Para além da economia que conhecemos
por Maria Conceição Golobovante
O chamado profético da Economia de Francisco e Clara para tempos apocalípticos
Nossa proposta de uma economia baseada no feminino, no cíclico,
na acolhida, no cuidado e no afeto, pressupõe uma transição radical
nos modos e nas formas de produção linear, masculinizada, que impôs
uma visão de progresso baseada na extração. Assumimos uma
compreensão circular dos processos produtivos.
Carta de Clara e Francisco
Quando o Papa Francisco escolheu a data de 1º de maio de 2019 para fazer o chamado a jovens economistas e empresários do mundo inteiro a se engajar na nova economia “que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta”, convidando-os a aceitar o convite ao Encontro “que nos ajude a estar unidos, a conhecer-nos uns aos outros, e que nos leve a estabelecer um ‘pacto’ para mudar a economia atual e atribuir uma alma à economia de amanhã”, estava clara a opção por quem deveria estar no centro da nova economia: as pessoas trabalhadoras.
Ali, Francisco conclamava ser necessário “realmar” a economia! E que esse encontro só poderia acontecer na cidade de Assis, locus secular do humanismo da fraternidade. Com efeito, foi ali que Francisco (o santo) despojou-se de toda a mundanidade para escolher Deus como Estrela polar da sua vida, fazendo-se pobre com os pobres, irmão universal. Da sua escolha pela pobreza brotou também uma visão da economia que permanece extremamente atual. Ela pode dar esperança ao nosso amanhã, não apenas em benefício dos mais pobres, mas de toda a humanidade.
Para católicos e não católicos, crentes e não crentes, religiosos, ateus e agnósticos, como é possível analisar hoje esse chamado feito há sete anos? Seria um mero apelo discursivo? Ou poderia ser mais um anúncio, como outros do pontificado de Francisco? Nossa hipótese é que Francisco (o Papa) lançou um chamado profético, imprescindível, para que parássemos e refletíssemos, nós, todas as pessoas que habitam esse planeta, para analisar que tipo de economia domina e determina nossas vidas. Para que e por que acordamos todos os dias e onde investimos nosso tempo e nossa energia diariamente?
Ao dar o nome de Francisco, o Poverello, a essa nova Economia, pode o senso comum entender, de forma equivocada, que o anúncio papal na verdade foi uma “apologia da pobreza”, quando a convocação é o oposto, pois quem promove a escassez, a desigualdade, o ecocídio, a violência e a opressão é justamente a economia dita capitalista que nos domina globalmente. Aqui é importante referenciar o pensamento do professor Ladislau Dowbor, pois quando nos referimos à economia capitalista, miramos os megacapitalistas financeiros, numericamente poucos, bilionários, trilionários, trilhardários, cuja ambição desmedida e doentia transformou a economia global em uma trama de biopoder anômala e distópica. Ou seja, às profundas desigualdades sociais, aos ecocídios diários cometidos contra a fauna e a flora e aos ataques aos sistemas democráticos, esses “players” agora ampliam exponencialmente sua artilharia simbólica e bélica em três frentes: – a exploração econômica dos corpos extraterrestres, como a Lua, por meio da nova corrida espacial; – o domínio opaco da codificação tecnológica, incluindo a inteligência artificial, que veta o controle externo de governos e entidades regulatórias locais ou globais; e a aceleração da exploração de recursos naturais e dos corpos humanos, que passam a ser submetidos a regimes de escravidão e submissão sem precedentes.
O que pode se contrapor a esse contexto apocalíptico? Do Vaticano, que segue sendo o maior data center da humanidade com seu acervo milenar de conhecimentos materiais e imateriais, mesmo com todas as contradições e problemas internos que a Igreja Católica tem enfrentado nas últimas décadas, é desse lugar, e somente dele talvez, que poderia ter surgido o chamado de Francisco. Um papa que veio do fim do mundo, jesuíta, afeito à Teologia do Povo e que, por meio de suas encíclicas Laudato Sì, Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti, alicerçou os argumentos do Novo Humanismo, base ético-pragmática que gesta o anúncio da Economia de Francisco e a necessidade de realmar a Economia, deslocando-a do lugar tecnocrático, dominado apenas por números e algoritmos, para sua recondução epistemológica a uma economia social, que deve servir a todas as pessoas e ao planeta (Casa Comum).
