anos e não parece estar próxima do fim - Fonte das Imagens: Reuters - Reprodução

Knesset israelense aprovou lei que permite pena de morte para prisioneiros palestinos por crimes nacionalistas.
Pesquisa de março de 2026 mostra maioria dos israelenses apoia guerra contra Irã, em contraste com a opinião dos EUA.
Sociedade israelense se militarizou, vendo a guerra como identidade, necessidade interna e barreira à paz.

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Sociedade israelense: a indústria bélica como ferramenta de sobrevivência

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por Heba Ayyad

A produção da guerra e sua constante reformulação fazem com que a sociedade israelense, caracterizada por extremo pluralismo e por contradições étnicas e religiosas, encontre no foco na “ameaça existencial comum” o elo que impede a sua desintegração. O Knesset israelense aprovou, em segunda e terceira votações, um projeto de lei que impõe a pena de morte a prisioneiros palestinos. A lei, elaborada pelo ministro extremista Itamar Ben-Gvir, concede aos tribunais militares a autoridade para condenar à morte qualquer palestino que mate intencionalmente um israelense por motivos “nacionalistas ou hostis”.

Essa lei, juntamente com diversas pesquisas de opinião publicadas em março de 2026 — que indicam um aumento no apoio israelense a uma guerra com o Irã —, é significativa. Uma pesquisa publicada pelo The Guardian, em 26 de março de 2026, revelou que a grande maioria dos israelenses ainda apoia uma guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, ao contrário da maioria dos estadunidenses, que se opõe a tal guerra.

Para analisar esse fenômeno na sociedade israelense, que está rapidamente se inclinando ao extremismo, tolerando a brutalidade e o genocídio e recompensando aqueles que instigam guerras, pode-se argumentar que ela se tornou uma “produtora de guerras e uma transformadora por meio delas”. A militarização da sociedade se consolidou, e a guerra deixou de ser um mero “meio”, como definido por Clausewitz, para tornar-se um “fim” social e existencial em si mesma.

Isso pode ser enquadrado da seguinte forma:

1. A guerra como produtora de identidade

A produção da guerra e sua reformulação por meio dela fazem com que a sociedade israelense, caracterizada por um pluralismo extremo e por contradições étnicas e religiosas (ashkenazim, sefarditas, haredim, religiosos e seculares), encontre no foco em uma “ameaça existencial comum” o elo que impede a sua desintegração.

Assim, a guerra serve para fundir componentes díspares, oriundos de diferentes partes do mundo, em uma única identidade nacional. Dessa forma, o “exército” não é mais apenas uma ferramenta defensiva, mas a instituição que define a “cidadania” e confere legitimidade aos indivíduos dentro da sociedade, o que o torna a instituição que goza de um nível de confiança maior do que os políticos nas pesquisas de opinião.

2. A guerra como necessidade interna

A continuidade de um estado de guerra protege o sistema político e social do enfrentamento de desafios internos há muito adiados. Sem um inimigo externo, questões importantes viriam à tona, como a luta pela identidade, as divisões de classe, a discriminação entre os próprios colonos judeus e os conflitos estruturais que quase levaram a uma guerra civil no verão de 2023, como alertado pelo presidente israelense Isaac Herzog.

Assim, nesse contexto, a guerra serve como um mecanismo de “exportação de crises” para o exterior, em vez de enfrentá-las internamente.

3. A paz como processo de “desmantelamento”

O aspecto mais perigoso para a sociedade e as elites israelenses é que elas veem a paz não como um “ganho” que garante sua segurança e estabilidade, mas como uma “ameaça estrutural”, por vários motivos:

A paz significa a ausência de um inimigo que justifique a renúncia aos direitos individuais em favor da segurança coletiva.

Para as forças de direita e religiosas que dominam a sociedade e a política israelenses, a paz exige concessões territoriais e ideológicas, bem como a concessão de direitos aos palestinos. Isso corroeria a narrativa sionista baseada na expansão dos assentamentos, no confronto contínuo e na promessa divina de um “Grande Israel”.

A paz diminuiria a influência de figuras da segurança e das forças armadas na tomada de decisões, ameaçando os interesses daqueles que derivam seu poder de um estado de emergência perpétuo.

Assim, os acontecimentos entre 2023 e 2026 confirmam a conclusão de que a sociedade israelense se tornou produtora de guerras e é remodelada por elas. Esse processo se baseia em três pilares fundamentais:

A sociedade israelense não escolhe mais a guerra de forma consciente e preferencial, mas sim porque o ambiente político, midiático e legislativo tornou a guerra a única opção disponível. A lei que autoriza a execução de prisioneiros e os altos índices de apoio à guerra nas pesquisas de opinião refletem uma tendência social que vê a força como a única solução, moldada pelo medo existencial.

A mídia israelense contribui para a formação da consciência pública dentro de uma estrutura nacional unificada. A “narrativa da vitória” (promovida por Netanyahu de forma consistente desde 2024) é apresentada como uma forma de tranquilizar uma sociedade ansiosa, suprimindo críticas e, por vezes, levando até mesmo opositores a apoiar guerras.

Desde o início do século XXI, a sociedade tem sido sistematicamente moldada e impulsionada em direção ao extremismo de direita, por meio de escolas em que o ensino religioso substituiu o ensino nacional e por meio do exército, que foi influenciado por um rabinato que se baseia na Torá para justificar o combate e a resiliência dos soldados. Consequentemente, o sistema político transformou-se em uma estrutura que recompensa os partidos mais radicais e militaristas.

Heba Ayyad – Jornalista internacional. Escritora Palestina Brasileira.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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