Daí o Papa Francisco ter direcionado seu chamado aos jovens, não restritos à faixa etária, mas àqueles que, independentemente da idade, permanecem fiéis ao ideal utópico de que outra economia é possível. O chamado que animou pessoas no mundo inteiro foi uma semente lançada, tal como nos ensina Jesus na Parábola do Semeador (Mateus 13, 1-9), pois “caiu em boa terra e deu boa colheita, de modo que produziu cem, sessenta e trinta vezes mais”. A mensagem vem mobilizando pessoas de diferentes culturas, nacionalidades, credos e ideologias para essa construção. E o Brasil é uma das terras mais férteis dessa semeadura. Após o chamado lançado em Roma em 2019, grupos sensíveis à causa socioambiental passaram a se reunir e difundir a mensagem, que culmina no primeiro encontro brasileiro da Economia de Francisco, realizado na PUC-SP, em novembro de 2019. Note-se que no mesmo mês, apenas alguns dias antes, o Fórum Social da Baixada Santista, que reuniu mais de 200 organizações da sociedade civil no auditório da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), em Santos, São Paulo, já havia lançado a boa nova em uma mesa dedicada à Economia de Francisco, com a presença do então bispo da Diocese de Santos,Dom Tarcísio Scaramussa, o engenheiro Sérgio Storch (defensor dos Direitos Humanos e criador do grupo Judeus Progressistas Pela Democracia) e a bióloga Ingrid Furlan Öberg (mestre em planejamento ambiental e que já havia sido convidada pelo Vaticano a participar do Sínodo da Amazônia). A mesa foi mediada pelo economista José Pascoal Vaz, que viria a se tornar um dos maiores líderes do movimento no Brasil.
Voltando ao encontro realizado na PUC-SP, foi lá que se discutiu e se decidiu pela inclusão de Santa Clara no nome, fazendo com que o Brasil seja o único país que assumiu a paridade de liderança no movimento. A carta que dá origem à Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara é um manifesto corajoso e belo, pois surge como um cântico inspirador:
Carta de Clara e Francisco
Um ponto de partida.
Uma ponte, como as pontes que Santa Clara de Assis desejava construir.
Direto do Brasil, em Encontro Nacional, escrevemos nossa Carta iniciando pelo significado da Sagrada Feminilidade para a mudança de paradigma na economia global. A Economia, substantivo feminino.
Todas as mulheres que nos habitam, a menina que há em mim, a mulher que há em mim, a mulher que é minha mãe, a mulher que é minha avó; a menina que é minha irmã e minha filha, a mulher que é minha companheira. A todas essas mulheres, reconhecemos e pedimos perdão. Agradecemos, amamos e honramos os saberes ancestrais transmitidos por elas, pelo feminino que traz a vida em seu ventre.
Nossa proposta de uma economia baseada no feminino, no cíclico, na acolhida, no cuidado e no afeto, pressupõe uma transição radical nos modos e nas formas de produção linear, masculinizada, que impôs uma visão de progresso baseada na extração. Assumimos uma compreensão circular dos processos produtivos.
Também expressa um profundo compromisso ético com as gerações que estão por vir. Escutando a silenciosa linguagem de Clara de Assis, nós nos fazemos ponte a ligar “os que têm de sobra com aqueles que sentem falta de tanta coisa”. Para as novas economias no século XXI, masculino e feminino têm que caminhar lado a lado, ombreados, nem à frente nem atrás, mas de mãos dadas, como o “Irmão Sol” e a “Irmã Lua”. Economia de Francisco e Clara é o que pretendemos praticar e honrar.
Inspirados em Clara e Francisco, manifestamos nosso desejo por uma profunda mudança no enfoque até hoje estabelecido nas relações econômicas. A começar pela divisão sexual do trabalho, valorizando os saberes tradicionais das mulheres e suas formas de cuidado e respeito à natureza cíclica de nossa casa comum, o planeta Terra. O patriarcado reduziu a economia unicamente à dimensão material e produtivista. Essa concepção distorceu o sentido do bem-estar social, produzindo iniquidade e infelicidade.
No caminhar junto, feminino e masculino buscam novos paradigmas: da competição para a colaboração; do egoísmo para a generosidade; da exploração para a sustentabilidade; da acumulação para a distribuição; do desequilíbrio nas relações entre pessoas e países para o equilíbrio, com comércio justo e solidário; do consumo desenfreado ao consumo responsável; da ganância ao altruísmo.
(Trecho da Carta, acessível no site da Abefc)
Essa postura da Articulação Nacional determinou a forma de atuação que se disseminou pelo Brasil. Como afirmam Eduardo Brasileiro, sociólogo, e Gabriela Consolaro, advogada, dois dos mais atuantes líderes do movimento no Brasil, a Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC) é uma organização territorial inspirada pelo movimento global Economy Of Francesco. No Brasil, o foco são as atividades territoriais com as pessoas preferidas de Francisco: empobrecidas, marginalizadas, descartadas. De Universidades, igrejas e movimentos populares, são organizados grupos em territórios periféricos para dar voz e mãos aos sonhos do Papa: tornar realidade a ecologia integral, a cultura do encontro e o protagonismo das juventudes, das mulheres e dos excluídos.
Cada território passou a responder de uma maneira diferente ao chamado do Papa Francisco e a agir de forma popular para outras economias possíveis. As iniciativas são dezenas e espontâneas, sendo impossível a catalogação de todas, mas as que estão estruturadas e em funcionamento efetivo e constante são as Casas de Francisco e Clara: CFC Amazônica em Manaus, CFC indígena em Serra Grande na Bahia, CFC da Baixada Santista em SP, CFC de Campinas em SP, CFC na favela do Sol Nascente em BSB, CFC da PUC Paraná em Curitiba, CFC de Florianópolis em SC, CFC em Canoas no RS, em São Leopoldo no RS, CFC de Viamão no RS, CFC de Campina Grande em PB, CFC em Várzea/PB e CFC de Belo Horizonte/MG.
Nas Casas de Francisco e Clara, o sonho de Francisco se concretiza pela implementação de hortas comunitárias, cozinhas solidárias com centenas de refeições distribuídas diariamente, painéis solares no sertão, se trabalha a empregabilidade dos grupos vulneráveis, são realizadas feiras de produtos da economia solidária, rodas de conversa entre pequenos empreendedores, formações em direitos humanos, formações para que a comunidade se capacite e tenha renda, busque políticas públicas, cuide da natureza no entorno do bairro e muitas outras atividades.
Além desses espaços, a Articulação tem mais 15 núcleos territoriais organizados por pessoas que trabalham a partir das atuações que já possuem: proferem palestras, organizam rodas de conversas, elaboram cartilhas, participam de campanhas, buscam diálogos com governantes e organismos da Igreja, sempre buscando o diálogo intercrenças.
Ousadia e sonhos
Voltando ao chamado do papa Francisco para Assis, a pandemia de 2020 impactou muito o movimento em seu nascedouro, e como uma bebê recém-nascida, já sentindo a asfixia do sistema, mesmo com o impedimento da realização do 1º encontro global previsto para março de 2020 — importante lembrar que uma das imagens mais impactantes daquele momento histórico foi a cena do Papa Francisco atravessando sozinho a praça São Pedro para rezar e pedir misericórdia pela humanidade – e com a desistência de alguns e as muitas vidas ceifadas pela Covid, ainda assim, a recém-nascida Economia de Francisco e Clara resistiu e começou a dar seus primeiros passos.
No período pós-pandemia, houve o Encontro de Assis em novembro de 2022, e ali a Articulação Brasileira e outras organizações não europeias tomariam rumos próprios para “realmar a economia”, pois no Sul Global urge criar trincheiras de defesa das democracias, alternativas de geração de renda para os vulnerabilizados, e redes de solidariedade efetivas frente aos desafios da emergência climática e do enfrentamento das desigualdades que vitimizam os mais pobres.
De 2022 até aqui, o movimento amadureceu e realizou dois encontros nacionais. Em 2021, houve II Encontro Nacional, ainda em formato virtual, que teve a mesa de abertura “Uma Economia Antirrascista e Decolonial”, seguida pelo ritual Luzes para Brumadinho, em homenagem aos mortos na tragédia provocada pela mineradora Vale, e dois dias seguidos de encontros virtuais dos núcleos regionais com ênfase em atividades concretas de incidência nos territórios.
Em 2025, houve o III Encontro realizado em Recife, o primeiro presencial após o realizado na PUC-SP. Foram mais de quatrocentas pessoas inscritas, representantes de comunidades, núcleos e Casas de quase todos os estados do Brasil, núcleos e Casas em diálogos e debates para troca de experiências e organização de ações conjuntas. Personalidades públicas, ministros de Estado, lideranças políticas e, principalmente, movimentos sociais, estiveram presentes e criaram momentos ricos e únicos de gestação de novos mundos, traduzidos na Carta de Recife.
A partir do crescimento de governos de extrema-direita e da proliferação de conflitos bélicos e guerras em várias partes do planeta, que forçam mudanças expressivas na geopolítica global, não há dúvidas de que o Brasil e, principalmente os biomas e recursos naturais de nosso país, assim como nossos bens e manifestações culturais, estão no centro dos interesses desses mesmos capitalistas já nomeados neste artigo. Há um perigo iminente e precisamos mais do que resistir, precisamos ousar e sonhar novos mundos. Neste ano de eleição, a ABEFC lançou uma carta e um percurso formativo com três encontros sob a metodologia do Ver, Julgar e Agir, para olhar a realidade brasileira, refletir à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja e promover caminhos concretos para um Brasil mais justo e fraterno.
Ao mesmo tempo em que atua de forma orgânica, horizontal e capilarizada em todo o território nacional, é missão de quem acredita na Economia de Francisco e Clara perceber a fé e a crença das pessoas como algo fundante de suas subjetividades e relações, inclusive as econômicas. Abordar isso de forma tolerante e acolhedora, buscando construir comuns possíveis, espaços de diálogos e trocas saudáveis e regeneradoras, significa realmar a economia pelo engajamento coletivo. Não se trata de impor uma ideia a priori, mas de construir junto com os saberes, populares e científicos, e as culturas, ancestrais e ultra tecnológicas, de todos os seres viventes, uma ecologia integral que gere emancipação popular efetiva. Se decidirmos assumir isso em nossas vidas cotidianas, estamos dizendo sim ao chamado profético de Francisco.
Maria Conceição Golobovante é Pós Doutorado em Sustentabilidade pela Poli-USP. Pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP, e dos grupos de Pesquisa e Extensão PUC no Clima e Mediações Telemáticas da PUC-SP. Membro da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara da Baixada Santista e colaboradora da Rede BrCidades.
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